O Amor de Uma Boa Mulher – Alice Munro

amor-boa-mulherEntão chegamos ao prêmio literário de maior prestígio do mundo, o Nobel. O franco favorito a ser contemplado em 2013, o nigeriano Chinua Achebe, faleceu no começo do ano – e como não há premiação póstuma, deixou seu posto em aberto (só para comentar, já li um dos livros do autor, chamado A Flecha de Deus – que, de certa forma, se assemelha ao livro de hoje, naquilo que traz o recorte do cotidiano de uma família e comunidade numa Nigéria que passa por um imenso choque cultural). Assim sendo, não havia favoritos ou nomes certos e uma grande indagação no ar: quem será o contemplado?

A grande torcida das bolsas de apostas (e também deste blog) era pelo japonês Haruki Murakami, mas a decepção foi generalizada no dia do anúncio do prêmio, que contemplou a canadense Alice Munro. A obra da autora, contista (num mundo de romancistas, um raro dom), intimamente ligada ao cotidiano e vida das mulheres canadenses nas décadas centrais do século XX. Claro que fiquei insatisfeita porque meu candidato preferido não havia ganhado, mas a temática da autora me despertou alguma curiosidade, além de que, querendo ou não, havendo justiça ou não, o Nobel é a maior chancela que um autor pode ter por sua obra.

Ganhei este livro de natal e todos os contos orbitam pela vida de mulheres, das décadas de 1950 a 1970, de backgrounds distintos mas com dilemas bastante semelhantes. São histórias sobre o cotidiano e sobre suas pequenas grandes mazelas (em determinado conto, a personagem se pergunta se será vítima de um serial killer e logo se corrige, pensando que essas coisas são muito menos frequentes do que as notícias nos fazem crer, e da mesma maneira a leitora foi enganada: quando o texto poderia guiar para grandes tragédias, mortes carregadas de culpa, danos físicos irreversíveis e irreparáveis, crimes passionais, nada disso ocorria – apenas as dores de todo dia, que podem, no contexto ser tão ou mais trágicas).

É um texto marcado por aquilo que parece ser a tarefa mais difícil de um ficcionista: falar do cotidiano. Falar da vizinhança, do que acontece da porta para dentro das casas, das digressões particulares de cada um de forma crível é tarefa para poucos. Considero, inclusive, muito mais fácil falar sobre reinos mágicos ou mesmo figuras particularmente excêntricas do que sobre o comum, o ordinário. E a autora fala sobre o todo-dia, sobre a rotina e seus pequenos dilemas, de maneira envolvente. É um texto construído para se afogar nele, saborear cada detalhe, sentir-se passeando pelo cenário fisicamente e conhecendo cada detalhe daquilo que se permite mostrar dos personagens – apesar de que eles são deixados nus na maior parte do tempo (evidentemente não de uma maneira literal). Uma radiografia precisa daquilo que vem de dentro, do banal ao qual poucas vezes nos damos conta.

Também a identidade temática: textos sobre mulheres e o feminino numa época em que se inicia o movimento para uma sociedade mais igualitária, mas a corda continua a romper para o lado mais fraco, principalmente nas pequenas cidades e comunidades tradicionais. O casamento, principalmente numa época em que o divórcio era uma abominação, evidentemente tinha peso diferente para homens e mulheres, assim como as consequências de se sair dele. A simples proximidade com homens, como no caso da aspirante a enfermeira que desiste do curso para não ficar mal falada por ver homens em sua intimidade, era perigosa para o jogo de cena. Mesmo a maternidade, ainda mais em condições pouco tradicionais, já que todas as relações mãe-filha do livro estão longe de ser idealizadas ou no mínimo com algumas poucas expectativas cumpridas. É um recorte feito com bastante sensibilidade e que dá muito o que pensar sobre por que mulheres são tão suscetíveis a desarranjos mentais diversos: num mundo de opressão e repressão (tendo a auto-repressão um papel de influência), como ser saudável, como conseguir realizar o próprio desejo nessas circunstâncias?

Enfim, não sou capaz e nem é possível avaliar a obra de um autor por um único trabalho, mas se todas as outras coletâneas seguirem a mesma linha, é um prêmio para lá de justo e merecido. E o Murakami terá outras oportunidades, quem sabe até mesmo em 2014?

***

Até a próxima!

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