Insurgente – Veronica Roth

Às vezes o valor de uma leitura leve é subestimada: não existe escolha melhor quando se está cansada, estressada, madrugando num aeroporto e sem saber a que horas seu voo vai sair,se sair (a história dessa viagem por si mesma daria uma obra de ficção, mas enfim). Então, ao invés de um denso livro de contos de Alice Munro, e mesmo sem lá muito saldo na conta, era melhor continuar a ler essa saga, já que a curiosidade, como sempre, matou o gato.

Não posso negar que me diverti bastante com o primeiro volume da saga e estava mesmo curiosa pela continuação, mas, além da companhia em momentos de tédio profundo e incertezas abissais, o livro mais me aborreceu do que qualquer outra coisa. Não consigo me identificar com Marrentinha, a protagonista, que continua a andar por aí em sua cidade-prisão distópica fazendo as coisas mais estúpidas possíveis e que não possuem nem mesmo a desculpa de plot device, já que dava para fazer a trama andar de mil e uma outras formas. Ao menos não apareceu nenhum triângulo amoroso, algo que é quase sempre irritante em youngs adults que não estão focados no romance, mas em qualquer outra questão que envolva a vida da protagonista (que sempre sempre sempre é The Chosen One).

E sério, ler um livro pensando “cara, como você é burra” sobre a protagonista (e todos os outros personagens a dizendo o quanto ela é corajosa, inteligente e uma líder só me faziam querer gorfar – simplesmente NÃO, a menina é meio burra, limitada e inconsequente mesmo, o gênio da estratégia é o namorado, que realmente toma decisões seguindo uma linha de raciocínio sensata durante a coisa toda) não é exatamente agradável. Às vezes, burrice de protagonista é algo que dá pra deixar passar, dá até um certo charme, mas em outras, quando você, leitor, tem uma visão diferente da vida, que analisa as coisas de outra forma, soa simplesmente como uma criança pegando birra.

Aliás, esse é o pior ponto do livro para mim: toda a visão política soa artificial, ou melhor, soa como a visão de um adolescente ainda tomado pela paixão e que pouco conviveu com o mundo dos adultos. Os personagens, independente de idade ou posição de poder, todos se referem entre si com insultos adolescentes, coisas que, para pessoas amadurecidas pela idade ou pela vida, seria simplesmente risível. Aliás, lembro-me de mim mesma adolescente, bravinha, desfiando um rosário de ofensas vazias e achando que cuspia verdades nos rostos alheios. O pior não é Marrentinha agir assim, porque é o que se espera dela, pela idade e temperamento, mas TODOS os personagens e, o que é pior, os adultos e líderes de facções. Pessoas de quem se espera algo a mais – e só ressalta aos meus olhos a visão ingênua da autora sobre política.

Já tinha dito na resenha do primeiro livro sobre a falta de estofo, de fundamento, na construção do mundo por parte da autora, e aqui tudo o que vejo são alicerces da mais pura ingenuidade sobre tudo – ciência (e dá-lhe o terrível preconceito que coloca o estereótipo do cientista louco capaz de tudo pelos seus experimentos), política (não preciso nem começar), sociologia (a premissa social do livro tá bastante equivocada para começo de conversa), guerra…

Bom, ao menos sobre guerra, esse livro tem um ponto curioso em relação aos equivalentes temáticos: é todo mundo na ponta da faca e de arma na mão, sem muitos pudores para matar. Novamente, acho estranho uma sociedade que não se choca ao ver um exército de adolescentes (por mais que as circunstâncias o justifiquem), mas se choca ao ver os mesmos adolescentes amando-se. E achei minimamente curioso um detalhe que talvez tenha passado despercebido à autora: a diferença entre terrorista e revolucionário é meramente referencial. E ver de dentro, como heróis, um grupo que o governo americano na realidade certamente chamaria de terrorista não deixa de ser minimamente interessante. Gosto do conceito de inconsciente coletivo, talvez seja culpa dele saber que talvez não exista uma única verdade, que talvez o mundo não seja uma luta de bem contra mal, e que esses questionamentos comecem a aparecer num produto de entretenimento americano para jovens…

Enfim, entreter, entreteu, e provavelmente vou ler o terceiro livro, mas comparando com outros materiais pela mesma idade, lamento que a autora não tenha saído do raso, do superficial…

***

Até a próxima!

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2 Responses to Insurgente – Veronica Roth

  1. Curiosamente foi assim que me tornei fã da série Sharpe do Cornwell: o personagem virou meu eterno parceiro de viagens aéreas.
    Pena sua companhia não ser tão legal. 😦

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