Enterro Celestial – Xinran

enterro_capaÀs vezes, a máxima de que livros fazem o leitor viajar é ainda mais intensa do que na média. Aliás, essa é uma das funções mais belas e interessantes da literatura: o transporte para outros lugares, tempos e culturas. O choque com o exótico, inimaginável, com aquilo que nossa vida normal é incapaz de nos proporcionar, com realidades que nossa mente (posso assumir com uma probabilidade bem alta que se você está lendo este blog, pertence a uma realidade urbana, ou ao menos urbanizada, que se alimenta de maneira adequada e tem uma faixa variável de conforto) não é capaz de conceber como detalhes da vida prática.

Outra máxima da qual gosto muito é a de que a realidade é ainda mais interessante do que a ficção. E quando a ficção é inspirada por uma realidade incrível? Quando diz-se para uma pessoa, “sua vida daria um romance”, e daria algo extraordinário, que mrece ser compartilhada com o mundo inteiro?

Essa é a ideia deste livro. Se Xinran antes nos trouxe a triste história das mulheres chinesas, agora inspira-se numa história real para um conto de superação. E se a China, um país imenso de uma raiz cultural completamente diferente da nossa, não é exótica o suficiente, aqui temos o exotismo dentro do exotismo: o Tibete, uma das regiões mais isoladas do mundo e, graças a isso, com uma cultura bem particular.

As primeiras associações mentais que faço com o Tibete são as montanhas nevadas (as mais altas do mundo estão por lá), monges e o Dalai Lama. Lembro-me inclusive da primeira vez que ouvi falar num enterro celestial como o do título do livro, e que talvez seja o ícone mais impressionante da cultura budista local: ao morrer, a pessoa é descarnada, desossada, tem a carne picada em pedaços e dada de comer aos abutrez. Pois somos da natureza e para ela voltamos com a morte (no caso, foi no filme Sete Anos no Tibete, com o Brad Pitt). É uma grande amostra da cultura dura, da terra de condições para lá de adversas, e da espiritualidade latente do povo tibetano.

Aliás, por mais que a autora seja uma jornalista saída da China graças ao regime político que a impediu de publicar seu livro, não se trata de apologia à libertação do Tibete: é uma história que, na medida do possível, tenta dar os dois lados do conflito. Tenta expor os motivos de ambos os lados.

Trata-se da história de uma médica chinesa, recém-casada, que, ao saber da morte de seu marido nas linhas de batalha tibetanas e não receber maiores informações, junta-se ao exército numa tentativa desesperada de reencontrá-lo. E, claro, o que ela descobre na viagem é de uma dimensão muito maior, o choque de sua vida com as regras simples de criadores de ovelhas nômades que em nada se assemelham à nossa cultura ocidental de otimização do tempo e produtividade. Tudo isso entre enormes paredões de gelo e no teto do mundo.

Há no percurso muitas coincidências e tenho certeza de que a autora inseriu elementos para fins narrativos, mas a vida é tão incrível que não duvido nada de que o cerne da narrativa realmente aconteceu (inclusive alguns dos encontros finais). Afinal, tantas coincidências dramáticas acontecem por aí o tempo todo…

Enfim. É uma grande jornada, dessas compartilhadas tanto pela narradora-personagem quanto pelo leitor. Muito forte, muito dura, mas muito compensadora, como as montanhas geladas.

***

Até a próxima!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: