Juliette Society – Sasha Grey

juliette-capaNa verdade, duas coisas me atraíram para este livro: a personagem da autora, uma ex-atriz pornô que em sua época áurea foi a queridinha do gênero e ganhou fama por isso, e a frustrante experiência com o erotismo de Cinquenta Tons de Cinza (beeeem conservador e burocrático). Eu gosto de livros eróticos, um clássico do gênero, inclusive, é um dos meus livros prediletos dentre todos. Autores como Anaïs Nin ou Henry Miller habitam eventualmente minha lista de leituras (infelizmente não li nada deles desde o início do blog, posso até ver isso, hein), então ver uma versão “pop” para livrarias (porque existe o grande, vasto e safado universo dos livros de banca, o qual nunca penetrei) é uma experiência interessante, ainda mais se houver bons resultados.

 Sobre Sasha Grey, já que falei nela, em sua época de atriz pornô foi uma das queridinhas da indústria e do público, principalmente pelas performances extremas. Ela teve sorte de conseguir sair do meio jovem, com uma fanbase disposta a apoiá-la em seus novos projetos e, aparentemente, sem grandes sequelas – o que não é fácil, a indústria pornográfica é especialmente cruel com suas funcionárias (não é nada bonito, muito menos glamouroso). Entrar nela é, quase invariavelmente, degradar a saúde e a sanidade (e não me venham com “elas escolheram”, porque muitas vezes é a única escolha possível num momento de desespero financeiro – e mesmo não sendo o caso, nas raríssimas exceções, a candidata não sabe o que encontrará do outro lado. Não é muito diferente da prostituição).

 Enfim. Enchi-me de curiosidade pelo livro, até porque a autora deve saber uma coisinha ou mais sobre sexo do que aquela dos Cinquenta Tons – e a experiência despretensiosa poderia ser divertida.

 Aí reside o primeiro problema do livro – pretensão demais, literatura de menos e técnica quase nenhuma.

 Essa é a história de Catherine, uma estudante de cinema (e dá-lhe referências, algumas gratuitas, outras até mesmo bem-aproveitadas) que tem um namoro morno e várias fantasias sexuais. Uma de suas preferidas envolve um professor da faculdade e, tendo esta fantasia em comum, conhece Anna, outra estudante, que possui uma vida sexual oculta e variada. Junte-se o relacionamento morno e a curiosidade e sabemos onde a protagonista irá parar.

 Por mais estranho que isso possa parecer, tanto pela temática quanto pela autoria, achei o livro… extremamente moralista.

 Não achei a representação do sexo como alegria, natureza, vida, naturalidade. Sim, a protagonista gosta de sexo, fantasia, o procura, mas o ambiente de sexo livre que ela encontra não parece em nada como algo feliz, mas sim um submundo sujo e decrépito, povoado por pessoas descritas como corruptas e corrompidas, ou mesmo fisicamente repulsivas. O único sexo agradável ocorre dentro do relacionamento e qualquer experiência fora dele parece irremediavelmente associada a um antro de perdição física e moral. Ou mesmo passa a ideia que, para uma pansexualidade, digamos assim, deve-se procurar o abuso e o crime. Que o sexo livre é uma atividade intrinsecamente ligada à ilegalidade e imoralidade.

 Não sei.

 Claro que tem muito da visão de sexo de alguém que viveu a indústria pornográfica não será a mais agradável e romântica possível, mas cai no extremo oposto, o da sujeira e imoralidade, resvalando na corrupção e no crime. Por mais que seja tudo imaginação da protagonista (e se era essa a intenção a execução foi muito pobre), por mais que haja descrições de êxtase aqui e acolá, pelo menos me soou que a degradação em volta (ou mesmo do destino final) é tão grande e há tanto a perder (como, no caso da protagonista, o relacionamento) que não vale a pena.

 Pra não falar do final. Se, apesar destas ressalvas, a narrativa do livro vinha razoável até determinado ponto, o final chuta o balde e coloca o livro definitivamente na categoria de livros ruins com os quais me arrependo de ter gasto dinheiro (meu ou dos outros). A autora tenta colocar uma trama policial e de mistério que só deve ter surgido na cabeça dela lá depois de 80% da história pronta, a explica mal, coloca um discurso final do vilão (?) sem pé, cabeça ou coerência, sociedades secretas e manda para o espaço qualquer tentativa de contar uma história decentemente. “A história anda em função do personagem”, ela repete por todo o trajeto, mas não é o que acontece, em especial no final, onde tudo desanda. Sério, parece que outra história foi colada para terminar, sem nenhuma coesão com o que veio antes, e foi isso.

 A tal Juliette Society do título? Mal dá o ar da graça. Título chamativo, mas que não diz NADA sobre o conteúdo.

 E outra coisa gravíssima: qual o problema das editoras nacionais com revisão? Erros gramaticais de doer, ortográficos imperdoáveis. Alguns até entendo serem marcas de oralidade, mas outros não têm explicação. Aliás, erro ortográfico é algo IMPERDOÁVEL num livro. Sério, que belo trabalho porco é esse, não é porque o livro é ruim, que vai vender somente pela identidade da autora, que deveria ser permitido o desleixo que encontrei aqui.

 Enfim, se o leitor quer sexo pop, a satisfação aqui não é garantida. Talvez recorrer aos clássicos, ou ao underground, porque se até Cinquenta Tons de Cinza consegue ter uma trama melhor…

***

Até a próxima!

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