O Aprendiz de Assassino – Robin Hobb

capa-aprendizFalamos muito daquela fantasia top que está na boca do povo, seja por causa de um eventual filme ou minissérie, seja porque vem associado a uma grande campanha de marketing ou atrelada a um grande nome.  Mas existem várias obras que, se não estão fora do radar, fazem parte de um “lado B” menos pop, mas conhecidos pelos leitores e sempre relacionados quando se perguntam sobre boas obras. Um desses casos é a Saga dos Visionários, de Robin Hobb, que saiu recentemente traduzida em português.

Robin Hobb, esta, que é uma mulher de pseudônimo “neutro” utilizado para, quem sabe, burlar o estranhamento de uma autora escrevendo para um público mais neutro (o que dá um longo assunto cheio de pano para manga que não trataremos por agora), nos traz a história de Fitz, fruto da relação ilegítima do herdeiro dos Seis Ducados com uma camponesa, largado por seu avô materno para que a família de seu pai de livre dele. Só que o garoto é uma peça importantíssima para qualquer pretensões políticas – é um herdeiro, ainda que ilegítimo, que nas mãos erradas pode ser uma grande ameaça ao status quo. E que ameaça – o rei Sagaz casou-se duas vezes e possui filhos dos dois casamentos, ou seja, sua própria casa já possui sozinha um grande potencial de divisão.

O menino, então, é criado como um bichinho selvagem por Bronco, o mestre dos estábulos, mas logo percebem que o garoto pode ser muito, muito mais útil se participar dos jogos de poder.

Este é um livro muito lento – tanto em narrativa, que come;a com Fitz relembrando de sua vida desde o ponto ao qual consegue retornar, quanto em ação, pois a política não é feita nos campos de batalha, mas principalmente dentro dos salões utilizando-se do máximo de sutileza quanto possível, para que pessoas pensem que elas mesmas tomaram por vontade própria decisões às quais foram induzidas. É muito detalhado, parado, a história custa a pegar, mas não por isso é menos interessante.

Os meandros da política são o recanto da sutileza: pode ser que impérios nasçam e morram em grandes atos de pirotecnia, mas só se mantêm por meio de sutileza e trabalho de bastidores. E, claro, por essa luta pela sobrevivência sem armas, esse mundo de entrelinhas vai ser explorado – o silêncio, o secreto, o oculto.

Mas o livro sofre o grande defeito que costuma assolar os livros lentos: o final é bastante corrido, ao ponto de certas coisas ficarem “no ar” quando o conflito final é solucionado. Os cinco capítulos finais passam num pulo e tanta coisa segue de tal forma a proposta de sutileza que o leitor fica “hã?” com certos desdobramentos das decisões finais (apesar da identidade de certo personagem ser um tanto quanto óbvia). Principalmente quando o plano dentro do plano finalmente se revela – claro que muito poderia ser deixado para o leitor concluir, mas várias outras coisas poderiam ter sido sugeridas mais cedo para soarem mais naturais.

O ponto que talvez eu tenha achado mais forte foram os personagens: Fitz, o protagonista-narrador, é uma pessoa com quem você se importa. Eu queria saber o que iria acontecer a seguir, o que ele iria descobrir, de qual forma seu treinamento prosseguiria e como conseguiria se livrar dos desafios. Não apenas eles, mas seus mentores, tanto o rústico Bronco quanto o misterioso Breu, seus parentes, amigos e inimigos, todos são agradáveis de se passear por, parece um mundo composto de pessoas (por mais que algumas delas ainda precisem cumprir seu papel formulaico, como o Príncipe Majestoso (o imaginava assim), o herdeiro ambicioso e charmoso do reino, ou mesmo o sisudo Veracidade e as memórias traçadas sobre Cavalaria). E são poucos personagens recorrentes, sem que haja a necessidade de um grande glossário ao fim para garantir que não há ninguém esquecido. Mesmo aqueles que tem apenas um nome e uma função rápida estão vivos, foram trabalhados, e tudo isso é um grande diferencial para tantos mundos habitados por meros bonecos de papelão.

E um plus: tem… cachorrinhos! Vários cachorrinhos, com funções narrativas diversas (e, trigger warning, há morte de cachorrinhos fofos).

Por falar nisso, uma coisa que achei interessante: é um livro MUITO fantástico, já de cara revela-se que o protagonista tem um tipo especial de telepatia e será treinada em outra mais refinada algum dia – mas é tudo tão sutil (e a palavra definidora deste livro é sutileza) que em determinado ponto o elemento mágico tinha desaparecido e comecei a me perguntar por que a autora não tinha feito simplesmente um romance histórico. E isso é muito interessante – o fantástico não é o fim, é o meio para se contar uma história, a trama não se limita pelo fantástico, este é apenas um de seus elementos. Em outras palavras, não serão todas as pirotecnias e criaturas fantásticas que o autor quiser colocar que farão uma boa história.

Também interessante maneira de não encher o leitor de informação: no início de cada capítulo, ao melhor estilo Duna, há pequenos trechos revelando sobre a história local e dos personagens que ali habitam. Como é tudo muito curtinho, não saturam, e provêm informações que ficariam “soltas” dentro da narrativa e são muito úteis para a compreensão da trama.

Enfim: é o primeiro livro de uma trilogia fantástica e, se tirar por base este primeiro, muito acima da média. Aliás, a história é auto-contida: apesar da vontade de saber o que acontece depois, tudo se encerra aqui satisfatoriamente. E é bom saber que, num mundo onde é facílimo pescar mais do mesmo nas prateleiras, haja, às vezes ofuscadas pelos grandes lançamentos e best-sellers, obras extremamente trabalhadas e recompensadoras.

P.S.: como falo quando é para criticar, vou falar quando é para elogiar também: excelente tradução e escolhas como a de traduzir os nomes dos personagens. O texto está belíssimo e fluido, sem maiores problemas, provando que quando se tem cuidado o resultado é bom.

***

Até a próxima!

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One Response to O Aprendiz de Assassino – Robin Hobb

  1. Bruno says:

    Sempre ouvi falar muito bem da Robin Hobb, muita gente boa e que sabe o que tá falando compara ela com o George R. R. Martin, então fiquei surpreso quando vi esse livro dando bobeira na livraria, assim como quem não quer nada, sem nenhum aviso ou notícia bombástica nas redes sociais. Uma hora dessas eu roubo pra ler 😛

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