Divergente – Veronica Roth

capa-divergenteEsse ano está sendo meio pobre em leituras (e mais ainda em resenhas), então não imaginam a alegria de pegar um livro e matá-lo quase de uma vez só. Na verdade, este livro foi recomendação de uma leitora do blog, lá por 2011 quando nem se falava em sair no Brasil – aí um dia num passeio à livraria achei pra comprar, mas foi pra estante e ficou por isso mesmo. O tempo foi passando, lançou-se a edição nacional, a continuação, o terceiro está por sair um dia desses, foi anunciado o filme e o livro lá pegando poeira – até que, querendo uma leitura mais leve, resolvi dar uma chance.

E, como disse, a leitura rápida é um ótimo indicativo de que as coisas fluíram bem.

A história conta a vida de Beatrice (ou Tris), uma garota criada numa Chicago isolada do mundo (ainda não sabemos por que) e dividida em castas, cada uma delas ligadas à característica que os fundadores daquele grupo acham ser primordial à humanidade – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição. E, como todo sistema de castas, há aqueles que não estão nenhuma delas (os “intocáveis” do mundo ficcional em questão, que só existem e a perspectiva de tornar-se uma deles é uma grande ameaça psicológica à protagonista) e os que estão dentro são criados para assumir todos os estereótipos de sua casta, bons e ruins.

Na chegada da maioridade, há uma cerimônia de “confirmação”, onde a maioria dos jovens fica em sua casta de origem e outros mudam para aquelas onde são mais adequados. Só que Tris, ao fazer os testes, descobre que há algo de diferente nela: ela é divergente, ou seja, não tem o estereótipo fechado para nenhuma das castas, podendo fazer uma escolha livre.

E, naturalmente, Tris não ficará na sua classe de origem (a Abnegação, uma versão quase socialista e franciscana do mundo), tendo todas as dificuldades de se readaptar em outro lugar. Adaptação essa que levará mais da metade do livro para acontecer, com resultados distintos. E há uma conspiração governamental prestes a acontecer e colocar em perigo todo o mundo conhecido…

A distopia young adult está na moda, ainda mais catapultada pelo sucesso de Jogos Vorazes (que, como já disse, é um livro realmente muito bom). Aliás, o próprio conceito de ficção científica, hoje, parece estar ligeiramente abandonado em prol da interpretação distópica (e por que a ficção científica escrita perdeu apelo com o público merece um texto e análise muito mais completos). Vários cenários de mundo acabado e opressão e de luta contra o sistema se variam, talvez um reflexo da nossa realidade de hoje – e esse é mais um dos exemplos.

Aqui, a crítica social é bem mais fraca (procurei alguma base teórica, alguma alegoria social, mas só um “ricos massacrando pobres” bem default. O que achei interessante, ainda no relato de distopia, é dar um pouco de voz àqueles que rompem com o que foi planejado, que resolvem viver a vida de forma diferente da família e de como foram preparados a vida toda – e isso é, em uma definição simples, difícil.

O grande problema para mim acaba sendo Tris – ela não é divergente, ela é a nova classe mesmo. Só vejo uma menina marrenta, que quer resolver tudo no grito e na porrada, que considera outras pessoas fracas, enxerga até seus amigos como adversários e todos os atos de altruísmo estão muito mais próximos da autopreservação ou soam forçados. E sair pulando de trem em movimento, de prédio… era pra ser cool, mas só soa fisicamente impossível e exagerado, aquela coisa que é tão absurda que só dá pra sentir uma vergonhinha de leve ao ler. Ou, resumindo, a protagonista não é quem a autora gostaria que ela fosse.

Aliás, mesmo o acampamento audacioso… Parecia uma espécie de academia do Carlos Maçaranduba, onde todo mundo cai na porrada todo dia por causa de bobagem e as coisas são assim mesmo. Está certo que a autora quis mostrar que a ideia original das castas se degenerou, mas ainda assim parece uma paródia de quem nada entende sobre artes marciais – mas talvez tenha visto Tropa de Elite e gostado do modus operandi do Capitão Nascimento.

Um ponto interessante foi a construção do romance: óbvio que Tris se apaixona (e o romance, bem como a identidade real do rapaz ficam óbvios desde a primeira vez em que ele aparece), mas o romance não se torna o centro de sua vida e personalidade – é algo divertido e que a relaxa (apesar de, até certo ponto, ser um romance bastante antiético pelas posições dos envolvidos, mas como ninguém tá ligando muito pra ética mesmo…), mas que não eclipsa os acontecimentos maiores nos quais ela se encontra. Achei também um pouco estranha a dinâmica dos amigos – o óbvio rival soa forçado e seu relacionamento com eles é que torna sua natureza divergente muito mais questionável, pois ela, salvo em uma ocasião muito específica onde era menos o bem-estar do outro e mais a injustiça do momento, em momento nenhum se dedica a eles da mesma forma como se dedicam a ela. Para mim a casta de Tris está bem clara, não há divergência nenhuma a ser debatida.

Mas enfim, apesar das falhas óbvias, achei o livro bem divertidinho e pretendo ler as continuações quando me for possível. Porque é isso, às vezes as falhas estão escancaradas mas ainda assim a leitura consegue ser fluida e despertar algum interesse.

***

Até a próxima!

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2 Responses to Divergente – Veronica Roth

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