Faroeste Caboclo

faroeste-cabocloTodo mundo tem uma música preferida. Seja porque ela te acerta num ponto específico do seu psicológico, seja por marcar momentos especiais da vida, seja por ter um ritmo legal, seja por ser um verme auditivo – ou por todas essas condições juntas. A minha é Faroeste Caboclo, do Legião Urbana. Talvez seja uma escolha estranha, já que se trata de uma epopeia (há quem diga que baseada em Hurricane, do Bob Dylan) e muito longe de ser uma balada romântica ou uma explosão de ritmo. Mas a sensação da música une muitas coisas em mim: lembra uma época boa da minha adolescência, excursão de escola, rodinhas de violão… Tanto que é uma das músicas que canto em silêncio quando não estou me sentindo bem.

Quando soube que estavam planejando um filme baseado na música, a única coisa que soube era que PRECISAVA assistir, independente da qualidade.

Aí os anos foram passando e, por coincidência ou não, o filme foi lançado no mesmo ano do que Somos Tão Jovens, uma cinebiografia de Renato Russo.  E ambos os filmes podem ser vistos em conjuntos, um retrato da juventude brasiliense rica do fim da década de 1970 e início da de 80, com uma ditadura militar nos calcanhares e pouquíssima diversão fora do rock e das drogas.

Mas, voltando ao filme, qualquer ouvinte conhece a saga de João de Santo Cristo, que sai da sertania onde morava no interior da Bahia e morre num duelo com um rival em Ceilândia, em frente ao lote 14. A narrativa, aproveitando-se disso, começa do fim: a primeira cena já é a do duelo e vamos acompanhar as lembranças de quando ele era uma criança e de tudo o que o levou até ali.

A estética do filme é realmente de faroeste, os planos abertos, closes e iluminação que dialogam com o gênero. E quanto à trama, é preciso fazer um balanço entre o espectador que conhece cada letra da música de cor e aquele que não sabe que há uma inspiração por trás de tudo – e mais, é preciso dar tratamento narrativo a uma canção que, apesar de contar uma história, não pode ser transcrita em filme.

A liberdade da fonte acaba sendo uma vantagem: os quatro personagens nomeados da música estão lá (e é preciso que Maria Lúcia, Jeremias e Pablo ganhem estofo de personagens). Aliás, desenvolver a história dos outros três, em especial da mocinha e do vilão, exigem que João perca um pouco de espaço, mas acho justificável se você não quer construir apenas um personagem forte e relegue aqueles que o rodeiam à posição de figurantes. Em termos de trama, também: os acontecimentos da música são melhor amarrados com alterações, mudanças de ordem e até mesmo algumas supressões (a única supressão imperdoável é o discurso final de Santo Cristo). Algumas coisas que as pessoas acham sem sentido, como a escolha de Maria Lúcia, tornam-se mais coerentes e muito, muito mais dramáticas.

Também, a escolha pelo foco no romance: Maria Lúcia é uma das personagens mais importantes da vida de Santo Cristo e fortalecê-la, bem como utilizá-la para contar a história do traficante são escolhas interessantes – torna a história mais linear, um bom filme e, além disso, torna o antagonismo entre Santo Cristo e Jeremias (uma mistura de playboyzinho da cidade e psicopata) ainda mais forte, como o vilão óbvio do faroeste que está lá desde sempre para rivalizar com o mocinho. Fora que contrastar um zé-ninguém negro que se apaixona por uma moça branca e rica torna o romance ainda mais impossível. E o óbvio caminho para a tragédia.

As atuações também estão em cima – os atores sustentam seus personagens e os tornam convincentes, o que é sempre uma vantagem.

Enfim, que todas as músicas preferidas possam ser honradas da mesma forma!

***

Até a próxima!

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3 Responses to Faroeste Caboclo

  1. Bruno says:

    O filme me surpreendeu, eu, que nem sou tão fã assim de Legião (apesar de esta ser justamente uma das músicas que eu gosto), gostei bastante.

  2. Natânia says:

    Eu não vi o filme ainda e mesmo não sendo chegada em Legião, lembro que era legal saber a letra toda de Faroeste, isso junto com a resenha só me faz querer ver mais ainda, tenho que dar um jeito….hehehehe

  3. Suely Silveira says:

    Gosto do Legião e principalmente do Renato Russo. Vi o “Somos tão Jovens” e gostei do filme. Ainda não vi o Faroeste Caboclo, mas curto a música.
    Bjs

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