Salò ou Os 120 Dias de Sodoma

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(ATENÇÃO: esse post tem trigger warning. É sobre uma obra EXTREMAMENTE perturbadora. Tipo, mesmo. Tipo, mesmo, mesmo. Então se não quiser ler tudo bem, também, volte aqui amanhã que colocarei uma resenha de uma obra mais agradável).

Então.

Quando se faz uma resenha, a função primária é falar um “confira por você” sobre aquela obra, nem que seja para conversar sobre ela depois. Pelo menos é o que tenho na minha cabeça: quero dividir as coisas legais que leio com outras pessoas, criticar as que achei ruins ou mesmo tirar uma onda com livros que sei estarem despertando a curiosidade do meu círculo de amigos.

 A resenha de hoje é meio diferente… Na verdade, é só um texto que quis escrever, sobre a experiência de assistir ao citado filme. Sei lá, não recomendo que você, leitor, veja. E nem falo isso por psicologia reversa não, é um filme que não recomendo, simplesmente. Só se você gostar muito do assunto ou quiser passar por essa… experiência.

 E por que fui cair nesse filme? Dia desses circulou uma lista de filmes perturbadores. Não posso com filmes de violência gráfica, passo muito mal, não é para mim, mas ainda assim vi a descrição, vi que não era exatamente gráfico, aí fui ver se tinha o filme no youtube e acabei assistindo.

 E, cara. Cara.

 Como disse, não é um filme exatamente gráfico, tanto no sexo quanto na violência. Tem nus frontais o tempo todo, uma cena mais tensa pra lá e pra cá (exceto o final, porque no final o diretor abre o baú do gore), mas a título de comparação a terceira temporada de Game of Thrones é mais gráfica.

 Só que esse é o filme mais perturbador que já vi na minha vida. Saí dele passando mal, com um nervoso e uma angústia que não consigo definir, e levei alguns dias para me recuperar.

 Enfim, a obra, baseada no livro homônimo do Marquês de Sade transfere os acontecimentos para a época de Mussolini, na Itália: quatro homens poderosos ligados ao fascismo (“O Presidente”, “O Bispo”, “O Magistrado”, “O Duque”), sequestram um grupo de jovens e os levam para uma mansão isolada da civilização para realizarem seus desejos sexuais perversos, narrados por quatro cafetinas que os ajudam a montar as cenas. A degradação física e psicológica dos jovens vai aumentando de intensidade aos poucos até terminar da pior forma possível.

 Tanto que o começo do filme é até “tranquilo” (se você já vai preparado que o filme trará, no mínimo, estupros), com os jovens sendo sequestrados e avisados de que estão mortos para o mundo e servirão de diversão até que os poderosos enjoem da brincadeira (e é óbvio desde o começo que como eles são objetos, dispor da vida deles é o de menos). Só que a intensidade do sofrimento vai aumentando até se tornar insuportável. Com direito a todas as perversões possíveis, incluindo cenas de coprofagia de revirar a alma (porque só o estômago é pouco).

 Em termos de direção, de filmagem, nada muito revolucionário: planos abertos, câmera parada sem muito zoom, como se o espectador fosse um observador distante de tudo o que se passa. Só que isso ajuda ao tom de pantomima farsesca estabelecido pelas narrativas da cafetina, de que tudo aquilo é uma enorme farsa, um jogo de cena para o império do mal.

 E é esse o grande terror do filme: o mal, a desumanização (já que NINGUÉM DEMONSTRA SENTIMENTOS – uma das cenas mais pesadas do filme é quando uma menina, incomodada por determinado relato, chora copiosamente: para seu algoz, uma menina frágil chorando é a coisa mais sexualmente excitante do mundo), o abuso, uma situação desprovida de qualquer senso de humanidade. A total e completa desesperança, a certeza de que não existe bem e o mal será recompensado e passado adiante para as próximas gerações (os soldados jovens que ajudam com o processo e demonstram o sadismo extremo de quem tem o pequeno poder nas mãos, tão ou mais cruéis que os chefões, estão ali também para serem treinados). A forma mais extrema e doentia de niilismo – com direito a debates filosóficos entre os algozes.

 Outra coisa que me incomodou demais: a passividade dos jovens ao receberem os abusos: não interessa se estão sendo estuprados, sofrendo abusos físicos e psicológicos, todos eles são extremamente PASSIVOS. Ninguém reage. Todos ficam quietos, todos observam, todos participam – não há reação, não há revolta, não há a tentativa frustrada de fuga. Não há nem mesmo o apelo ao suicídio (do tipo “dane-se você, se é a morte ou a morte não vou participar dos seus jogos estúpidos”).

 O autor do filme (que morreu antes do lançamento e não pôde ver as reações provocadas) queria fazer uma alegoria do fascismo na vida das pessoas, mas acho mais do que isso: é um tiro certeiro, por exemplo, na atual indústria pornográfica (o filme é de 1975, quando as coisas eram bem diferentes) – é absurdo que as cenas sejam tão violentas, mesmo num pornô comum, que as atrizes precisem de cirurgias para recomporem seus corpos. Mais do que isso (sei que há exceções): a situação de degradação, de humilhação que é passada por esses filme, do sexo ser degradante e não prazeroso. Também fala muito dos casos de torturas reais (uma das cenas em que todos os jovens são colocados em submissão lembra DEMAIS fotos das torturas de Abu Ghrabi, a infame prisão), dos horrores reais aos quais as pessoas foram e são submetidas ao longo da história.

 As cenas finais, em que os jovens são torturados e mortos (e dá-lhe violência), é mostrada como se estivéssemos vendo pelos binóculos distantes dos algozes, longes demais dos gritos e achando aquilo super excitante (e para meu incômodo, os jovens participam das torturas dos demais, mesmo sabendo que serão os próximos): é também muita de nossa normalização da violência, do mundo cão dos Datenas e Rezendes da vida que vemos do conforto do lar, da violência que de tão natural deixa de chocar. Confesso: não consegui assistir os cinco minutos finais do filme. Simplesmente não aguentei, o nó formado no meu estômago não permitiu. Aliás, não sei como aguentei chegar tão longe.

 Não é um filme feito para ser bonitinho. Pelo contrário, é para ser nojento, perturbador, para trazer apenas maus sentimentos e más ações.

 Mas no fim, é um retrato e dramatização do pior que a sociedade pode trazer. Um terrível retrato do pior que podemos ser e fazer.

***

Até a próxima, com um post menos pesado…

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7 Responses to Salò ou Os 120 Dias de Sodoma

  1. Tessio F. says:

    Sempre via esse filme na locadora, mas, embora sentisse curiosidade, nunca tive coragem de assistir. Pelo visto fiz bem..

  2. Itamar Santana says:

    As descrições me deixaram bastante curioso, creio que assisti-lo será uma experiencia interessante.

  3. Assisti depois de relutar muuuuito…mas a curiosidade me venceu, e me senti exatamente igual a você. Fiquei perturbada por dias…

  4. André Ximene Vieira says:

    É um filme pra pouquíssimos mesmo…quando assisti, estava naquela expectativa de ver algo realmente perturbador no sentido meio “o exorcista” mas nada disso chega perto de saló..é bem simples e direta a forma como o diretor mostra a capacidade humana..tão simples que chega a ser bizarro e as vezes até cômico..como nas cenas finais aonde os algozes dançam uma coreografia de braços dados enquanto os jovens são mortos ao redor…como vc disse… tudo de longe…sem som..sem emoção…só a mais puro sadismo! É um bom filme pra quem não se choca facil!

  5. Moira says:

    Eu assisti a este filme em um cineclube na Praça Roosevelt no final da década de 90, não lembro se em 98 ou 99, haviam apenas 11 pessoas na sala e saíram 6 ficaram apenas eu e mais 4, entre estas uma senhora com um filho adulto e mais dois homens, detalhe os 6 que saíram eram homens, pois devido o cartaz acharam ser um filme pornô ou erótico. Sinceramente é um filme muito perturbador, angustiante e claustrofóbico, menciono devido o cativeiro de todos(algozes e vítimas) e sua passividade, normalidade e até humor diante da humilhação, tortura, desumanização, atos de degradação diários, pois quem humilha, degrada é tão afetado como quem sofre humilhações, pois demonstra todo o vazio, podridão e até sociopatia, pois os torturadores no caso o bispo, presidente, magistrado e duque são sociopatas devido serem metódicos, organizados e observadores, enquanto os carrascos(soldados) são psicopatas manipulados e muito bem orquestrados pelos poderosos. O verdadeiro incomodo neste filme é a passividade de todos diante da abominante desumanização de tudo e todos, porém quando leio comentários em mídias sociais, crescimento de páginas de conteúdo violento e a empatia tratada com sarcasmo, desprezo e escárnio, os sociopatas manipuladores a vociferar e os psicopatas só a espera de uma oportunidade para dar vazão aos seus instintos assassinos, Saló pode estar ao lado e muitos bispos, magistrados, presidentes, duques a serem a voz de mentes vazias, doentias, desesperadas, fracassadas, frustradas ou com complexo de invisibilidade.

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