Orgulho e Preconceito – Jane Austen

orgulho-e-preconceitoA típica história “boy meets girl”: eles se conhecem em uma festa, ela é a menina doce mais bonita da região, ele é o bom partido por quem todas as mocinhas são apaixonadas. Apaixonam-se mas, por uma série de mal entendidos, não podem viver esse amor. O tempo passa, os mal-entendidos são descobertos e esclarecidos e tudo termina em um belo casamento.

 Pois é, esse é o plot típico e em torno do qual Orgulho e Preconceito se constrói – mas que está longe de ser seu plot principal e envolver seus protagonistas. E são estes que fazem a história ser um clássico atemporal.

 Este talvez seja o mais conhecido (e querido) romance romântico de língua inglesa. É muito lido em escolas, é uma história querida até hoje, ganhou inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas famosas, ganhou várias recontagens (uma das minhas prediletas é o filme de O Diário de Bridget Jones, nem tanto o livro), paródias (tem ao menos uma delas que já foi resenhada nesse blog…), é sempre citada em outros livros, filmes e séries como o livro de cabeceira de algum personagem. Mas o orginal continua a encantar gerações e ser livro predileto (ao longo da vida já vi muitas mulheres lendo o livro no ônibus, na faculdade, em consultórios…). Aliás, é uma das resenhas mais pedidas do blog desde o início.

 É um clássico tão querido que este ano comemora-se seu bicentenário (já que foi lançado em 1813) – e continua sendo um livro popular e comentado. Mas por quê? Talvez se deva aos seus protagonistas, Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy.

 Essa é a história da família Bennet, da baixa burguesia rural inglesa – ou seja, eles são uma espécie de “classe média rural”, mais ou menos os pobres entre os ricos: essa é uma história sobre a vida burguesa e seus ideais em especial para mulheres, como o casamento com uma pessoa de boa classe social ou a manutenção de uma imagem de virtude. Claro que não diminui de jeito nenhum uma trama sobre uma classe social, mas é para se manter em mente que trata-se da visão de mundo dessa classe (a vida de uma garota inglesa realmente pobre da época seria MUITO diferente, um autor naturalista poderia explorá-la melhor). Estamos aqui no meio da Era Napoleônica, o Reino Unido encontra-se, portanto, sob ataque, e regimentos de soldados concentram-se em cidades estratégicas preparando-se para a guerra iminente (e a presença dos soldados é uma distração na vida provinciana, além de alterar sua rotina pacata e tranquila).

 Assim sendo, as cinco garotas Bennet fazem aquilo que é socialmente esperado delas: frequentam bailes, fazem artesanatos, leem livros e dão passeios tudo em busca dos melhores casamentos. Até o dia em que o jovem herdeiro Bingley muda-se para a vizinhança e, nos bailes sociais, conhece e se apaixona por Jane, a irmã mais velha. E tudo se desenvolve como a típica história de boy meets girl, não fossem por Elizabeth, a segunda filha, e o Mr. Darcy, amigo do milionário e igualmente ricaço, que também se conhecem e se odeiam instantaneamente.

 Elizabeth, por sua vez, não é a mocinha vitoriana típica que fica na janela chorando e esperando o amor da vida passar: é decidida, firme, de personalidade forte e que vai (mesmo que dentro dos limites permitidos a uma moça de sua classe social) atrás do que quer. A relação entre ela e Darcy será marcada, como o título sugere, pelo orgulho e preconceito de ambos em relação um ao outro, mas logo se transformará em romance, quando as verdades sobre ambos serão reveladas.

 Porque se há uma lição no romance é uma das regras básicas do mundo real: se olharmos para alguém baseados em nossos pré-conceitos, na imagem pré-concebida desta pessoa, estaremos muito longe da verdade individual de cada um – e teremos até mesmo grandes surpresas se abertos a essa verdade.

 Interessante colocar também que Elizabeth Bennet, uma personagem fortíssima, pode ser considerada como proto-feminista. Há uma análise sobre o tema bem interessante no prefácio da edição que li (sobre o feminismo estar presente ou não na obra de Jane Austen), mas também é muito bom ressaltar que, ainda que não desafie sua classe e nem a situação das mulheres ao seu redor (inclusive, no meio do romance há o alerta moralista sobre o destino de moças que caem nas mãos de sedutores e “perdem a virtude”, realidade que poderia ocorrer na época ainda mais com moças atrás de ideais de romance), Lizzie é uma moça livre – que pensa pela própria cabeça, que recusa uma proposta de casamento que não a agrada, que toma as próprias decisões, que desafia o classismo de algum mais rico que tenta colocá-la em seu lugar. É a mocinha que não precisa se “adocicar” para ficar com o par romântico – o que o encanta é justamente ela não ser mais do mesmo, mas ser autêntica. Não que o fim da autenticidade seja o de conquistar o romance, longe disso, mas é uma boa lembrança diante de tantas histórias de moças que tem de “se adequar” para o projeto de vida eleito por elas.

 Outra coisa que achei interessante, pelo estilo de época, é que a narrativa em si é bem fraquinha, é uma narrativa que conta ao invés de mostrar o que está acontecendo. Mas os diálogos… De um mundo de livros que já li na vida, talvez tenha sido aquele com os diálogos mais sagazes, naturais, ágeis e intensos. É quando conversam que os personagens refletem sobre si mesmos e sobre seus atos, quando a trama anda e os conhecemos melhor.

 Se já não bastassem os filmes e versões, foi uma bela visita à fonte. É um livro que recomendo (e não vá, caro leitor, esperando um romance meloso, porque não é essa a moral da história nem de perto) e indico, tanto pelo retrato de época, pelos personagens inesquecíveis e pelo conhecimento de uma obra querida pelas gerações.

***

Até a próxima!

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4 Responses to Orgulho e Preconceito – Jane Austen

  1. Já li e já assisti o filme de 2005, recomendo ambos! Muito bom!

  2. Bruno says:

    Gosto mais da versão com zumbis. /corre 😛

  3. Nábila says:

    S2
    Vi Becoming Jane ontem! Passa pela fase da Jane na qual ela escreve orgulho e preconceito. Claro que a história tá floreada, mas não deixar de ser interessante assistir.

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