Expectativa e Decepção

crying-girlPoucas coisas na vida são piores do que a expectativa, do que criar na sua cabeça uma situação idílica que será desmentida pela realidade. Nós vamos lá, imaginamos as coisas, bordamos todos os detalhes, colocamos até a prévia dos sentimentos e, na hora dos fatos, nada disso ocorre. Então nos frustramos, já que nossa imagem mental não se concretizou. Esse sentimento faz até com que não apreciemos aquilo que a situação tem a oferecer, já que não é a que imaginamos, e saímos decepcionados.

 Todo mundo passa por isso na vida, seja com pessoas (ah, as expectativas e consequentes decepções que criamos e sofremos em relação aos outros…), com profissões, com acontecimentos da vida como faculdade, casamento, maternidade/paternidade, enfim. Sobre quase tudo. Não é um bom sentimento.

 Mas como não é de um aspecto emocional interno que pretendo falar, apesar do princípio ser o mesmo, vamos à decepção artística: criamos toda uma expectativa em relação a uma obra e, quando chegamos lá, não é nada daquilo que esperamos, quebramos a cara e nos decepcionamos. Escolhemos o livro pensando ser uma coisa e, na verdade, é outra

 Isso pode acontecer de várias formas. Aliás, a mais comum delas pode ser bem exemplificada quando a decepção acontece em um filme: é feito todo um trailer que dá a indicar que a história seguirá um caminho mas ele funciona como propaganda enganosa: na verdade, o filme é sobre algo completamente diferente. Um exemplo que me pegou recentemente (e creio que a muitas pessoas) foi o filme Valente, da Pixar. O trailer e todo material de divulgação davam a entender que seria uma aventura de estrutura muito diferente do que realmente é – e decepcionou quem esperava pela ideia anteriormente passada. Confesso que achei o filme decepcionante e só numa segunda tentativa absorvi todas as suas qualidades (e é um filme muito legal, na verdade e no fim das contas).

 O cinema também funciona como uma das maiores fontes de decepção dos livros: as expectativas criadas pelas adaptações para a tela grande. São poucas as adaptações realmente fiéis, seja por adequação narrativa, seja porque no estúdio resolvem mudar tudo mesmo e só sobra o título e o nome dos personagens do enredo principal. Geralmente falamos do contrário: dos leitores que esperam ver o filme na tela (e tem todo um rol de decepções possíveis para esse caso específico), mas e o contrário? O leitor que pega uma adaptação que nada tem a ver com o original e quando vai à fonte as coisas são diferentes?

 Acho que o melhor exemplo de todos desse caso é o livro Drácula. Os filmes alteraram bastante a história original do livro e, quando a ordem é essa, as pessoas costumam se decepcionar bastante com a leitura. Mais do que isso: as pessoas reaproveitam muitas análises DOS FILMES para o livro! Algumas academicamente! Essa é a pior parte, porque são obras que mais partilham os nomes do que tem algo realmente em comum. (e fica a dica: se você quer dar uma opinião sobre o Drácula livro… leia o livro. Os filmes são muito, muito, muito diferentes).

 Também há as adaptações que dão a entender que o livro é para um público, mas é para outro. Dois exemplos recentes podem ser On The Road e O Grande Gatsby – que, por usarem atores de sucessos teen ou divulgação baseada neste tipo de público, acabam gerando uma expectativa um tanto quanto irreal sobre como será a história. Aí ao se procurar os livros – BEM diferentes do pop teen – aquela decepção de não ter se encontrado o que se esperava.

 Pode acontecer do próprio material de divulgação do livro dar pistas falsas: uma orelha ou quarta capa que contam algo que nada tem a ver com os rumos da narrativa, que indicam um gênero quando na verdade é outro qualquer, que dão a entender uma coisa quando na verdade o assunto é bem outro. É aquela coisa do leitor “enganado”, ainda que não propositadamente, por um mau trabalho de divulgação (e infelizmente não é assim tão incomum).

 E outra que acontece demais também: você lê o trabalho anterior do autor, acha maravilhoso, a melhor coisa do mundo, espera com afinco pelo próximo lançamento (às vezes anunciado aos quatro ventos) e… Não é aquilo que você estava esperando. Às vezes é até um livro bom, mas não corresponde ao construído na sua cabeça. (ou o livro realmente fica muito aquém dos demais, acontece em volumes de séries, também). E a sensação é de “ah, não é tão bom como o anterior” (opinião que, em perspectiva, se o novo livro é bom, pode acabar mudando).

 Mas enfim, como para tudo mais da vida, o importante é aproximar a expectativa da realidade, a coisa que tá dentro da sua cabeça com a que PODE acontecer. É não esperar demais de coisas que não podem corresponder da maneira como você espera. É não criar na sua cabeça uma história que não vai se converter em realidade. É, quando possível, abrir os horizontes para aproveitar o que vier. Tanto na vida quanto na ficção.

 (e, claro, uma expectativa sempre pode ser frustrada… mas trocada para um cenário muito , muito melhor)

***

Até a próxima!

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2 Responses to Expectativa e Decepção

  1. Bruno says:

    Acho que meu exemplo de decepção assim é o Orhan Pamuk. Li Meu Nome É Vermelho e me apaixonei, é um livro fantástico mesmo. Mas aí lendo outras coisas dele, e sinopses dos últimos livros, de repente me dei conta de que ele conta sempre a mesma história…

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