Dr. Who ou Como não odiar uma série pelos seus fãs

whodunnitA diferença de “fã” para “fanático” é de apenas um sufixo, coisa que fica evidente em qualquer busca de dois minutos pela internet.

 Lógico que é natural que fãs de determinadas obras, sejam livros, jogos, quadrinhos, seriados de TV; bandas e artistas se reúnam na internet. E, muitas vezes, não ficam satisfeitos se não espalham aos quatro ventos todas as qualidades (reais e imaginárias) de sua obra predileta. O tal do “fandom”.

 E, vamos combinar: fandom, para quem tá fora dele, é um negócio muito chato. Pessoas reunidas para falarem como aquela é a obra-prima revolucionária da humanidade, como cada detalhe é genial e perfeito e como todas as outras pessoas deveriam ouvir a Palavra. E se você não gosta e nem se converte, é como uma agressão pessoal ao fã, é como se o desgosto fosse contra aquela pessoa – quando nunca é, e lá se vem defesas irracionais. Para não falar de rivalidade de fandoms: se você gosta de A, não pode gostar de B de jeito nenhum. Ou gosta dos Backstreet Boys ou do ‘N Sync, ou do Tolkien ou do Martin, ou Marvel ou DC e por aí afora. Ou seja, uma chatice muito, muito grande. Que, ao invés de trazer mais fãs, acaba afastando.

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Faroeste Caboclo

faroeste-cabocloTodo mundo tem uma música preferida. Seja porque ela te acerta num ponto específico do seu psicológico, seja por marcar momentos especiais da vida, seja por ter um ritmo legal, seja por ser um verme auditivo – ou por todas essas condições juntas. A minha é Faroeste Caboclo, do Legião Urbana. Talvez seja uma escolha estranha, já que se trata de uma epopeia (há quem diga que baseada em Hurricane, do Bob Dylan) e muito longe de ser uma balada romântica ou uma explosão de ritmo. Mas a sensação da música une muitas coisas em mim: lembra uma época boa da minha adolescência, excursão de escola, rodinhas de violão… Tanto que é uma das músicas que canto em silêncio quando não estou me sentindo bem.

Quando soube que estavam planejando um filme baseado na música, a única coisa que soube era que PRECISAVA assistir, independente da qualidade.

Aí os anos foram passando e, por coincidência ou não, o filme foi lançado no mesmo ano do que Somos Tão Jovens, uma cinebiografia de Renato Russo.  E ambos os filmes podem ser vistos em conjuntos, um retrato da juventude brasiliense rica do fim da década de 1970 e início da de 80, com uma ditadura militar nos calcanhares e pouquíssima diversão fora do rock e das drogas.

Mas, voltando ao filme, qualquer ouvinte conhece a saga de João de Santo Cristo, que sai da sertania onde morava no interior da Bahia e morre num duelo com um rival em Ceilândia, em frente ao lote 14. A narrativa, aproveitando-se disso, começa do fim: a primeira cena já é a do duelo e vamos acompanhar as lembranças de quando ele era uma criança e de tudo o que o levou até ali.

A estética do filme é realmente de faroeste, os planos abertos, closes e iluminação que dialogam com o gênero. E quanto à trama, é preciso fazer um balanço entre o espectador que conhece cada letra da música de cor e aquele que não sabe que há uma inspiração por trás de tudo – e mais, é preciso dar tratamento narrativo a uma canção que, apesar de contar uma história, não pode ser transcrita em filme.

A liberdade da fonte acaba sendo uma vantagem: os quatro personagens nomeados da música estão lá (e é preciso que Maria Lúcia, Jeremias e Pablo ganhem estofo de personagens). Aliás, desenvolver a história dos outros três, em especial da mocinha e do vilão, exigem que João perca um pouco de espaço, mas acho justificável se você não quer construir apenas um personagem forte e relegue aqueles que o rodeiam à posição de figurantes. Em termos de trama, também: os acontecimentos da música são melhor amarrados com alterações, mudanças de ordem e até mesmo algumas supressões (a única supressão imperdoável é o discurso final de Santo Cristo). Algumas coisas que as pessoas acham sem sentido, como a escolha de Maria Lúcia, tornam-se mais coerentes e muito, muito mais dramáticas.

Também, a escolha pelo foco no romance: Maria Lúcia é uma das personagens mais importantes da vida de Santo Cristo e fortalecê-la, bem como utilizá-la para contar a história do traficante são escolhas interessantes – torna a história mais linear, um bom filme e, além disso, torna o antagonismo entre Santo Cristo e Jeremias (uma mistura de playboyzinho da cidade e psicopata) ainda mais forte, como o vilão óbvio do faroeste que está lá desde sempre para rivalizar com o mocinho. Fora que contrastar um zé-ninguém negro que se apaixona por uma moça branca e rica torna o romance ainda mais impossível. E o óbvio caminho para a tragédia.

As atuações também estão em cima – os atores sustentam seus personagens e os tornam convincentes, o que é sempre uma vantagem.

Enfim, que todas as músicas preferidas possam ser honradas da mesma forma!

***

Até a próxima!

Salò ou Os 120 Dias de Sodoma

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(ATENÇÃO: esse post tem trigger warning. É sobre uma obra EXTREMAMENTE perturbadora. Tipo, mesmo. Tipo, mesmo, mesmo. Então se não quiser ler tudo bem, também, volte aqui amanhã que colocarei uma resenha de uma obra mais agradável).

Então.

Quando se faz uma resenha, a função primária é falar um “confira por você” sobre aquela obra, nem que seja para conversar sobre ela depois. Pelo menos é o que tenho na minha cabeça: quero dividir as coisas legais que leio com outras pessoas, criticar as que achei ruins ou mesmo tirar uma onda com livros que sei estarem despertando a curiosidade do meu círculo de amigos.

 A resenha de hoje é meio diferente… Na verdade, é só um texto que quis escrever, sobre a experiência de assistir ao citado filme. Sei lá, não recomendo que você, leitor, veja. E nem falo isso por psicologia reversa não, é um filme que não recomendo, simplesmente. Só se você gostar muito do assunto ou quiser passar por essa… experiência.

 E por que fui cair nesse filme? Dia desses circulou uma lista de filmes perturbadores. Não posso com filmes de violência gráfica, passo muito mal, não é para mim, mas ainda assim vi a descrição, vi que não era exatamente gráfico, aí fui ver se tinha o filme no youtube e acabei assistindo.

 E, cara. Cara.

 Como disse, não é um filme exatamente gráfico, tanto no sexo quanto na violência. Tem nus frontais o tempo todo, uma cena mais tensa pra lá e pra cá (exceto o final, porque no final o diretor abre o baú do gore), mas a título de comparação a terceira temporada de Game of Thrones é mais gráfica.

 Só que esse é o filme mais perturbador que já vi na minha vida. Saí dele passando mal, com um nervoso e uma angústia que não consigo definir, e levei alguns dias para me recuperar.

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Orgulho e Preconceito – Jane Austen

orgulho-e-preconceitoA típica história “boy meets girl”: eles se conhecem em uma festa, ela é a menina doce mais bonita da região, ele é o bom partido por quem todas as mocinhas são apaixonadas. Apaixonam-se mas, por uma série de mal entendidos, não podem viver esse amor. O tempo passa, os mal-entendidos são descobertos e esclarecidos e tudo termina em um belo casamento.

 Pois é, esse é o plot típico e em torno do qual Orgulho e Preconceito se constrói – mas que está longe de ser seu plot principal e envolver seus protagonistas. E são estes que fazem a história ser um clássico atemporal.

 Este talvez seja o mais conhecido (e querido) romance romântico de língua inglesa. É muito lido em escolas, é uma história querida até hoje, ganhou inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas famosas, ganhou várias recontagens (uma das minhas prediletas é o filme de O Diário de Bridget Jones, nem tanto o livro), paródias (tem ao menos uma delas que já foi resenhada nesse blog…), é sempre citada em outros livros, filmes e séries como o livro de cabeceira de algum personagem. Mas o orginal continua a encantar gerações e ser livro predileto (ao longo da vida já vi muitas mulheres lendo o livro no ônibus, na faculdade, em consultórios…). Aliás, é uma das resenhas mais pedidas do blog desde o início.

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Expectativa e Decepção

crying-girlPoucas coisas na vida são piores do que a expectativa, do que criar na sua cabeça uma situação idílica que será desmentida pela realidade. Nós vamos lá, imaginamos as coisas, bordamos todos os detalhes, colocamos até a prévia dos sentimentos e, na hora dos fatos, nada disso ocorre. Então nos frustramos, já que nossa imagem mental não se concretizou. Esse sentimento faz até com que não apreciemos aquilo que a situação tem a oferecer, já que não é a que imaginamos, e saímos decepcionados.

 Todo mundo passa por isso na vida, seja com pessoas (ah, as expectativas e consequentes decepções que criamos e sofremos em relação aos outros…), com profissões, com acontecimentos da vida como faculdade, casamento, maternidade/paternidade, enfim. Sobre quase tudo. Não é um bom sentimento.

 Mas como não é de um aspecto emocional interno que pretendo falar, apesar do princípio ser o mesmo, vamos à decepção artística: criamos toda uma expectativa em relação a uma obra e, quando chegamos lá, não é nada daquilo que esperamos, quebramos a cara e nos decepcionamos. Escolhemos o livro pensando ser uma coisa e, na verdade, é outra

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