Caim – José Saramago

caim-capa(Atenção: essa é a resenha de uma obra literária que será tomada pelo universo dessa obra. Não é uma discussão teológica/religiosa, já que cada um acredita naquilo que mais lhe convém e tentar provar que outra pessoa está certa ou errada nesses aspectos ou vai para o rumo da inutilidade ou da briga. Portanto, se tiver algum comentário sobre religião que vai além do que o autor traz ou se é sensível com material de cunho religioso, pode clicar no link “lista de posts” ao lado e divertir-se com alguma postagem de potencial menos polêmico).

 

Tenho uma confissão terrível a fazer: nunca tinha lido José Saramago. Seja por falta de oportunidade, seja por colocar outros livros na frente enquanto visitava a biblioteca, o tempo foi passando e nada de lê-lo. Só que essa história de “algum dia leio” tem de terminar uma hora e decidi que não adiaria mais para ao menos conhecer o autor.

 Então comecei pelo final, por seu último livro – foi lançado outro post-mortem, mas tratava-se de manuscritos antigos nunca lançados, o último escrito foi este. Não é um dos trabalhos mais conhecidos e clássicos do autor como Ensaio Sobre a Cegueira ou O Evangelho Segundo Jesus Cristo – mas segue a linha do segundo, de recontar por sua própria ótica a história de um clássico personagem bíblico.

 Como o leitor deve saber, Caim foi o primeiro assassino, justamente de seu irmão mais novo, por inveja do reconhecimento do Senhor sobre as oferendas de ambos. Aqui vamos acompanhá-lo, ou melhor, vamos começar um pouco antes de seu nascimento, com seus pais expulsos do Éden pelo mais óbvio dos pecados (ou NÃO COMA DAQUELA ÁRVORE não é uma excelente psicologia reversa?), ajudados por um anjo a seguirem seu rumo e continuarem a humanidade com os outros humanos preexistentes de tribos vizinhas.

 Caim é o primogênito e se dá muito bem com o irmão mais novo, Abel, até o dia em que o incidente das oferendas ocorre. O Senhor o pune pelo pecado marcando-o e mandando-o vagar pelo tempo e espaço pelos incidentes do Antigo Testamento bíblico, condenando-o a viver para sempre e ser eterna testemunha de tudo o que ocorre. Só que Caim não deixa de questionar de por que estava sendo punido se fora instigado a matar antes de seguir seu rumo.

 Então, numa linguagem irônica e com várias passagens engraçadas justamente por essa ironia e por anacronismos propositais, Caim vira a testemunha de vários eventos e só reforça sua imagem do Senhor como um ser egoísta, mimado e que não se furta de dispender várias vidas humanas para provar um ponto ou porque assim o resolveu. E a maldição de Caim se manifesta: ele será a eterna testemunha, aparecendo em momentos-chave para entender cada vez mais dos mecanismos do mundo.

 Uma tribo resolve cultuar o bezerro dourado enquanto esperam pela revelação divina? Que os matem. As tribos desafiam Josué? Que coisas estranhíssimas ocorram e todo mundo morra para facilitar as coisas. Sodoma maltrata os visitantes angelicais? Que todos ardam em chamas, as crianças que nada fizeram inclusas. Com direito ao Senhor e Lúcifer destruírem a vida de um homem correto como Jó apenas para escaparem um pouco do tédio dos éons. E Caim está lá para assistir e questionar, assistir e perguntar por que, seja para a deidade, seja para seus soldados, os anjos. Até que resolve tomar uma providência.

 Para quem conhece e já leu a Bíblia (e tem senso crítico o bastante para separar as coisas) é bem divertido por repassar algumas das histórias mais controversas e outras até mesmo apócrifas, como o reinado de Lilith pelas terras de Nod por onde nosso protagonista se aventura. E mostra tons novos para histórias que são contadas quase sempre sob o mesmo ponto de vista, a partir da pena de um dos mestres da escrita contemporânea.

P.S.: Se você tem medo do estilo do autor, já que Saramago tem fama de ser difícil pelos parágrafos grandes e etc, não tenha. Se você tem fluência de leitura, o português luso e o estilo do autor não são nenhum obstáculo intransponível, aliás, muito pelo contrário.

P.P.S.: Sempre fico receosa ao resenhar autores clássicos e consagrados, até porque acho que só estou falando bobagens de obras que são objetos de estudo e teses acadêmicas sob os mais variados tons, mas é bom arriscar, até para dividir um pouco da experiência da leitura. Vamos ver se tomo coragem e, na próxima releitura, tento resenhar um dos meus livros prediletos, Cem Anos de Solidão…

***

Até a próxima!

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9 Responses to Caim – José Saramago

  1. Bruno says:

    Tenho que remediar a minha falta de nunca ter lido Saramago também. Achei bem interessante a proposta desse, pode ser uma boa sugestão.

    E po, falar de Caim e nem mencionar Vampiro: a Máscara? 😛

    • Pois é, ficou em falta mesmo, aparece até a Lilith 😛

      • fimdosmundos says:

        Sei que não é apropriado para a discussão do post, mas gostaria de ler você falar sobre ebooks. Queria saber tua opinião, se você já leu livros nesse formato, o que prefere, e etc. Seria legal ter um post sobre isso. Abraço!

      • Então, acho que não sou a pessoa mais adequada, porque quase não tive/tenho contato com ebooks, tive pouquíssimas experiências. Quando puder falar sobre pela experiência, sem dúvida falarei 🙂

  2. O curioso: você falou isso quando ontem eu comecei a ler várias resenhas seguidas sobre a adaptação do Genesis de Robert Crumb. E ele traz conclusões muita parecidas sem ao menos precisar se posicionar abertamente – ele apenas narra pra quem quiser ver.

  3. lecobastos says:

    Meu primeiro livro do Saramago também foi Caim. Me apaixonei pela escrita, só tenho que ter mais dedicação para encaixá-lo nas futuras leituras. 😀

  4. Eu li Caim, mas antes li Ensaio Sobre a Cegueira e O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Eu gostei de Caim, mas perto dos outros 2 é fraco.

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