20 centavos sobre os 20 centavos

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Era para eu estar escrevendo aqui sobre livros e seriados mas, sinceramente, com tudo o que está acontecendo no Brasil desde quinta-feira minha cabeça não está funcionando para essas coisas (não que a análise de GoT não vá sair, nem resenhas, mas enfim). É tanta coisa na minha cabeça que gostaria de pôr na mesa e clarear um pouco das minhas próprias opiniões sobre tudo o que está acontecendo, sobre a polvorosa, sobre os manifestos, sobre a revolta generalizada. Claro que não pretendo esgotar o tema, pq o que uma aninha do interior sabe do mundo, mas só um pouco do muito que anda sendo ventilado por todos os lados.

O protesto começou pelos 0,20 centavos do aumento das tarifas de ônibus, mas quantas coisas estão embutidas nesse preço. E essa indignação do aumento foi dando voz, foi dando catarse, a outras indignações diversas.Não são somente os 0,20 centavos (que não são pouca coisa): é um tanto de reinvindicações, opiniões, demandas reprimidas e revoltas que encontraram uma voz nas ruas.

Vejo a mídia, atônita, bem como os políticos, sem entender o que está havendo. E respondo: se querem começar a entender ouçam a nós, os jovens, e por que achamos que tudo está errado.

Vi muitos que reclamam de falta de foco do protesto e que isso pode esvaziá-lo. Acho que pelo contrário: como já disse, enxergo-os como catarse coletiva e canalização de uma mesma revolta, é a hora de protestar contra tudo o que se vê de errado. Mas, claro, também é de se organizar pragmaticamente para o que vem depois – e o que vem depois?

Aí me aparecem, depois e na onda da luta por 0,20, bandeiras contra a corrupção. Só que ser “contra a corrupção” é tão vago que cai no vazio: acho que todo mundo é contra falsidade, mentira, roubo, assassinato. Pelo menos no nível social, todos são contra atitudes criminosas. E estender bandeiras “pelo fim da corrupção” dá na mesma de “pelo fim dos assassinatos” – não, ela não vai parar. Ela é inerente ao ser humano, sempre haverá alguém que se corrompe. São outras coisas, muito mais profundas e concretas, que podem e devem mudar, a começar pelos vinte centavos.

Poucas coisas representam de forma mais profunda a sensação de que pagamos muito e recebemos pouco em troca do que as tarifas de ônibus. Sermos socados em latas de sardinhas, algumas caindo aos pedaços, sem o mínimo de conforto, em linhas que não são capazes de suprir a demanda, esperando às vezes por horas um ônibus que deveria passar rápido. E os preços sobem, sobem e sobem – sem que nada se reverta ao usuário. E ficamos presos no trânsito, e não temos soluções eficientes de transporte urbano, e isso também se reflete em quem anda de carro ou moto. Morar numa metrópole é estressar-se com trânsito, aí você percebe que vai pagar mais para se estressar. Isso sem falar nos moradores da periferia que trabalham no centro e dependem de duas, três lotações para chegar – para eles, 0,20 no fim do mês faz uma diferença medonha, e perder duas, três horas por dia nas quais você poderia estar com sua família no trânsito é terrível. E paga-se mais para ter o mesmo.

Aí continuamos pelo paga-se demais e não se tem: numa perspectiva mais classe-média, segurança pública. Vemos assaltos e latrocínios subindo, um sistema penal inflado e que não funciona (por falta de investimento na polícia, por exemplo), um sistema que privilegia o rico que pode pagar advogados e sai rindo dos julgamentos e que oprime o pobre. E sentimos na pele a impunidade.
(Aí algum desavisado pergunta: e a maioridade penal? Sou CONTRA a redução. Não é jogando o adolescente no mesmo sistema falido que vai se resolver alguma coisa. Tem-se de se investir nos centros de recuperação, talvez tornar as penas de crimes cometidos por adolescentes mais severas, mas não jogar a pessoa em formação num sistema que nem para adultos funciona). (Endurecimento do Código Penal: também não resolve nada, Resolve é investimento na polícia, em especial na Polícia Civil, para apuração dos crimes já cometidos para que possam ser punidos, do Judiciário, com servidores e equipamentos para agilizar os processos. Investimento nas cadeias, para humanizaçao da pena e recuperação do apenado. Não precisamos de leis, leis temos muitas – precisamos de EFETIVIDADE) (em outra ocasião poderíamos discutir o Código Penal com mais vagar).

E fora da perspectiva de classe média (ou nem tanto, já que eu mesma tive de passar recentemente 6h num hospital público para receber atendimento – de uma única plantonista que precisava se virar entre casos de atropelamento, acidente de carro, brigas, facadas e outros tantos) – as pessoas morrem em hospitais públicos por falta de atendimento. Recentemente tivemos uma celeuma sobre a chegada de médicos estrangeiros, mas a realidade que se vê é: faltam médicos. Faltam enfermeiros, auxiliares, profissionais da saúde em geral. Faltam equipamentos. Faltam remédios. Em algumas cidades o problema é maior, em outros o problema é menor, mas ele está por aí – estamos morrendo nas filas e nada de providências.

Aí protesta-se sobre 0,20 e a polícia, numa ação desastrada, responde com truculência, o que dá força ao direito de manifestar-se. E os grupos de extermínio que agem na periferia e não na Avenida Paulista diante das câmeras? E as milícias comandadas por policias? E a ausência do Estado que ajuda isso a acontecer? E a segurança pública que é insuficiente para coibir crimes, mas está lá para atingir os manifestantes, está lá para matar os jovens de periferia? Dos malfadados “autos de resistência”?

E enquanto vemos que falta investimento para tantas coisas (ainda nem cheguei na educação, mas chegaremos lá), nos veem com notícias de uma Copa do Mundo no nosso quintal e gastos em cifras milionárias, bilionárias. Superfaturamento se torna notícia comum em todos os jornais, obras públicas que nunca forma feitas antes e são realizadas de maneira desastrada, somas inimagináveis de dinheiro em estádios que nunca serão usados, BILHÕES que saem dos cofres públicos como se fossem míseros 0,20. E a impressão de que tem alguém se aproveitando, e muito, do nosso dinheiro e não investindo no que seria importante.

E chegamos no ponto nevrálgico dos protestos – o sentimento de que os políticos não nos representam.

O sentimento de que os coroneizões em suas cadeiras estão rindo de nós, o povo, enchendo os bolsos, cuidando dos próprios interesses e nós que nos lasquemos.

Que os partidos já não são capazes de nos representar. Que todos – TODOS – representam apenas a si mesmos e à busca pelo poder custe o que custar.

Que aberrações como os Marco Felicianos da vida estão lá e não representam ninguém além deles mesmos e de seus currais eleitorais (ou nem a eles). Que não importa o país, importa a fazendinha, a empresinha, o templinho, o bolsinho cheio. Que votam leis que beneficiam a si mesmos e se descolam dos anseios sociais, do que a população deseja, do que a população necessita.

Políticos que ignoram o clamor das ruas, que ignoram movimentos sociais (que há ANOS protestam e pedem mudanças), que cada vez mais se disassocia do povo e do clamor do povo. E que, aos poucos, aos olhos do povo, se deslegitima.

E ainda precisamos aguentar deboche, como dos vereadores de Belo Horizonte, que aumentaram seus salários e disseram que o povo vai votar neles nas próximas eleições, então e daí. A sensação de que só somos importantes na hora do voto, quando eles aparecem e beijam criancinhas. E os partidos, que deveriam catalisar as necessidades do povo, em seu jogo próprio de poder e que não representam ninguém mais do que eles mesmos.

É o sentimento generalizado de falta de representação.

E chegamos no clichê, mas carregado de verdade: e a educação? Porque, lembremos, quem encabeceia os protestos e manifestações é a camada intelectualizada da sociedade brasileira, que tem acesso à informação e à internet. É quem vai além do Jornal Nacional, do Datena, do Marcelo Rezende (que, por sinal, não tiveram escolha senão irem junto do povo). E esse acesso à informação, essa reflexão, essa capacidade de tomar decisão, é o que o poder instituído, o estabilishment, mais teme, porque é quando não aceitamos passivamente e como cordeirinhos as explicações e satisfações de ninguém.

Como vão nossas escolas públicas? Caindo aos pedaços, professores mal-remunerados (e uma pauta social que ninguém dá a mínima há anos). Salários de professores no Brasil são uma piada de mau gosto – e quem vai querer ser professor quando a remuneração é baixa? Quem vai ensinar o básico para as crianças?

Mais do que isso: o valor da educação como princípio, muito além das matérias científicas, do conhecimento, do despertar do senso crítico, as lições de cidadania que a comunidade pode dar. E aí a crítica não é só à rede pública, mas às escolas particulares: o fim da escola não é e nem deveria ser passar no vestibular, transformar crianças em maquininhas de repetir fórmulas e incapazes de refletir sobre o mundo que vivem.

Então chegamos na moralidade, no senso de que todos somos seres políticos – e é verdade, para ser político basta estar inserido na sociedade. Viver é um ato político. E “sou apolítico” é uma das maiores besteiras que alguém pode dizer conscientemente. Principalmente porque a omissão política, a omissão da opinião, valida a de quem está opinando, quem está se posicionando. Enfim.

São várias ideias soltas, são 0,20 centavos em muitos sentidos, nem sei se faço sentido, mas é esperarmos como será o Brasil pós-protestos, como agiremos entre nós e como nação quando as coisas acalmarem.

P.S.: Duas coisas aconteceram enquanto eu escrevia o texto: foram revogados os aumentos de passagem em SP e RJ e a Câmara indica, informalmente, que a PEC 37 não entrará em votação. São grandes vitórias, mas faltam tantas outras. Os 0,20 do transporte já foram, mas e todo o resto que precisa de reformas?

***

Até a próxima!

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3 Responses to 20 centavos sobre os 20 centavos

  1. Bruno says:

    Perfeito, acho que concordo com tudo. O importante é não se contentar com o que já conseguimos, e seguir lutando por mais.

  2. Republicou isso em e comentado:
    Rebloguei mesmo, pois a reflexão e o debate não podem desacelerar.

  3. Pingback: Copa do Mundo 2014 | Leitura Escrita

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