O Girassol Noturno – A. B. Ceedee

 o girassol noturnoÀs vezes compra-se um livro pela capa e foi bem esse o caso: esse girassol brilhante fixou imediatamente minha atenção em uma das prateleiras secundárias da livraria (que é o melhor destino possível para um livro de editoras pequenas), me fez pegar o livro para olhá-lo melhor , cheirá-lo, tocá-lo, senti-lo e por fim pagá-lo e levá-lo para casa.

Como sempre digo, é sempre bom passear por gêneros para se ter uma ideia global do que é a leitura – ir além do gênero predileto não é necessário somente para quem ser escritor, mas para quem quer ser leitor também. A orelha do livro apresenta seu autor: A. B. Ceedee é um pseudônimo, o leitor que construa a identidade do autor, se assim importar (e identidade, como veremos, é um dos pontos altos do livro), sabemos apenas que ele ou ela é de New Jersey, palco da história que passaremos a ver.

E este é um romance muito interessante em forma: a primeira parte, claramente inspirada nos folhetins dos séculos XVIII e XIX, é um romance epistolar entre pessoas que estão presas: Jennifer é uma ex-jogadora de vôlei que chegou até mesmo às últimas seletivas para as Olimpíadas, mas um acidente de carro privou-a de sua maior paixão e, graças ao colapso emocional gerado pela perda da mobilidade, está internada na mesma clínica de recuperação do que Juan Ramírez, imigrante ilegal viúvo e separado de sua filhinha por coiotes durante a travessia. A diversão de ambos é escrever e juntar, sem ordem cronológica e com várias entrelinhas a serem preenchidas pelo leitor, as peças de seu passado e tentarem entender, pela escrita, o que fazem ali.

Interessante, como já está sendo tendência, que boa parte dos capítulos de Ramírez é escrito em espanhol e em dialeto regional, demonstrando seu parco inglês, mas ao mesmo tempo a busca por comunicar-se, por uma janela para outro mundo.

Entre os dois, o narrador (de um romance epistolar, vocês me perguntariam, mas no contexto faz muito sentido e coesão), Tommy, um garoto órfão autista, que tenta se comunicar com o mundo através de ilustrações de flores – mas o grande mundo profundo que se passa em sua mente é poético e delicado. É dele a frase que nomeia o livro: “se o grande propósito é o sol, qual o sentido de um girassol noturno?”. Suas pinturas pautam o assunto do casal, de maneira bem sutil, e os motivos florais, como símbolos sutis, revelam os sentimentos ocultos, sendo o último deles um sugestivo buquê de rosas – que marca a grande virada para a segunda parte do livro.

E é nessa segunda parte que toda a força da obra aparece e desponta: depois de uma virada de eventos que de certa forma era esperada (por que todos os personagens, inexplicavelmente, possuem furos em suas histórias e estão no mesmo lugar?) mas ainda assim é um soco na boca do estômago. Do romance leve, passa-se para um romance intimista e simbólico sobre identidade e realidade – e como estes podem ser conceitos sutis que se fundem. Trata-se de uma jornada sem volta e sem preparo para o fundo da alma, não apenas dos personagens, mas daquele que lê e acaba se tornando personagem também de um todo muito maior. Pois não há como se excluir a leitura do mundo onde ela se insere, tanto o do autor quanto o do leitor – passando pelos personagens que o tonificam.

O capítulo final é incrível, apoteótico. É daqueles de ser lido num único fôlego, de deixar noites em claro, de refletir sobre cada palavra e digerir devagar, pegar-se pensando sobre a conclusão dias depois do fim da leitura. Uma mensagem forte e visceral, que intensifica tudo o que veio antes. Um legítimo tour de force.

Enfim, um livro altamente recomendado, para entender literatura, desenvolvimento literário e uma boa dose da mais pura filosofia contemporânea.

Para mais livros do tipo, recomendo fortemente este blog.

***

Até a próxima!

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9 Responses to O Girassol Noturno – A. B. Ceedee

  1. Bruno says:

    Nossa, lembro de ter lido esse livro na primeira edição ainda, aquela que as páginas vinha aromatizada com sementes de girassol. Ela esgotou rapidamente (era pequena, ninguém esperava que ele fizesse o sucesso que fez), e as mais recentes retiraram esse detalhe que muda completamente a sua percepção sobre a história…

    Mas é um livro muito bom, recomendo mesmo.

  2. Mary says:

    To doida pra ler esse livro. O vi na livraria esses dias, mas não botei muita fé. Agora que li sua resenha me convenci a ler. =)

  3. Lucas Rocha says:

    eu vi esse livro enquanto andava pelas tendas da off-flip do ano passado, mas não me chamou muito a atenção porque acabei desembolsando sessenta reais por um livro de poesia xerocado e costurado à mão, sem capa – livre como a poesia deve ser -, coisa bastante artesanal. Uma pena, pois estou necessitando desse tipo de livro que me faça ter uma nova perspectiva sobre o mundo. o último que conseguiu isso foi o livro da caterina lisabreu (pra quem não sabe, pseudônimo do único livro escrito em parceria da clarice lispector com o cf abreu), um lindo romance psicológico de oitocentas páginas sobre uma mulher homossexual presa em uma cama, lembrando suas vidas pregressas até o momento em que levanta para o café da manhã.

    com certeza vou dar uma olhada nesse livro. está no topo da lista!

  4. Não sei não, fontes seguras disseram que A. B. Ceedee é um pseudônimo do Paulo Coelho, pra tentar entrar no mercado americano. Típico. O melhor de tudo o que é produzido aqui vira produto de exportação.

  5. Além do conteúdo e estrutura literária da obra é o boato de que há uma história paralela construída subjetivamente, se você ler a terceira palavra de cada parágrafo do fim para o começo – com o leitor participando preenchendo as conjunções e artigos faltantes nas novas frases criadas.

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