Battle Royale – Koushun Takami

battle-royale-capaPoucos pesadelos são mais reais do que a violência. Todos estamos, em maior ou menor grau, sujeitos a ela – pode ser que um belo dia não voltemos mais para casa depois de um assalto, ou estejamos no lugar errado na hora errada, ou (especialmente no caso de mulheres) nos envolvamos com a pessoa errada. E, quanto mais gratuita e isenta de sentido, mais terrível a possibilidade se torna.

 O que dizer, então, de jovens, reunidos contra sua vontade, cujo único objetivo é matar uns aos outros para o deleite de um governo ditatorial? Amigo contra amigo, irmão contra irmão, e suas vidas desperdiçadas?

 Essa é a premissa de Battle Royale, lançado no início da década de 2000 e que virou hit imediato no Japão, sendo recontada em filme e mangá (ambos de bastante sucesso no ocidente, quem viveu por essa época na internet e/ou com algum contato com a cultura otaku com certeza viu ou ouviu falar em alguma dessas adaptações).

 

Essa é a história de uma turma do último ano do ensino fundamental, repleta de adolescentes de quinze anos, escolhidos para o Programa: uma atividade (não tão) secreta do governo ditatorial local em que eles devem lutar até a morte até que reste apenas um. Os objetivos disso? Além de alimentar um sadismo irracional, que a história se espalhe e mantenha a população sob controle, amedrontada demais para organizar-se e derrubar os governantes.

 Pois estamos num cenário de realidade alternativa: as coisas no mundo foram diferentes durante o século XX e o Japão possui um governo ditatorial fascista. Curiosamente outras coisas no mundo permaneceram iguais à nossa realidade, como a cena musical, já que os mesmos artistas e canções surgiram, mesmo que o contexto do mundo tenha mudado.

 Mas nossos adolescentes, jovens normais com aspirações normais (ser o campeão de esportes da escola, o nerd, a menina que adora ídolos pop, o representante de sala, os desajustados sociais), afinidades e inimizades, serão jogados num mar de sangue, terão a confiança abalada e a sanidade retirada. E, claro, só pode sobrar um.

 O protagonista é Shuya Nanahara, ex-astro do beisebol escolar e atual aspirante a estrela do rock, atividade tida como subversiva pelo regime. É um sujeito gentil, íntegro e que vê o melhor amigo, Yoshitoki, sendo morto sem defesa ao tentar protestar contra essa loucura, e toma como tarefa proteger a garota por quem ele era apaixonado, Noriko. Só que logo ele percebe que nem todos estão encarando o jogo da mesma forma que ele, além de adquirir aliados inesperados e inimigos ocasionais.

 Esse é o pior dos terrores além da óbvia morte: a paranoia que aos poucos corrói a sanidade dos estudantes. Em quem confiar, se é que se pode confiar, quais escolheram jogar pelas regras e matar os colegas? E pequenos mal-entendidos se tornam mortais, o diálogo termina e o que conta é o extermínio.

 Claro, a situação serve para extravasar o que os alunos têm de melhor, mas também o que têm de pior em si – bullies descobrem a desculpa perfeita para justificar suas atitudes e sua visão niilista do mundo, as vítimas do bullying também encontram a desculpa perfeita para o dia da vingança. É o acerto de contas, o momento em que a humanidade é retirada e todos são bestas em busca de sobrevivência.

 Se for tentar fazer uma análise social do livro, penso que tem muito a ver com a violência dos jovens, principalmente numa sociedade cujas marcas registradas sejam a rigidez da forma social (e a exclusão daqueles que saem dela) e a primazia da coletividade sobre o indivíduo. E também uma sociedade numa antiga crise, que não oferece muitas perspectivas de futuro a um jovem. Como desarmar essa bomba antes que a violência se torne mais desprovida de sentido e mais real?

 O final é um sopro da racionalidade como método e salvação de problemas, por mais que se escancare o jogo dos mocinhos idôneos contra os vilões amorais (não que o livro não gaste um pouco de tempo para falhas dos personagens, mas nem tanto dos protagonistas, que soam um pouco como “os melhores de todos” que sobreviverão. O desfecho também tem um tom meio absurdo, meio farsesco a la MacGyver, que tira bastante de sua força, mas a mensagem continua lá – e forte.

 Enfim, é um livro de terror, daquele tipo mais forte: o que dialoga com a realidade, o que, apesar do absurdo, não é assim tão distante, e que mostra que fragilidade, paranoia, desunião e egoísmo são as armas mais mortais contra um grupo de pessoas.

***

Até a próxima!

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3 Responses to Battle Royale – Koushun Takami

  1. Eu acho que eles eram terceiro ano, não?

  2. Pingback: Battle Royale versus Jogos Vorazes | Leitura Escrita

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