Good Omens – Neil Gaiman e Terry Pratchett

good-omens-capaUm dos assuntos mais culturalmente instigantes é o apocalipse, o fim de tudo, a chuva de fogo e o ranger de dentes eternos que marcará o ponto final. Como será o dia final? Trará terremotos, meteoritos, renúncias papais? Como será o choro e ranger de dentes definitivos?

 Essa é a versão dos maiores nomes da fantasia inglesa contemporânea, numa parceria feita para dar certo. O humor mordaz de Pratchett misturado com a riqueza dos cenários de Gaiman encaixam-se como uma luva, a fusão de estilos fica bem concisa, apesar de conseguirmos enxergar bem as marcas registradas de cada autor, o recado de que eles estão ali.

 O mundo está marcado para acabar desde o momento em que ele começou, então as legiões de Céu e Inferno estão se preparando para o Armageddon, a batalha final, desde então. Não que todos anjos e demônios concordem com isso: Crowly, demônio, e Aziraphale, anjo, têm lá seus motivos para gostar da humanidade e não estão muito a fim de duelos com espadas com lâminas de fogo, bestas-fera e nem nada disso. Querem é seguir a vida de sempre e deixarem como está, mas os chefes não parecem concordar muito.

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O Brigadeiro

brigadeiroPoucas coisas proporcionam tanto prazer e são tão simples quanto um brigadeiro. Seja o doce preferido das festinhas de criança (às vezes acompanhado do granulado de pior qualidade possível que estraga toda a experiência), aquela solução rápida para uma vontade inconveniente de comer doces, a panela amiga em um dia de mau humor – lá está o rei dos doces.

 A receita é bem simples: uma lata de leite condensado, uma colher de manteiga, duas de chocolate em pó. Algumas pessoas tentam complicar o que é simples (como a famosa receita do William Bonner que leva gema de ovo) – mas é só jogar os ingredientes na panela, mexer mexer mexer mexer e voilà. Claro, não desaprovo as variações temáticas e até aprecio novidades, como trocar o chocolate em pó pela barra, ou pelo cacau em pó para diminuir a doçura, ou misturar a cremes e biscoitos. Entrou na moda a onda de brigadeiros gourmet, com com recheios e coberturas sofisticadas demonstrando toda a versatilidade do doce. Mas o menos é mais.

 E para mim esse é o grande mistério do brigadeiro: como não existem dois iguais, sendo a receita tão simples? Como o resultado final de cada um é diferente? Seriam as mãos do cozinheiro, a temperatura do fogo, a panela, a quantidade de mexidas? Já fiz essa experiência em casa: no mesmo exato fogão com a mesma exata receita, dois resultados completamente diferentes.

 Claro, às vezes inventa-se demais e acaba-se errando nos princípios, nos fundamentos. Para não mencionar os brigadeiros desandados da minha infância: minha mãe nunca foi a mais habilidosa das cozinheiras, é verdade, mas fazia balinhas de chocolate puxentas impossíveis de serem consumidas. Bons tempos.

 O que continuo sem entender é: como algo tão simples pode ser tão individual? O brigadeiro da madrinha, da tia, da amiga. Pode-se dizer que duas pessoas são diferentes, logo, duas receitas serão diferentes – mas como outras tantas, às vezes complexas, podem ser iguais então?

 Mas duas coisas são sagradas: JAMAIS use margarina no brigadeiro, a textura muda completamente e não de uma maneira boa, e só use achocolatado se esse for o ultimíssimo recurso.

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Até a próxima!

Cinquenta Tons do Sr. Darcy – Emma Thomas

50-tons-darcyÉ uma verdade universalmente reconhecida que um clássico gera o desejo da iconoclastia. Aliás, essa iconoclastia é até mesmo saudável, pois obras e conceitos intocáveis não são nada saudáveis – e para que a quebra seja eficiente, quem a faz deve conhecer a obra original para tal.

Orgulho e Preconceito é uma das obras mais importantes da literatura inglesa. Um jovem provavelmente lerá o livro no colégio em países de língua inglesa, inclusive (e será que pegarão a ojeriza aos clássicos tão comum entre os alunos pátrios?). É muito mais do que um romance: é o retrato e crítica social de uma época que aparenta ser tão glamourosa, mas que continua se aplicando aos dias atuais, como o peso da conta bancária de alguém, prestígio social, preconceitos à primeira vista e mal-entendidos.

E como todo clássico, é constantemente renovado, tanto pela adaptação para outras mídias (tem ao mínimo três versões em filmes/séries de TV, incluindo uma muito clássica da BBC) quanto por recontagens (por incrível que pareça O Diário de Bridget Jones é uma versão moderna da obra) e paródias (como a precursora da onda de mashups Orgulho e Preconceito e Zumbis). Acho todos os casos válidos, pois é assim que o clássico se mantém vivo, não imutável e encostado na parede pegando poeira, traça e teia de aranha.

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O Jardim do Diabo – Luis Fernando Veríssimo

o-jardim-do-diaboA associação mental imediata entre Luis Fernando Veríssimo e um texto é obviamente o humor. Não o humor rasteiro das falsas mensagens na internet atribuídas a ele, mas o humor sutil do ridículo da realidade, aquele pontual e direto ao alvo. Suas crônicas são clássicas, algumas impagáveis, e poucos em nosso idioma conseguem uma sátira do cotidiano tão certeira. O Jardim do Diabo foi seu primeiro romance, será que ele conseguiria replicar o efeito de suas crônicas?

(e sobre o Luis Fernando Verissimo, uma coisa que me deixa intrigada: taí um autor que em todas discussões de “brasileiro não lê autor nacional”/”brasileiro não lê os autores que quero que ele leia”, ele passa ignorado. Não achincalhado como Paulo Coelho, mas ignorado completamente. Curioso, não?)

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