Clube da Luta – Chuck Palahniuk

clube-da-lutaA primeira regra do Clube da Luta é não falar sobre o Clube da Luta.

Tudo bem, mas hoje estou no humor para infringir regras. Você já deve ter visto, ou ouvido falar, no filme de mesmo nome – o que talvez não saiba é que foi baseado neste livro. A história não deve ser nenhuma novidade, mas mesmo perdendo seu ineditismo continua bem interessante, até porque como em toda adaptação, os detalhes são diferentes (principalmente os que não cabem na transposição para a tela) e quando o filme foi visto há muito tempo algumas passagens vão se apagando da mente, tornando a experiência inédita. Aliás, vale para qualquer adaptação: é ver a mesma história contada de duas (ou mais, imaginemos uma versão em livro, outra em filme, outra em quadrinhos, outra em teatro…) formas diferentes.

O único prejuízo é que há uma informação que muda completamente o rumo da trama e sabê-la de antemão muda a percepção da trama, o choque planejado não ocorre. Mas enfim, coisas da vida.

Essa é a história do narrador-sem-nome, que tem uma vidinha medíocre de proletário-padrão, cujo sonho é mobiliar a casa segundo o catálogo da Ikea e sente-se adoecido, pressionado e vazio. Para aliviar-se, frequenta grupos de autoajuda de doentes terminais e tudo se equilibra até o dia em que Marla, uma desconhecida que também frequenta os grupos com a mesma finalidade.

O narrador-sem-nome volta ao seu estado de perturbação e, numa viagem de trabalho conhece o misterioso Tyler Durden, que o apresenta ao Clube da Luta, onde homens se reúnem durante as madrugadas para descontarem as frustrações em socos e pontapés. Só que as coisas evoluem e Tyler se torna uma espécie de messias, líder de um grupo de destruição em massa para “destruir a sociedade” e as coisas perdem completamente o controle (mas o final do livro é diferente do final do filme).

É uma história, com muito humor negro, sobre o niilismo na qual o indivíduo é jogado pela própria sociedade que o desumaniza, que mede seu valor pelo que ele pode consumir. Sobre o vazio da vida de um homem branco de classe média numa época onde não se há mais inimigos contra os quais lutar (lembrando que o livro foi escrito na década de 1990 e a arte é boa em revelar sintomas que só se tornarão latentes mais tarde), quando sua existência é quase equivalente da de uma engrenagem numa máquina industrial – e se é tão substituível como pessoa quanto. Quando o ser não é mais valorizado como fim em si próprio.

E sob a pressão da miséria humana, a violência e a filosofia niilista de Tyler Durden afloram. Se o homem nada vale e a vida não tem sentido nenhum, então que derrubemos a sociedade vigente, que tornemos a luta de classes ainda mais literal. E esse vazio existencial, essa promessa de ser valorizado como mártir, como célula de algo maior é a principal promessa que se faz a um terrorista. Às vezes é uma religião estabelecida, às vezes é o culto, mas no caso demonstra-se que qualquer ideia, qualquer filosofia, até nenhuma em especial, pode servir de combustível para um culto cego a um líder, ao crime e à (auto)destruição.

Interessante que o livro guarda certa identidade temática com O Psicopata Americano, lançado com poucos anos de diferença e também um grande sucesso em sua adaptação cinematográfica. Ambos, apesar de partir pontos opostos, tratam do mesmo desconforto diante da sociedade pós-industrial esterilizante.

E por falar no Psicopata Americano: em determinado ponto uma luz interessante me foi acesa sobre o Clube da Luta: em NENHUM momento a destruição proposta pelo Mayhem se direciona ao ódio, às minorias sociais (mulheres, negros, homossexuais, imigrantes…). Ou seja: é possível ser um maníaco incendiário sem lançar seu ódio contra outro grupo social em específico, sem pregar ideias de ódio.

Como livro ou como filme, um belíssimo livro, divertido, sim (como disse, humor negro à vontade, ao ponto de você se perguntar se deveria dar risada de certas passagens), mas também bastante reflexivo, até ao ponto da paranoia… Só não recomendo ler logo após as refeições, pois há várias passagens muito pouco ou quase nada digestivas… Mas, de resto, uma baita obra sobre o desconforto da contemporaneidade, que continua válido mesmo quase vinte anos depois de sua escrita.

***

Até a próxima!

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2 Responses to Clube da Luta – Chuck Palahniuk

  1. Oi Ana, vi seu link no Desafio Literário e vim conferir a resenha porque também li um Chuck Palahniuk esse mês. Ele é simplesmente um de meus autores favoritos e é esse tapa de luvas que ele dá em cada livro que faz dele um escritor brilhante. O Chuck sabe pegar as nossas maiores hipocrisias e jogar na nossa cara na forma de uma história muito louca, mas com a qual todos nos identificamos, em maior ou menor escala. Li Clube da Luta muito tempo depois de ver o filme e achei que conhecer a trama fosse me tirar a empolgação para lê-lo, mas foi justamente o contrário. Primeiro, porque o roteiro foi muitíssimo bem adaptado. E segundo, porque o último ato é bem diferente no filme e no livro. Portanto, acho que vale mesmo a leitura. E rever o filme depois 🙂

    Parabéns pela resenha. Beijo!

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