Fim do Mundo

fimdomundoDaí que de vez em quando o mundo acaba mesmo. Sério. Já acabou algumas vezes, vai acabar outras tantas, e assim as coisas vão. Até porque “mundo” é uma conceituação relativa, que pode coincidir ou não com a de planeta – é sócio-cultural, não física. Para não chegar aos mundos pessoais que cada um carrega dentro de si e que algum dia também terminarão – já que a vida é finita.

 Aliás, talvez esse seja um dos maiores apelos do fim do mundo: nessa nossa sociedade urbana, industrializada, asséptica e desumanizada, nos desconciliamos dos ciclos naturais. A morte é uma parte natural da vida, mas nos desacostumamos a ela – talvez esse um dos grandes fatores que geram medo e ansiedade do fim. Ela virá, é certa, mas o ciclo seguirá sem nós e continuaremos. Nem precisa chegar-se a uma continuação metafísica, mas nossos corpos nutrirão a terra, que nutrirão outros corpos e assim o ciclo se reinicia. Mas já que desconhecemos a terra, nos afastamos dela, e vida e morte são assépticas e desinfetadas, nos esquecemos que somos seres orgânicos como quaisquer outros que habitam o mundo. Finitos e parte da vida.

 E se a espécie humana fosse varrida da terra de uma vez só? Não creio que os demais seres sequer se dessem conta disso, ou faria diferença para eles – tudo bem, para os animais que vivem em famílias humanas até faria, mas não faríamos a menor falta para o planeta. Às vezes seria até melhor para várias outras espécies já que seus predadores teriam as deixado em paz, antropocêntricos, egoístas e devastadores que somos. Nenhuma tragédia universal. Seríamos (como somos) um mero suspiro do universo. Lembrem-se dos dinossauros (que tiveram seu próprio fim do mundo antes de virarem passarinhos), o mais famoso caso de extinção massiva dentre os vários ocorridos? E dos mamutes e tigres dente-de-sabre? Eles se foram, nós estamos aqui, nós iremos embora algum dia. Carpe diem.

 Aliás, hoje, muito mais do que um cataclismo externo ou interno, a maior chance da espécie humana acabar é a de auto-extermínio. Acabar com recursos naturais, mudar os padrões climáticos, tudo isso cobrará um preço caro para nossa espécie, principalmente para os mais pobres e sem recursos. Com essas ondas de fim do mundo e tudo mais deveríamos refletir um pouco mais sobre o que fazemos com o que temos – desperdício, sujeira, inutilização, desrespeito. Para nem chegar nas guerras e destruições em massa.

 Que é onde chegamos, nos fins do mundo já ocorridos. Querem um fim do mundo diretamente da América Central e que aconteceu mesmo? Lembrem-se de Cortéz e outros exploradores, que destruíram o império local e implantaram uma nova sociedade. Ou dos nativos americanos ao norte e ao sul. Querem algo mais europeu? O Império Romano caiu e isso foi o fim do mundo existente na época, para o começo de um novo. Uma das minhas teorias preferidas sobre o Ragnarok foi que ele já aconteceu (afinal, os deuses antigos foram substituídos pelo cristianismo). A Bastilha foi derrubada. O Muro de Berlim também. Vários fins que levaram a vários começos.

 Fora que profecias do fim do mundo são recorrentes. Para quem tem idade para se lembrar, o ano 2000 era esperado com horror (já que de 1000 passará, mas de 2000 não passará). Ou antes, havia uma profecia marcada para 1999. E em 2001 a coisa ficou séria (também para quem não tem idade para se lembrar: logo após os atentados de 11/09, ninguém sabia muito bem o que viria a seguir). Ou antes disso: o auge da guerra fria foi uma época de medo instaurado, onde o apocalipse nuclear era um futuro plausível, pois dependia apenas de líderes que acordassem de mau humor ou do estagiário que apertasse o botão errado. Fora as inúmeras datas, crenças, cultos suicidas e paranoia generalizada que apareceram nesse meio-tempo.

 Mas por que especificamente a suposta profecia maia está tendo um apelo tão grande? Talvez porque vivemos em um mundo de incertezas. Lembrem-se: desde 2007/2008, os ditos países desenvolvidos encaram uma crise socioeconômica sem precedentes, como podem acompanhar em qualquer jornal de sua preferência. A boa vida mantida e sustentada por décadas acabou. Ainda na Europa, os imigrantes renovam e ventilam a cultura local com aquela de seus países de origem, mudando aquilo que estava assentado em pedra, fazendo a roda girar. Ao redor do mundo, ditaduras caem, minorias têm seus direitos reconhecidos, e um status quo arraigado começa a ser ferido de morte. Mudamos, como humanidade, e essa mudança assusta, o total desconhecimento pelo porvir, que pode trazer dias melhores ou piores, traz o medo. Aliás, bom dizer, a ignorância é a mãe de todo medo. Então, o apelo fácil pelo misticismo fajuto se espalha como fogo. Mais fácil marcar uma data para o fim do mundo do que aceitar as mudanças bruscas que ocorrem aqui e agora.

 (aliás, curioso ou não que esse apelo da “profecia maia” começou justamente por 2008/2009… E que não há uma profecia. Quer dizer então que quando sua folhinha acaba no fim do ano, significa que o mundo vai acabar? É apenas uma mudança de ciclo…).

 Mas então é isso – mudamos sempre. O futuro é incerto. O fim está próximo – mas todo fim pressupõe um começo a seguir, um mundo acaba, outro começa. E você, quer pertencer ao mundo novo ou ao velho?

***

Até a próxima! (?)

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3 Responses to Fim do Mundo

  1. Curioso… estava lendo hoje sobre o mais próximo que tivemos de um fim do mundo de verdade, e não foi o dos dinossauros: foi a grande extinção do permiano-triássico: 95% da vida na Terra foi extinta, e de uma só vez. Ninguém sabe direito o que aconteceu, mas foi algo mais devastador do que a extinção dos dinos.

    O curioso é que os seres dominantes que viviam nela eram os terapsídeos – eles tem um registro paleontológico bem mais completo do que os dinossauros inclusive. Eles eram proto-mamíferos, alguns com pelos. Foram extintos praticamente de uma só vez nessa grande extinção. Menos umas poucas espécies que foram BEM reduzidas, e elas foram sendo extintas durante a era dos dinossauros, que ocuparam o nicho dos terapsídeos.

    Menos uma.

    E de repente veio a extinção dos dinossauros. E dessa última, ÚLTIMA linhagem de terapsídeos, surgiram os mamíferos. Que não eram grande coisa. Mas é graças a eles que estamos aqui. E essa cadeia toda me fez pensar, sério. Somos uma linhagem de sobreviventes. Resistimos a tudo, até à pior de todas as extinções (quando se vê os registros dessa grande extinção do permiano, é algo aterrorizante mesmo: não sobrou quase NADA).

    No fundo, eu sinto que isso tem algo a dizer sobre nós mesmos. Que suportamos tudo, mas seguimos em frente, mesmo que sejamos reduzidos, diminuídos e o que for – mas continuamos. E acho que essa é a grande lição de todos esses fins de mundo.

    Continuar. 🙂

  2. Arredondando, há 200 milhões de anos uns poucos terapsídeos sobreviveram. Mas existe uma espécie que está causando a extinção de todas as demais espécies descendentes de cinodontes. Essa espécie é uma praga, mais “aterrorizante” do que o fim do Triássico: é o pseudo-sapiens.

    • Pois é, vocês dois, concordo com ambos… Somos sobreviventes, mas também não sabemos usufruir das maravilhas que estão diante de nós sem estragar tudo. ‘Bora achar o ponto de equilíbrio! 🙂

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