Cinquenta Tons de Liberdade – E. L. James

uAiai. O que não se faz para pagar uns pecadinhos literários? Mas a penitência chegou ao fim, esse é o último livro do famoso best-seller de “pornô para mamães” que está na lista de mais vendidos desde que foi lançado no mundo todo para deleite de algumas, curiosidade de muitos e horror de outros. Não vou dizer que não tenha sido uma experiência antropológica, digamos assim, divertida, principalmente por fatores involuntários, e nem a certeza de que agora vou precisar de outra série ruim para ler pelo único objetivo de zoeira… (até porque o último livro de Fallen já foi lançado, tenho de ler depois).

Mas enfim, vocês podem ver minha travessia por inferno e purgatório aqui e aqui. Nesse último volume Ana, que deveria ter saído correndo, procurado atendimento psicológico para si e para Christian, ir viver sua vida ou sei lá aceitou um pedido de casamento feito depois de longuíssimos 45 dias de relacionamento. É, porque é muito sensato assumir um compromisso assim tão sério com uma pessoa que você conhece faz um mês e meio. Pelo menos na inspiração declarada Crepúsculo ainda se leva mais de ano para que Bella e Edward juntem os trapinhos. Só que ninguém nessa história é mentalmente são, vamos que vamos com essa história de casamento.

(e plot device que se essa fosse uma história bem-escrita poderia ter sido explorado e foi perdido número 1: o fato de que aos olhos dos outros, uma garota pobre saída do nada que se casa nesse prazo recorde com um multimilionário bonitão só pode estar dando o golpe). A autora até tenta falar que dinheiro não importa, que ela é simples, blabla blabla blabla.

E começa vidinha de casados do casal-maravilha, mas o sr. Grey ainda vê a esposa como se fosse sua posse, quando ela sofre assédio, a violência que ela como pessoa sofre pouco importa, o importante é o que estão mexendo com a propriedade de sr. Grey. Mas casado até que ele fica um pouco menos esquisito e dá até para nutrir (alguma) simpatia por ele. O que não muda o fato que ele é um machista que objetifica a Ana, não a ama, e isso não é exemplo para ninguém.

E claro, o vilão com risadas escandalosas da vez. Outro plot perdido, já que ele é mal-aproveitaaaado que até dói. E, claro, dá-lhe psicologia de botequim, complexos freudianos e a pior cena de perseguição da história da literatura. Fora que o Grande Vilão do Mal Conspirador, apesar de coerente, é meio “ah, vamos arranjar um final emocionante”. Aliás, ela até mesmo tenta – tenta – dar uma vida a mais aos personagens secundários, mas pela sua limitação como escritora a coisa se perde no meio.

As cenas de sexo continuam mais do mesmo – há melhores, mas também há piores – e no terceiro livro seguindo o mesmo padrão já estava enfadada delas. Sério, quando eles começavam a transar eu só pensava: “saco” e começava a leitura dinâmica. Ou seja: o que era pra ser o ponto forte do livro deixa a desejar pela mesmice.

Tanto que como vocês podem ver nem consegui fazer uma resenha engraçadinha dessa vez, fora que falar de novo sobre todas as críticas e reservas pessoais que tenho a respeito do livro é chover no molhado. Até mesmo a deusa da vergonha alheia aparece menos dessa vez, vejam só! Mas só para dizer que não riram nem um pouquinho aí vão algumas frases deliciosas para degustação:

É extenuante, é exaustivo, é o inferno… É o paraíso. É hedonismo selvagem”. – Os tropicalistas e Humberto Gessinger se reviram de inveja.

Engulo em seco e minha deusa interior aperta os olhos em sua espreguiçadeira, onde ela está tentando captar os raios do sol com um refletor prateado acomodado no pescoço”

“-Christian, você é o prêmio da loteria, a cura para o câncer e os três desejos que Aladim pediu ao gênio: tudo isso junto” – muito romantismo, só que não.

Assim, pra concluir: se forem me perguntar por que acho que o livro fez e está fazendo esse sucesso todo, diria que boca-a-boca, marketing e erotismo de mulheres para mulheres sem o estigma de livro de banca. Mulheres gostam de sexo, por mais que o mundo queira dizer o contrário, de ler sobre sexo, de consumir erotismo – e isso para ultra subestimado pelas editoras e mercado em geral. Daí chega um material de qualidade para lá de questionável mas com embalagem promissora e pronto: todo um mercado adormecido desperta. E que dá às leitoras o que elas querem: cenas idealizadas de sexo. Se as editoras vão investir nisso, perceber esse filão, não sei, mas não se pode negar que ele está aí, que o 50 Tons está gerando seus derivados, que existem leitoras para esse público. Por que não oferecer algo um pouquinho melhor, mas que ainda tenha apelo popular? Vamos ver o que farão de posse dessa informação. No mais, estamos de aguardo do próximo best-seller de todos os tempos da última semana.

***

Laters, babies!

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19 Responses to Cinquenta Tons de Liberdade – E. L. James

  1. E como sempre, tags são a maior diversão. 😀

  2. Luciana says:

    Acho que suas resenhas foram o suficiente pra mim. Vou gastar minha grana não. X__X

  3. Orquidea says:

    Já disse alguém que não sei onde nem quem num jornal semana passada.
    “Quem foi que disse que sexo bom, tem de te se fazer malabarismo” …

  4. Laura Abreu says:

    Adorei as 3 resenhas.. e por causa do boca-a-boca.. vou ler os livros.. só para tirar as minhas conclusões, ou/e, ter certeza que não vou gostar.. pq só li criticas ruins sobre o livro…

  5. Bruno says:

    Agora tem que resenhar aquele “Toda Sua”, que a contra-capa diz que é melhor que 50 Tons… 😛

  6. Thiago Leite says:

    Mais uma resenha magnífica.
    É a primeira vez que eu comento, mas sou leitor frequente aqui do site.
    A sensação que tenho para explicar o sucesso desse novel é o público: mulheres encalhadas, hahaha… Não que seja o seu caso; mas é só uma sensação.

    Comecei a ler o primeiro e não aguentei concluir (aconteceu o mesmo com crepúsculo) então as suas resenhas me forneceram tudo o que eu precisava para não arriscar na leitura, hahahahahhaa..

    Beijos.

  7. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

  8. mara says:

    Eu li e gostei,pode ser tudo isso que estão falando , mais qual mulher que ñ gosta de ler um livro desse tipo, eu não fui a unica, todas pessoas que eu a conheço adoraram, as unicas criticas que eu vi foi dos critos , é seu trabalho….. criticar .

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