Infância – J. M. Coetzee

Ah, a infância… Aquela época idílica de brincadeiras até o pôr-do-sol, de candura e inocência e pureza e… Bom, não para todas as crianças. Para nem entrar naqueles casos onde a infância é usurpada pela violência e abuso (físico, psicológico, sexual…), há casos em que, por vários fatores, a personalidade também ajuda para que as lembranças desta época não sejam tão coloridas, ou mesmo passar pela infância não tenha sido indolor.

Este é um romance de inspiração autobiográfica de uma infância que, se não foi violada, também não foi o paraíso da felicidade. John cresce num país cindido (a África do Sul), em que há uma divisão bem clara e hostilidade declarada entre os grupos que compõem a população, para nem falar sobre o preconceito institucionalizado em relação aos negros. E por que a infância de um menino branco, africânder, de classe média, pode não ter sido maravilhosa?

Em primeiro lugar, pela rejeição da família materna, que passa aos filhos, sobre a herança africânder. Num país de múltiplos idiomas, os Coetzee falam inglês entre si, tentam ser aquilo que o sobrenome e o tipo físico deixam claro que não são. Criado assim e levando em consideração a subestimada crueldade infantil, ele é o prego que se destaca na escola e tem medo que a diferença, se descoberta, se volte como perseguição e violência sobre ele.

E como John é uma criança séria! Talvez por sua personalidade calada, não percebe que as terríveis fantasias em sua cabeça são hipóteses infundadas, que ele tira de lugar nenhum. Não percebe nem mesmo o óbvio: que se esforçasse para se integrar, teria menos problemas de relacionamento com os colegas. Mas como isso se torna possível se ele próprio se vê como diferente? Pareceu-me um menino sério, que leva muito mais a sério o mundo do que o necessário (talvez e principalmente por essa falta de diálogo).

Fica muito marcada também sua relação com os pais, principalmente com a mãe: há algo de edipiano em seu ódio e desprezo pelo pai que os largou pela guerra, e que os colocou em situações difíceis, e o amor pela mãe. Aliás, a relação dúbia com a mãe: ao mesmo tempo em que a vê como ser inferior (como ela pode andar de bicicleta ou saber ler e escrever?) pronto para realizar suas vontades, a vê como ser poderoso, que impõe a si e à sua vontade sobre ele. Ele se vê como “bebê da mamãe” e teme que os colegas enxerguem isso para usar contra ele, mas ao mesmo tempo também se aproveita dessa proximidade.

E, como esse é muito mais um relato do que uma narrativa, vemos a rotina da escola, a descoberta da sexualidade e o questionamento do preconceito, o prazer pela vida na fazenda, as mudanças de cidade e a passagem do tempo. E, claro, o que se passa em sua cabeça imaginativa, sim, mas que o reprime por seus medos e paranoias.Não é um relato fluido, pois está tão cheio de conteúdo em cada parágrafo e frase que poucas páginas por dia já me deixavam saciada.

Enfim, é tanto o relato de uma infância em particular quanto da vida em outra época e outro lugar em geral. Não há muito mais o que ser dito,até pela carga de pessoalidade envolvida, mas é uma jornada muito interessante. Recomendo o livro, tanto pela viagem cultural quanto por corresponder a um formato de leitura um pouco diferente do usual, ao menos para mim.

***

Até a próxima!

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3 Responses to Infância – J. M. Coetzee

  1. Orquidea says:

    Excelente considerações a respeito desse livrinho…
    Acabei de ler e adicionei no skoob para adquirir e ler logo.
    Valeu!
    Abç e
    boas leituras!!

  2. Pingback: Desafio Literário 2012 « Leitura Escrita

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