A Morte É Legal – Jim Anotsu

Então um dia nós vemos um escritor novo por aí e pensamos: nossa, que livro legal, quero ver o que mais ele é capaz de fazer. Pensa que ele tem referências interessantes e pouco usuais para os colegas de geração e de nicho e, quando tem notícias de um novo romance, fica curiosa em ver o resultado final e o que o cara é capaz de aprontar.

(aqui um parêntesis que ninguém precisa saber: eu vi os primeiros rascunhos do livro, dei pitacos, falei do que gostei e não gostei. Por causa da minha moleza para ler de elementos externos, acabei lendo a versão final assim como todo mundo. Acompanhar o doloroso parto de um livro é bem interessante, discussões sobre esse ou aquele personagem, essa ou aquela trama, se isso funciona direito ou aquilo precisa de reparos… enfim).

A Morte É Legal tem algumas conexões temáticas com Annabel e Sarah como a forte amizade entre irmãos e as dores do crescimento, mas se no livro de estreia tínhamos uma corrida de 100m com Usain Bolt, aqui temos um circuito inteiro de Fórmula 1, com direito a duelo entre Alonso e Vettel.

A trama principal é bem simples, rápida e objetiva: Andrew Webley, um garoto tímido, afogado em romances da literatura de língua inglesa e… sem meias palavras, emo, que está apaixonado por Briony, sua amiga, mas não sabe como se declarar. Um belo dia, seu caminho se cruza com o de Ive, que não é ninguém menos do que a filha da Morte (sim, a própria Ceifadora) e que está no mundo mortal atrás dos três nomes da criatura mais poderosa do universo. Somar 2 com 2 e desenhar um triângulo é óbvio, mas o caminho é muito mais encantador do que pode parecer. Claro, atrás deles estão outras pessoas com motivações diferentes e que não facilitarão em nada a busca…

Qual mistura pode ser mais poderosa do que a cultura pop, a fantasia clássica com fadas, bruxas, mundos mágicos com portas ocultas em lugares impensáveis, construções escondidas pelo glamour e muitas outras possibilidades que uma literatura às vezes focada um pouco demais em anões e elfos consegue esconder?

Uma mistura que ainda inclua o inusitado flow do rap, que combina com a fantasia tão bem como abobrinha com chocolate. Um tempero a mais surpreendente e excelente para aquilo que já vinha bem.

A narrativa tem um tom de tour de force, ainda mais nos momentos em que o autor parece falar através de seu personagem. Talvez seja isso que dê um tom mais autêntico e genuíno aos dilemas dos personagens, principalmente do protagonista, e um tom inesperado ao livro. Certamente há outros que partilham das mesmas questões e torna o personagem e o mundo mais próximos do leitor.

O estilo é aquele que já conhecemos do autor: um mar de referências, da cultura pop a poemas ingleses do século XVII. Às vezes pode beirar o infodump, mas a maioria delas não interfere em nada na apreciação geral do texto. É como um filme para sentar e apreciar. Uma nota também para o elemento nonsense, que permeia os capítulos e extrapola por muito o absurdo da realidade. Os títulos do capítulo estão entre o completo nonsense e o dadaísmo (nem duvido que o autor possa ter sorteado as palavras para criar as frases).

O único ponto contra é o final que, como se o duelista tivesse gasto todas as suas rimas, alguns conflitos que foram construídos durante todo o livro e que mereciam mais atenção se resolvem rápido demais, coisas que eram para ser graves se resolvem em duas linhas de diálogo ou nem tanto. Fica a sensação de que faltaram, no mínimo, mais dois capítulos (que são curtinhos mesmo) para resolver o que precisava ser resolvido a contento.

Mas é uma boa leitura, acima da média dos seus pares de uma fantasia mais jovem e para mais jovens, e que só coloca mais minhocas na cabeça do leitor sobre por onde passará o próximo romance – bem como todos os outros.

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Curioso para um lidinha? Veja aqui: (Livraria Cultura)

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Até a próxima!

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7 Responses to A Morte É Legal – Jim Anotsu

  1. Esse é um livro que está na minha lista de livros a comprar (infelizmente, o diabo da lista cresce em uma progressão muito maior do que diminui). Eu não sei exatamente o que esperar, li um conto do Jim Anotsu na Imaginários 5 e gostei, mas não exatamente achei bom devido a algumas coisas. No entanto, achei que o estilo era bem legal. Eu deveria aproveitar e comprar na Draco com as promoções que eles estão dando, mas o dinheiro esse mês conseguiu fugir bem rápido 😡

    Uma pergunta que talvez seja meio idiota… Mas Jim Anotsu é homem ou mulher? :X

  2. Mary says:

    Eu ri das tags. hahahahaa “emo”.

  3. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

  4. Pingback: Rani e o Sino da Divisão – Jim Anotsu | Leitura Escrita

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