Duplo Fantasia Heroica 3 – Christopher Kastensmidt e Simone Saueressig

É com muita alegria que vejo projetos interessantes frutificarem, tanto em termos de repercussão quanto de continuidade. Quase dois anos atrás, quando ouvi pela primeira vez sobre a iniciativa do Duplo Fantasia Heroica, que consiste em livros de bolso a preços populares trazendo duas histórias curtas de fantasia, com tom aventuresco e (pelo menos até o momento) com a acertada escolha do cenário nacional.

É bem legal saber que o projeto alcança seu terceiro volume e dessa vez com uma novidade: a autora Simone Saueressig, que já há muitos anos milita pela literatura fantástica nacional. A novidade me aguçou ainda mais a curiosidade e reforçou o convite para conhecer esse novo volume.

Bom, vamos às histórias:

 O Desconveniente Casamento de Oludara e Arani – Christopher Kastensmidt

Como também já é tradicional, é no Duplo Fantasia Heroica que acompanhamos as aventuras e desventuras de Gerard e Oludara traduzidas para o português. O cenário criado pelo autor, assim como o carisma dos personagens principais, são os pontos-chave da saga e é difícil não se apegar a eles imediatamente. Desta vez, Oludara apaixonou-se pela índia Arani, conhecida na aventura anterior, e pretende casar-se com ela – o que ele não conta é que uma criatura poderosíssima tem seus motivos para interferir nessa união, então para salvar à própria vida e a de todos os envolvidos, ele e Gerard terão de agir… mas não sem ajudantes inesperados.

Trata-se de uma aventura divertida e solar, digamos assim. Temos batalhas, romance, aventura, humor (Gerard anda se tornando um aventureiro muito turrão depois de ter descoberto que suas aventuras não seriam tão controladas como talvez tenha suposto algum dia – e por ter de ser conivente com atitudes que sua moral cristã não pode permitir!), monstros e personagens carismáticos (não apenas os personagens-título, mas também os antagonistas e secundários). A leitura é uma experiência bem gostosa e dá para imaginar a trama como animação ou quadrinhos, devido à dinâmica que não para um segundo.

A crítica é apenas uma, que incomodou na hora da leitura: não é um conto com a força daquele que inaugura a série. Isso não é um problema per se, mas um ponto incomoda: os personagens pouco descobrem, sempre aparece alguém. Eles se perguntam: “o que é isso?” e alguém de alguma forma responde: “aquilo” sem que eles precisem pensar muito sobre o assunto. Faltou mostrar mais do que contar, alcançar mais do que ganhar a informação na mão.

Mas enfim, gostei bem do texto, mas nem conto porque sou fã declarada da série 🙂 Fiquei imaginando um conto onde aparecesse um preto velho, uma das minhas figuras míticas preferidas (por mais que seja um pouco posterior de quando a história se passa)… Bom, quem sabe? Ainda tem muitos mitos e lugares que podem ser visitados…

O Relato do Herege – Simone Saueressig

Se a história de abertura é um romance solar, alegre e alto-astral, essa é seu oposto diametral. É uma história de terror em primeira pessoa, tratando de uma forma bastante sombria dos mitos indígenas. O herege do título é um degredado, que escapou por pouco da morte na fogueira por bruxaria e que encontra exílio em uma cidade das Missões jesuítas – que não é exatamente o paraíso das terras do sul que alguém algum dia possa ter imaginado…

A angústia do personagem em risco é palpável e temos aqui uma temática que gosto muito na fantasia/terror: a noção de que o monstro não é o demônio ancestral, mas o homem. Que o risco real, além das forças cósmicas, é aquele que um indivíduo pode causar sobre o outro – motivado unicamente pelo poder e egoísmo, aqui travestidos de religião.

Também é um uso bem interessante do mito indígena combinado a um sistema mágico europeu, bem como de um cenário que para mim não é muito explorado. Adorei a experiência de leitura, mesmo sendo bem angustiante em alguns momentos. A conclusão da trama também é bem trabalhada. Até queria falar algumas palavras sobre o final, mas seria estragar a surpresa do eventual leitor, então recomendaria conferirem.

Por fim, a série continua com boas histórias e foi interessante a variação de um dos autores (afinal, coisas novas sempre são bem-vindas). Já estou esperando o 4, 5, 6…

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Até a próxima!

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2 Responses to Duplo Fantasia Heroica 3 – Christopher Kastensmidt e Simone Saueressig

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