Madame Bovary sou eu

Há livros que mexem mais com você do que outros. Que dialogam com sua alma numa conversa ao pé do ouvido, que vão muito além da simples experiência de leitura e se tornam uma jornada de auto-descoberta. Que o autor, atemporal, pareceu te captar, te colocar nas palavras e nas sensações.

No caso, Madame Bovary é meu livro.

Quando o li estava na saída da adolescência, numa fase de experimentação da vida adulta e de novas experiências que a compõem. Estava procurando entender um pouco mais de mim mesma e o livro, parecendo atraído por isso, veio parar em minhas mãos. Ali, numa obra da metade do século XIX passada na França, uma garota às vésperas de seu aniversário de dezenove anos, nos primeiros anos do século XXI, num país e numa cidade que nem sonhavam em existir na época da publicação original, pode se enxergar como em seu diário.

A história, conhecida de todos, é a seguinte: no interior da França, o médico Charles Bovary entende por bem seguir o rumo da vida e se casar. Como noiva, escolhe a jovem Emma, educada em escola de freiras e amante dos livros e romances. Ela se casa pensando na vida glamourosa de esposa de médico, mas o tempo a joga numa tediosa rotina pequeno-burguesa duma cidade do interior. Para tentar fugir do tédio, da decepção e da vida real que em nada se assemelha aos sonhos, Emma encontra o alívio e a perdição no consumismo desenfreado, nos casos extra-conjugais, romances inventados e na imitação de uma vida que não pertence a ela. Lógico que isso não acaba bem.

A frase que dá título à crônica é uma defesa de Gustave Flaubert, o autor, quando levado ao tribunal sob a acusação de que seu romance era imoral e inadequado à sociedade. Quando perguntado quem inspirou a personagem, a resposta icônica: “Madame Bovary sou eu”. Um desiludido com as promessas da Revolução Francesa que se reverteram na manutenção do status quo, talvez. Uma das pessoas apenadas por dizer a verdade indigesta ao invés da glamourização do cotidiano.

Mas Ana descobriu muito de Emma em si ao passar as páginas. Uma sonhadora amante de livros, sim. Uma entediada com a limitada vida interiorana, sim. Uma pessoa presa a um relacionamento com alguém que a empolgou a princípio, mas que depois mostrou-se vibrar numa sintonia oposta: não, isso não (apesar desse aspecto ter tido um apelo especial para alguém que acabava de sair de um relacionamento longo principalmente por diferenças irreconciliáveis acerca das expectativas de vida). Uma pessoa que (mas eu não sabia disso na época) cede ao canto de sereia de don juans locais que querem diversão pagando por ela com promessas vazias, sim.

 Só que o que mais me batia na leitura era: Emma tem alguma escolha? Na época, que escolha uma moça de sua classe social teria senão se casar, ainda mais vinda de uma família falida e com um jovem médico à disposição? E os sonhos e expectativas com a riqueza e com os salões, são tão desmedidos assim? O sonho com a metrópole e com todas as suas possibilidades? E a descoberta que a realidade não seria nada daquilo, mas uma tediosa vida de mulher de médico? Lia, ardendo e desejando: “viva o sonho, saia daí” – mas mesmo na época me era muito claro: COMO sair de uma realidade da qual você não faz parte quando se está presa nela? Ainda mais levando em consideração que várias pessoas falam para que pare de sonhar e se resigne, que lhe tiram seus livros, que tentam apagar o sonho e viver “a vida normal de todo mundo”. Só que isso não faz parte, não satisfaz, não é onde o desejo está.

Sempre tive medo do destino dela. Como disse, sou mesmo sonhadora e idealizadora. Não sou nenhuma senhora idosa e estou longe disso, mas claro que já fui temperada pela vida a esse respeito – sim, sei que ser mocinha romântica de livro/filme não rola como projeto de vida. Mas, ao contrário de Emma (será?) o mundo hoje me permite ter o poder em minhas mãos. De me contentar com a vida (para mim) medíocre ou não. Mas o que ando fazendo com este poder? O que ando fazendo para frequentar os salões e altas rodas – bom, no caso da minha vida, num sentido muito mais figurado do que literal, apesar de não negar o desejo roupas bonitas e grifadas quando vou ao shopping.

Este é um livro assustador em certo aspecto: o de se assistir à implosão de um sonho, levando consigo o sonhador. Preferia mil vezes que no final Emma desse uma banana ao marido, à filha, à cidadezinha e fosse para Paris nem que para terminar como cortesã, mas não é isso o que acontece com as pessoas comuns. Tenho medo de ser sufocada pelos meus sonhos – e de perder a força e coragem necessárias para separar as idealizações do possível e torná-lo palpável. De deixar o mundo que considero medíocre de lado e não ser morta por ele (no simbólico e no literal, apesar de que não consigo deixar de enxergar a morte simbólica como um curto passo para a física).

Já li bastante sobre o livro, claro, participei de estudos literários e debates sobre eles. Já vi as mais diversas opiniões e posições, mas gosto de pensar em Emma como vítima: dos sonhos, de uma sociedade que não era aquela que se adequava a seu gênio, dos costumes, mas principalmente dela mesma. De ser o retrato de uma sociedade de aparências, sim, mas que também oferece promessas que jamais poderão ser cumpridas. Que a faz mulher – e que desgraça ser mulher na maioria das sociedades. Não que hoje, em comparação, não tenhamos melhorado um pouquinho. Um pouquinho.

Talvez algum leitor se pergunte: mas você leu esse livro várias vezes, então. Não. Apreciei cada palavra, vivi cada pedacinho dos cenários belamente descritos, vivenciei cada sombrinha de sentimento narrado em minha primeira leitura, mas esse é um livro que tenho medo de reler. Talvez um dia, num futuro próximo, possa bater no peito, dizer algo como “não sucumbi” e me reencontrar com uma das personagens que mais dialogou comigo em todos os livros lidos.

 Engraçado que, enquanto escrevia esse texto, pensava que a personagem Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo, é uma espécie de reencarnação de Emma Bovary, tanto em essência como pela possibilidade de alguma redenção, no sentido de estar numa sociedade que lhe permite, um pouco, viver o mundo de glamour que deseja (bom, claro que um preço será cobrado, mas aqui ela está disposta a pagar). Não li o livro original de Truman Capote, apenas o filme e a imortalização da personagem por Audrey Hepburn, então não sei se minha opinião mudaria nesse sentido. Bom, saberei quando ler.

***

Até a próxima!

Anúncios

7 Responses to Madame Bovary sou eu

  1. Bruno disse:

    Entendo o que tu quer dizer. Sei bem como é se sentir preso por aquilo que tu sonha, naquilo que tu quer pra ti mesmo, a ponto até de ter medo de arriscar ir atrás disso. Se sentir preso na própria mediocridade, ou talvez no medo dela. Pelo menos tomando consciência desse medo há uma possibilidade de enfrentá-lo, e talvez até vencê-lo.

    Só queria dizer que estou contigo nessa luta, e vou te apoiar em tudo o que for preciso.

  2. “Há livros que mexem mais com você do que outros. Que dialogam com sua alma numa conversa ao pé do ouvido, que vão muito além da simples experiência de leitura e se tornam uma jornada de auto-descoberta. Que o autor, atemporal, pareceu te captar, te colocar nas palavras e nas sensações.”

    O meu é “Servidão Humana”, de Sommerset Maugham. E isso é bem assustador se pensarmos bem.

    • Pq? Conte sua história =P

      • Basta dizer que eu li durante a adolescência. O personagem tinha uma deficiência física, não é o meu caso, mas foi ela quem deu a ele – e mais tarde ele deu graças a isso – um senso de observação em relação ao mundo. Mas o grande ponto do livro… e isso é complicado… é uma vontade de encontrar não exatamente um rumo na vida, mas um sentido concreto da vida nos rumos que escolhemos, na vontade de ter uma vida que seja ao seu cabo, vista em retrospectiva, bela e memorável – em escapar da banalidade e da mediocridade. E como essa busca acaba por te deixar sozinho na multidão, mas ao mesmo tempo você sabe que a opção é algo que não merece ser vivido. É complicado falar. Eu li esse livro muitas vezes na adolescência. Muitas MESMO. Voltava a trechos. Só posso falar da minha relação pessoal com ele. Depois dos vinte e poucos jamais o reli, e não acho que pretenda relê-lo, mas olhando bem, eu tenho uma relação profunda com ele. E mesmo não o relendo há bem mais de uma década, acho que a relação ainda permanece.

  3. Isabela disse:

    Madame Bovary é, de fato, maravilhoso! Também gosto de ver Emma como vítima nessa história, e surpreendi-me ao ver que também fizeste a analogia com Holly Golightly. Já li o livro de Capoto (recomendadíssimo) e não parava de desejar que Emma tivesse a “liberdade” que a bonequinha de luxo tinha para agir como bem quisesse.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: