Cinquenta Tons Mais Escuros – E. L. James

Avisei na resenha anterior: corra desse cara, Ana, que ele é cilada! Óbvio que ela não correu o mais rápido que conseguiu. Mas o mesmo se aplica para mim: sei que esse livro é cilada, mas lá estava eu lendo feito boba e escrevendo essa resenha para relatar a experiência para vocês.

Recapitulando, a série Cinquenta Tons é o sucesso editorial de todos os tempos da última semana. Conta a história de Anastasia Steele, uma moça bobinha, inexperiente e insegura que se envolve com o misterioso, problemático, lindo, tesão, bonito e gostosão (e rico, mui rico) Christian Grey. Nisso, nossa ex-virgem descobriu-se compulsiva por sexo, que é algo que o bonitão pode dar em abundância para ela, e assim segue a vida.

As novidades deste segundo volume são que o casal reata e começa a se conhecer melhor (porque, claro, eles só vão ter um diálogo honesto depois de meses de putaria extrema. Ninguém nem sabe qual o prato preferido do outro, qual matéria gostava mais na escola, essas coisas) (meu namorado teria problemas, acho que não tenho prato preferido. Qual é meu prato preferido? o.Ô). Agora estão num namoro firme e sério, ao contrário da relação de escopo meramente sexual que o sr. Grey pretendia no início. Mas como estava tudo tranquilo demais, agora temos um chefe tarado e uma ex-namorada louca na parada, para agitarem tudo!

Claro que a autora continua escrevendo mal nessa continuação. A deusa da vergonha alheia continua constrangedora, o humor involuntário continua fluindo aos baldes e temos alguns momentos especiais para dividir com os queridos leitores:

“O entardecer nos segue desde Seattle, e o céu está tomado de tons rosa e azul-marinho, perfeitamente entrelaçados de um jeito que só a Mãe Natureza sabe fazer.”

“Droga, ele vai ficar com tanta raiva, e estamos nos dando tão bem. Meu inconsciente finalmente decide dar as caras, e parece o sujeito do quadro O Grito, de Edvard Munch”

 “Eu precisava dele naquele instante. Preciso mais ainda agora. A dor aumentou, e sei que ele pode amenizá-la, acalmar esse grito, esse monstro salivante que tenho dentro de mim, com o monstro dentro dele”.

Muito amor, né? ❤

E o terceiro livro promete muito mais constrangimento: temos um vilão maligno que dá risadas diabólicas! COMO PERDER, ainda mais se cheguei até aqui, me digam???

*

Dessa vez a parte séria não foi compensada pelas risadas. Aliás, o livro me deixou profundamente incomodada pela idealização de um relacionamento tão doentio quanto o dos protagonistas. Como já disse na resenha anterior, não é doentio por causa do sexo. Apesar de idealizado e irreal, o sexo entre os protagonistas é bem normal, mesmo considerando a fome insaciável de ambos. O problema é todo o resto.

Grey não cansa de dizer que Ana é dele, e faz a maior questão de tratá-la como propriedade: ele escolhe as roupas que ela vai usar (deu um guarda-roupa para ela), vigia suas refeições e até mesmo sua ida ao cabeleireiro precisa passar pelo seu crivo, contrata um personal trainer e tudo mais para que sua linda humaninha de estimação faça tudo sob seu controle. Ele não se importa que ela não aceite os presentes, ela é dele e precisa aceitar. Fora os e-mails o dia inteiro, ele tendo um dossiê sobre a vida dela, ligações e todo tipo de controle imaginável, comprar a empresa onde ela trabalha inclusa. Sem contar dele adorar o fato dela ser virgem porque “o que é meu nunca foi tocado pelos outros”.

Ou seja, ela não é uma namorada, é uma propriedade. E as pessoas acham isso romântico? Que ele controle todos os aspectos da vida dela? Por mais que ela se rebele aqui ou acolá, ainda assim ele está no comando de tudo (e ela assim o permite).

Ela resolve colocar uma saia curta? Ele xinga porque ela não pode ficar aí expondo O QUE É DELE pros outros (pois é. Todo o problema é que ela é propriedade dele, né, não um ser autônomo). E depois ela ainda sente culpa. “Aiiiiiin, não devia usar sainha curta, o sinhozinho não gosta!”.

Ela vai pedir para trabalhar sem interferências porque “precisa pagar as contas”. Pois é, porque se não precisasse, fosse uma rica herdeira ou algo do tipo quem se importa com trabalhar, né? Desenvolvimento pessoal, ter o cantinho de intimidade e individualidade dela, nada disso. É tudo para virar um apêndice.

A coisa chega ao cúmulo quando Ana sofre uma tentativa de estupro do chefe tarado malvado. Grey fica revoltado porque é uma violência contra a mulher, porque é um homem usando de sua função de autoridade para abusar de uma subordinada, por ter empatia por seres humanos em geral? Não. Porque MEXERAM COM A PROPRIEDADE DELE. Nojo é pouco pra isso.

Posso deduzir com uma boa porcentagem de acerto que se fossem todos pessoas reais, Grey se daria no direito de matar Ana se ela saísse da linha. Afinal, ela não é a humaninha de estimação dele?

E esse tipo de comportamento é aceitável num relacionamento?

O sr. Grey não é romântico. Ele é doente, isso sim, precisa de tratamento psicológico e psiquiátrico urgente (nos quais ele próprio não acredita, olha que coisa) (pra nem comentar a psicologia freudiana de botequim das submissas dele serem parecidas com a mãe biológica…). A transformação desse tipo de pessoa em ideal romântico me amedronta, sinceramente.

Mocinhas românticas do meu blog (e mocinhos também, por que não): é esse o relacionamento que vocês querem? Todo mundo quer um parceiro que presta atenção e se importa com você, isso é um fato, mas existe uma diferença gigante entre isso e o exercício do controle total sobre sua vida.

E espero mesmo que as leitoras tenham esse teor crítico ao lerem o livro: esse cara não é normal. Esse relacionamento não é saudável. (mas se quiser tirar ideias para o sexo tá de boa). Quando for se relacionar, procure construir um relacionamento em que ambas as partes possam crescer, se desenvolver e terem sua intimidade e individualidade respeitadas.

***

Até a próxima!

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11 Responses to Cinquenta Tons Mais Escuros – E. L. James

  1. As tags são parte da diversão. 50 Tons de Constrangimento e Sexo com Frango são impagáveis. XD

  2. Laura Abreu says:

    Nossa….. vou ter que ler estes livros só para matar a minha curiosidade… porque só leio críticas negativas sobre a série, e não fico por entender como os livros estão entre os mais vendidos!

    Ana Carolina… mais uma vez parabéns pelas resenhas….

  3. Bruno says:

    O Christian Grey é o Overly Attached Boyfriend?

  4. Alex Bastos says:

    Ri lendo sua resenha para a continuação como me divirto com o primeiro livro. (Y)

  5. “Sexo com frango”.

    Nothing to do here. *jetpacks*

  6. Pingback: Cinquenta Tons de Liberdade – E. L. James « Leitura Escrita

  7. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

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