Maus – Art Spiegelman

Poucas coisas foram mais horríveis e inacreditáveis (no pior dos sentidos, de realmente não entender o que levam pessoas a considerar um grupo de outras pessoas um inimigo a ser exterminado) do que o holocausto ocorrido na Segunda Guerra Mundial. Várias histórias foram contadas sobre o extermínio de judeus, sob todos os ângulos possíveis: desde a história de uma menina que tem a adolescência interrompida pela guerra (tanto por não poder usufrui-la quanto por morrer em função dela), como Anne Frank, quanto a de um milionário que arrisca a própria vida para salvar pessoas, como retratado no filme A Lista de Schindler. Na verdade, esse é um tema tão recorrente, especialmente em cinema, que acaba até desgastado, do tipo “mais uma história sobre o holocausto?”.

O próprio autor de Maus se pega fazendo essa pergunta em determinado ponto. Mais uma história? Só que essa é um pouco diferente: pela forma, pela abordagem, pelo metatexto.

O primeiro e mais óbvio: é uma história em quadrinhos, mas onde as pessoas ganham as feições de animais (numa inspiração óbvia de Walt Disney, também revelada ao longo do texto). O traço é cru, mas os animais antropomorfizados ganham um inevitável ar fofinho, que destoa com toda crueldade física e psicológica as quais estão submetidas. Nessa história, os judeus são ratos (“maus” significa “rato” em alemão – o título em português ganha um duplo sentido inevitável e até mesmo curioso e adequado), escolha adequada para pessoas que, pelas circunstâncias, precisam fugir, se esconder em buracos escuros e lutar clandestinamente pelo alimento. Os alemães são gatos, os americanos são cachorros, os poloneses são porcos e por aí afora.

Essa é a história real do pai do autor, Vladek, que não é retratado como uma pessoa boazinha oprimida. Ele é uma pessoa comum, com qualidades e defeitos, acertos e erros, como todas as outras pessoas – e que teria uma vida absolutamente normal se não fosse a guerra. E o traço lúdico e cartunesco torna os horrores sofridos pelos judeus poloneses ainda piores – porcos oprimem ratos (que de vez em quando se fantasiam de porcos para escaparem), mas e se levarmos em consideração que na realidade eram todos pessoas, que a guerra colocou vizinho contra vizinho, irmão contra irmão? Que não se tratava de seres de espécies diferentes, mas de iguais oprimindo iguais?

A Polônia foi um dos países onde o extermínio de judeus foi mais forte e Vladek e sua família veem a vida normal ir se tornando cada vez mais passado distante. De cidadãos normais, passam a proscrito e para a vida de ratos, escondidos para que não possam ser exterminados. Para que possam sobreviver, precisam da boa vontade de pessoas que arriscam suas vidas (e lucram algum por isso) e a situação não possui perspectiva de melhoras, ainda mais quando há boatos de trens que levam judeus para um destino incerto e do qual ninguém escapa…

Todo o sofrimento está lá: ser humilhado por quem ontem lhe dava sorrisos corteses mas hoje está por cima, ver os membros da família desaparecerem a cada dia e angustiar-se pela falta de notícias e certezas, para não falar daqueles cuja morte foi imediata, os horrores da fome e da doença e talvez a pior parte: estar vivo para presenciar tudo isso.

Mas essa é a história de alguém que passou por um dos piores horrores da humanidade para contar a história. É a história de um sobrevivente.

É também a história do filho que tenta conviver com seu pai, um senhor idoso turrão e difícil, e cujo relacionamento nunca foi dos melhores. De um filho que tem de encarar a velhice, as excentricidades e idiossincrasias – e reviver o passado é uma forma de aproximá-los. Do filho que também teve de conviver com o fantasma do horror inenarrável e achar que nada do que faz seria capaz de cumprir as expectativas familiares. De que o tour de force não diz respeito apenas à história de um sobrevivente, mas também de uma reconciliação com seu pai e consigo mesmo.

Talvez seja esse o grande ponto do livro: além da crueza do relato da luta pela vida no meio da guerra e do extermínio, o relacionamento mais íntimo entre as pessoas. Emocionante e tocante, recomendado para todos os leitores, fãs ou não de quadrinhos.

P.S.: Outro quadrinho muito tocante sobre a Segunda Guerra Mundial sob o ângulo da pessoa comum que sobreviveu é o também maravilhoso Gen: Pés Descalços, que é a história de um menino que sobrevive à Hiroshima. Li muitos anos atrás, mas se relesse hoje creio que me emocionaria da mesma forma.

***

Até a próxima!

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6 Responses to Maus – Art Spiegelman

  1. Vale a pena reler Gen. A versão que foi publicada originalmente pela Conrad era uma versão editada pelo autor para fins de difusão no ocidente. Essa que está saindo agora é integral.

    E de resto, Maus é um material obrigatório, de longe.

  2. legal vc ter lido esse livro… li por volta de 2007, qdo o amigo Gus, que hoje publica tiras na Folha Tec, me emprestou. http://www.gusmorais.com/ . realmente, esse foi um dos primeiros graphic novels que li, que marcou demais pra mim!

  3. Gosto muito da temática da 2º guerra. Vou caçar esse para ler. Valeu a dica!

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