Educação sentimental

Não, ao contrário do que o título possa indicar, não se trata de uma resenha do clássico de Flaubert. É a reunião de alguns pensamentos soltos sobre alguns assuntos que perpassam todos os assuntos e a vida geral das pessoas. A busca da satisfação dentro de relacionamentos, claro. Mais especificamente… sexo.

A noção que se vende de relacionamentos e sexo é tremendamente irreal, para homens e mulheres (a abordagem é um pouco diferente). O príncipe encantado, a gostosa tesuda, o relacionamento lindo e livre de problemas com a única alma gêmea… Sinto informar, eles não existem. A potência sexual perfeita: ela também não existe. E somos tão forçados a acreditar em certas coisas que a expectativa acerca de um relacionamento se torna tão irreal e impossível de ser realizada que logo se encaminha a um profundo mar de frustração.

Não vou falar muito sobre a educação sentimental para os homens, já que como não sou homem não tive muito contato (apesar de que vários dos pontos são comuns para ambos os gêneros). A única coisa sobre homens que gostaria de fazer um breve comentário é sobre essa bobagem de friendzone. Então você é simpático com uma mulher e ela tem a obrigação de ter interesse sexual por você? Todos os relacionamentos se resumem a sexo e será o “pagamento” dela pela sua magnânima atenção? Esse raciocínio é muito errado.

Primeiro, nos ensinam a esperar por um príncipe que nos salvará das agruras e nos levará para a felicidade eterna. Por que não podemos ser a fonte da nossa própria felicidade? Nós sermos nossos próprios “príncipes”? (escrevi isso e me lembrei de um anime chamado Shoujo Kakumei Utena, que trata disso e é LINDO LINDO LINDO, recomendo ver). Vendem a metade da laranja – mas não somos metades, somos seres completos. Devemos nos enxergar como seres completos, encontrar a felicidade em nós mesmos e não nos outros – as pessoas que fazem parte da nossa vida a suplementam, mas somos cada um uma laranja inteira. Jogar nos outros a responsabilidade por nossa felicidade é uma forma de não se apossar de si mesmo, de não tomar o que é seu. A felicidade tá na gente, as outras pessoas podem ajudar ou torná-la mais completa, não existe príncipe (ou princesa) encantado redentor.

Mas enfim, nem era sobre isso que iria dizer, estava pensando especificamente em como somos ensinadas sobre sexo, ou sobre expectativas em relação a sexo. Lá estou eu lendo 50 Tons Mais Escuros (é, pois é – e tem muitas coisas lá sobre esse tema que merecem E MUITO comentário, mas deixo para a resenha) e vendo sequências de sexo para lá de irreais, pensando sobre isso. Não que seja só esse livro que traga o que vou falar, mas foi o que me despertou a reflexão.

Primeiro: sexualidade feminina é tabu. Vagina é tabu. Masturbação feminina é xingamento. Prazer feminino então, nem se fala. Sexo ainda é tratado como pecaminoso, errado, sujo – e isso bate na cabeça da gente, conscientemente ou não, que é uma beleza. E o prazer começa na cabeça, lá nas nossas expectativas, medos, desejos, vontades, frustrações, bloqueios… Se as coisas não funcionam aí, não adianta esperar que o corpo vá dar conta do resto. O número de mulheres com problemas e disfunções sexuais por causa de bloqueios é enorme, o que afeta a qualidade de vida, de relacionamento, de várias coisas.

E claro, o óbvio. O prazer é NOSSO. A satisfação é NOSSA. Claro que satisfazer o outro é uma parte importante e excitante do processo, mas a parte principal é o nosso prazer, a nossa satisfação. E precisamos nos apossar disso, daquilo que nos dá prazer, do que é gostoso para nós.

Daí vem o outro lado da moeda, que era o motivo principal de minha reflexão: venderem o sexo (e essa dificuldade do prazer pelo prazer) como a oitava maravilha explosiva do mundo. Milhares de revistas femininas ensinando sobre orgasmos, posições e pimentas “para agradar seu homem” (OPA! Agradar a si mesma nada, né?). Livros e filmes onde é tudo perfeito, nada dói, nada é desconfortável, coisas estranhas não acontecem na hora do sexo, a tentativa de trepada não termina em risadas pela cama depois que algo dá errado… Nada disso. O Cinquenta Tons chega ao cúmulo do exagero: sexo todo dia, toda hora e sempre maravilhoso e cheio de orgasmos. Ninguém brocha, ninguém faz nada que a outra parte não gosta, tudo é lindo e cheio de orgasmos explosivos.

E aí entra a frustração, porque a vida real não é assim. Vem a obrigação de ter orgasmos de acabar com a luz de uma cidade em cada transa (não, isso não vai acontecer) e a frustração porque não é assim que funciona. A obrigação de gozar em todas as vezes, o que também não vai acontecer (e sexo pode ser muito, muito bom, mesmo sem orgasmo – homens, acreditem em mim quando digo, vocês são tão inseguros quanto a isso e não deveriam…). Vem mulheres que olham para essas relações lindas, maravilhosas, perfeitas e assépticas e se frustram porque não existem de verdade.

Enfim, queria que se vendesse mais o meio-termo, a intimidade, a busca do prazer próprio e a noção de que as coisas não são perfeitas. Que em sexo, consensualmente, vale tudo, e que ambas as partes podem se divertir bastante procurando o prazer. E que sexo não é um jogo cujo orgasmo é o objetivo final: é um processo, toda uma cena, e o prazer é um dos elementos. E, claro, um jogo que qualquer uma pode jogar, sem precisar de medo, pudor ou vergonha.

(e um P.S.: se você tiver uma primeira vez melhor do que “mais ou menos”, considere-se uma pessoa de muita sorte, porque a maioria delas é daí pra baixo).

***

Até a próxima e usem sempre camisinha!

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10 Responses to Educação sentimental

  1. Bruno says:

    Bom, acho que a maior parte da literatura popular acaba sendo idealista naquilo que trata. 50 Tons fala sobre sexo, como Crepúsculo falava e idealizava sobre relacionamentos amorosos (e um pouco sobre sexo também, nos seus próprios termos), Harry Potter sobre o crescimento e a passagem da juventude para a vida adulta… E daí por diante. O que incomoda mais sobre o fato de ser sobre sexo é justamente o valor social que ele agregado, o tabu. Isso que acaba fazendo com que a idealização que parece natural quando se fala de outros temas soe tão brochante (sem trocadilho) quando se fala de sexo. Estamos acostumados a tratar o sexo como “a coisa séria, de adulto, verdadeira” – lembra de como dizem que A Guerra dos Tronos é uma “fantasia mais realista,” e um dos argumentos é que é assim porque os personagens fazem sexo? Se algo tem sexo, é porque deve ser pra adulto, e se é pra adulto, não pode ter os idealismos bobos da juventude.

    Enfim, é um buraco bem mais embaixo aí (de novo sem trocadilho) =P Acho o texto muito lúcido e válido, e um ponto que merece uma discussão séria mesmo.

  2. Pingback: Cinquenta Tons Mais Escuros – E. L. James « Leitura Escrita

  3. Olá Ana Carolina,
    acabei de conhecer o seu blog e já o coloquei nos favoritos!

    Me interesso muito sobre essa temática, pois estou escrevendo um livro no qual ela faz parte.
    Li (há muito tempo, quando estava no auge) Crepúsculo para tirar minhas próprias conclusões sobre o livro. E, na minha opinião, o livro é bom neste aspecto: a personagem é adolescente, e o romance que se passa dentro da sua mente é idealizado. Não vejo o romance idealizado (na mente) como algo incutido pelos valores da modernidade. Acho que é natural a idealização dentro da mente, principalmente na mente do recém-apaixonado/a, e quando acontece a prática (sexo, primeiro beijo, a declaração de amor), aí vem a realidade, desilusão… ou não, para os mais afortunados.

    E no final das contas, mesmo depois de cair na realidade e na desilusão tantas vezes, as pessoas voltam ao estágio inicial, aquele amor inocente que se passa dentro da cabeça.

    Não sei se estou certo sobre o que eu disse. Eu, do sexo masculino, estou escrevendo um romance em 1ª com uma protagonista do sexo feminino que vive na maior parte um amor dentro da cabeça. Talvez, na minha tentativa de fazer a minha personagem soar como mulher(adolescente, na verdade), eu tenha exagerado ao colocar esses idealismos nela. Acho que fica ainda mais complexo pelo fato dela ser homossexual, e aí entra também aquela repressão do mundo e pessoal. Mas foi o que consegui.

    Parabéns pelo blog. Acompanhando constantemente agora!

    • Oi, Felipe, obrigada que tenha gostado! Assim, a Bella, como personagem, é bem autêntica, até mesmo pela idade e pela pouca experiência. O problema nem é o que passa pela cabeça da protagonista, mas a repetição de valores que não sejam os melhores. O relacionamento de Crepúsculo tem lá seus problemas, mas nos 50 Tons os problemas ficam ainda mais fortes, a ideia que se elege como ideal é muito pior. Quando uma ideia fica numa cabeça só é uma coisa, mas quando se coloca em forma de livro e se espalha, a coisa pode ficar mais trágica.

  4. Pingback: Frozen: Uma Aventura Congelante – Disney | Leitura Escrita

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