O Rei do Inverno – Bernard Cornwell

Em primeiro, primeiríssimo lugar, tenho de pedir desculpas pelo hiato. Sabem como é, faço o blog sozinha e quando as coisas apertam tenho de parar com tudo. Bom, pelo menos estamos de volta 🙂 E eu tinha avisado pelo twitter e pela página do facebook que estaríamos em recess. Você não segue/não curtiu??? Corrija isso A-GO-RA e clique nos botões aí na coluna do lado!

Mas falando do livro de hoje, não posso dizer que não seja uma pessoa tolerante. Como vocês podem conferir aqui e aqui, minhas experiências anteriores com o Bernard Cornwell (de quem sempre tinha ouvido falar muito bem) não foram exatamente muito proveitosas. Só que sempre ouvia: “leia a saga arturiana dele, é muito boa, você vai gostar!”e isso ficou na minha cabeça. São mesmo, pelo menos no Brasil, os livros mais famosos dele, então resolve dar o benefício da dúvida, aproveitar uma promoção e conferir qual era a do livro (e bom ressaltar que essa tal promoção aconteceu em marco do ano passado e o livro só saiu da estante porque encaixava-se em um dos temas do Desafio Literário, mas detalhes).

Então temos aqui uma versao da história do Rei Artur (que todo mundo conhece, NÉ?). Exatamente por ser uma história universalmente conhecida, com a história da espada na pedra, da Távola Redonda, de personagens como Merlin, Guinevere, Morgana e Lancelot, da busca do Graal, etc etc etc. É uma história que vem sendo recontada, por perspectivas diversas (muito diversas, até mesmo com os arquétipos dela dentro de outras histórias), há 1500 anos, então para um autor se destacar ele deve fazer algo de diferente.

A proposta do Cornwell é trazer “o fato por trás da lenda”, em fazer a história o mais próxima possível de um Artur histórico que tenha vivido na Bretanha do século V. Aqui entra o primeiro grão de sal com o qual deve ser tomada a informação: essa é uma época tão ausente de registros que qualquer “verdade histórica”referente a ela é para lá de relativa. É comum que pesquisas arqueológicas e historiográficas acabem revisando e desmentindo as anteriores e tatear pela falta de registros é andar numa sala escura. Mas enfim, é uma proposta interessante, até mesmo pela “desmedievalização”, digamos assim, do mito, e de uma aproximação maior do que seria a época.

E, novamente, ressaltando e destacando, essa é a versão do autor para o mito. Assim sendo, os personagens poderão não estar na posição mais clássica do mito e isso causar algum estranhamento inicial, mas basta entrar na proposta do autor que a coisa se resolve (algo como “isso é um fanfic então deixa rolar”). Não é a única, nem a mais fiel (isso é impossível) e nem a melhor história arturiana, é apenas a versãodo Cornwell.

O narrador-personagem é Derfel, garoto criado por Merlin em sua comunidade que tenta manter algo do druidismo e cujo sonho é ser guerreiro (e não cavaleiro, ainda não existiam cavaleiros na época) algum dia. Claro que ele conta a história anos depois, após o fim de tudo, dando “a verdadeira versão da história de Artur e não as coisas que andam falando por aí”. O próprio Artur só vai aparecer, em toda sua glória e majestade (é difícil até mesmo para o autor não ser acachapado pela força do mito), lá pelo fim do primeiro terço do livro.

É até coerente que Derfel esteja presente nos principais momentos e possa ver o que ocorre ao seu redor e o que ouve falar e, ao contrário do maior defeito dos livros que já li do autor, ele não é o maior, o mais forte e a trama está completamente a favor dele. As coisas estão bem amarradas – e como já sabemos mais ou menos o que vai acontecer, sabemos previamente que nosso narrador dará um jeito de escapar. Mas mesmo o jeito de escapar  costuma ser interessante e sem forçar muito (exceto quando certo personagem, o melhor disparado do livro, aparece e com ele alguns deus ex machina quase literais).

Os personagens também, apesar do autor não se preocupar em aprofundá-los mais do que o necessário (e que para os fins da trama funciona), apesar de alguns, como o próprio Artur e mesmo Lancelot, ficarem no preto-ou-branco, ao menos nesse primeiro livro. Aliás, pergunta que faço: por que todo autor faz a Guinevere para ser odiada pelo leitor?

Enfim, foi uma boa experiência, pela primeira vez saí feliz da leitura de um livro do autor. Até posso ler os outros dois (o que daria uma perspectiva melhor sobre a condução da trama e como o autor vai resolver certos problemas, apesar de que algumas coisas são previsíveis), só esperar a pilha diminuir um pouco e ver se acho uma ofertinha firmeza e amigável.

Só um P.S. final. Em determinada passagem pergunta-se sobre a infância de Artur e o próprio responde que não teve nada de especial. Só ri e pensei: T. H. White é mesmo só um, né? 😛

***

Até a próxima!

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20 Responses to O Rei do Inverno – Bernard Cornwell

  1. Na boa, T. H. White deveria ser muito mais lido por aqui do que o Brumas de Avalon. Que aqui no Brasil se revelou um tremendo desserviço pra imagem da Saga Arturiana…
    Mas agora que você tirou um pouco da prevenção contra o Cornwell, experimente os livros da série Sharpe. Eu recomendo. 🙂

  2. Jagunço says:

    Ainda estou indignado por você não ter gostado do primeiro da série Crônicas Saxônicas. 😄 – claro que é aquele momento emocional, irracional e besta quando nos deparamos com uma inteligência leitora que não ama o que amamos; parte da carência que mora na anticrítica. Passado isso e lendo aqui, tento pensar que o tipo de foco a que Cornwell se atém fica à caça de um leitor de Conan: aquele gosto por personagens cujos dramas são compensados pela vitória em catars – sempre vingativa e compensadora. É assim com Uthred e com Derfel Cadarn. Mas aqui há mais de humlidade – às vezes irritantemente forjada. Derfel é amável, tem dúvidas e medos e um ar púdico que agrada a muitas de nossas morais. Durante um tempo pensei muito em uma análise perigosamente sexista (e muito frágil) sobre como este é um autor de livros do “universo masculino” – por todas as referências, perspectivas e dilemas do “alphismo” nos livros (que não abordam os dramas da violência contra a mulher, nem dão margem a qualquer protagonismo femino – como em MZB). Mas eu sei, claro, que isso é vago demais, fraco demais e que tem raiz em um psicologismo exagerado.. Faz mais sentido dizer que este é um autor da violência como centro do drama existencial-e-coisa-do-tipo. De qualquer forma, eu aproveito pra perguntar: até agora, quem te parece o leitor ideal do bendito? 🙂

    Abração.

  3. Orquidea says:

    Olá!!!
    Não li ainda, mas tenho todos os livros. Meu filho já leu.
    Leio tudo, todos os gêneros, vou ler sabendo que todos veneram. Do autor li O Condenado adorei!!
    Contrário de vc ele pode fazer tudo com o Arthur dele não to nem ai e a Guinevere, Lanceloti…
    Depois que o Allan Massie acabou c/ a imagem de Arthur que eu tinha, mesmo assim pasme, gostei do livro dele… Tanto é que fiz uma releitura. Tinha umas coisas ali religiosas e o negócio ficou tão nonsense que por final me vi divertindo com a leitura…
    Queria muito saber a sua opinião desse Arthur do Allan, os que leram detestaram acho q eu fui uma das únicas que gostou.
    Esse livro é pesado.

    Abç e boas leituras!

  4. Anna Carolina de Oliveira says:

    Adoro o Bernard Cornwell, acho seu estilo de escrita envolvente e realista, e as cenas de batalha são muito bem escritas, não daquele tipo que de repente vira um caos e você não sabe mais o que está contecendo, mas daquele tipo que você sente o cheiro do sangue da batalha… wow! Acho o fato de ele buscar uma realidade por trás do mito interessante, e na minha opinião costumam ser boas hipóteses, plausíveis.

    Já li quatro livros dele, mas nenhum dos que você resenhou, li a trilogia A busca do Graal e O Tigre de Sharpe, sendo que destes, gostei mais do Sharpe. Entre os meus amigos leitores as opiniões são divergentes… hehehe (1 gosta, 1 é fã ardoroso, 1 respeita mas não tem vontade de ler, 1 detesta romances históricos sanguinolentos, o restante não conhece).
    A trilogia arturiana está na minha lista “tenho que ler”, bem ao lado de A Espada na Pedra, que vive há um bom tempo esperando por mim na prateleira da minha estante.

  5. Esse livro é ótimo! Fico feliz que tenhas gostado. 🙂

  6. Alex Bastos says:

    Eu tenho aqui as séries arturianas do Bernard, do T.H. White e da Marion e de tanta indecisão por qual começar acabei não lendo nenhuma ainda. Alguma dica Ana? ^^

  7. Dan Ramos says:

    Sua herege!

    Heh, brincadeira Ana. 😛

    Acho que é a primeira vez que encontro um escritor onde somos diametralmente opostos na opinião. Sou um grande fã de Cornwell, da narrativa aos personagens. Pesa um pouco o fato de eu adorar história antiga e Idade Média, curtir a ficção com pegada “levemente histórica” (não acreditem em quem disser que a fantasia cornwelliana é profundamente histórica, apesar da pesquisa acurada ele tem muita licença poética no que escreve) e tudo mais.

    Tenho uma única crítica ao Milho Bom: os personagens principais são muito parecidos, o badass que nunca consegue ficar com uma mulher por muito tempo (Derfel é mesmo uma exceção).

    Mas ainda assim seu gosto e opinião tem todo meu respeito.

    Engraçado que o que você chegou a gostar do autor foi a saga Arturiana, a que eu menos gostei, haha 😀

  8. Adriana says:

    Sou apaixonada por Crônicas de Arthur (tudo bem que a unica coisa que eu li antes sobre ele foi aquela pataguada de Brumas de Avalon (só o primeiro livro, claro) que é uma das coisas mais entediantes que já li na vida, mas enfim). Todos os personagens são melhores aqui. O melhor Arthur, a melhor Guinevere e claro o melhor Merlin, realmente o melhor personagem (embora meu preferido seja o calhorda do bispo Samsum hehe).
    Curioso o que vc falou da Guinevere, apesar dela ser uma traidora, desgraçada, (o que ela sempre é em todas as versões, daí o ódio) pelo menos o Cornwell teve o deferencial de torna-la cativante no terceiro livro (pelo menos durante a batalha).
    Enfim, eu amo Defell, no dia que tivermos notícias de uma adaptação pro cinema vai ser o dia mais feliz da minha vida… 🙂

  9. Pingback: Desafio Literário 2012 « Leitura Escrita

  10. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

  11. j.p. says:

    Respondendo sua pergunta
    “Aliás, pergunta que faço: por que todo autor faz a Guinevere para ser odiada pelo leitor?”

    Acho que é porque nossa cultura é muito machista. Se você ler outros os dois livros dessa série (não me lembro em qual deles) existe uma fala discursiva da Minue ao Derfel que define muito bem a Guinevere e que poderia ser “pregado na parede” de sedes de movimentos feministas.

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