Olimpíadas de Londres 2012 – Uma breve reflexão

Sou viciada em olimpíadas, dessas pessoas que param a vida pela oportunidade de acompanhar as modalidades (já até combinei o tempo de recuperação de uma cirurgia com os Jogos para assistir a tudo com mais calma). Aliás, adoro esportes em geral, acompanho várias modalidades com prazer imenso o ano inteiro. Educação Física foi uma ideia até cogitada a sério como curso por algum tempo, mas logo abandonada porque minha prática não é lá grandes coisas (e na vida há paixões e habilidades um pouco maiores).

Mas poucas coisas na vida tem um apelo maior do que o esporte, como a humanidade desde os tempos antigos já reconheceram. Qualquer um que já tenha praticado algum esporte individual sabe o que é o duelo consigo mesmo e a auto-superação, a alegria de forçar o limite e saber que ele é mais extenso do que se imagina. Da mesma forma o esporte coletivo: fazer o seu máximo e conhecer o máximo do outro, fora o sentir-se parte de algo. Isso para nem falar da diversão, coisa que qualquer peladeiro de final de semana poderá afirmar. O esporte tem um papel muito importante na saúde física e mental do indivíduo (óbvio que a grande maioria das pessoas não será atleta de alto rendimento), quando praticado, e esse desafio ao próprio limite, além de provocar certa projeção de quem torce (o torcedor se projeta no time, a vitória do time é a do torcedor, mesmo que em seu sofá e cerveja).

Então chegamos nas Olimpíadas, que além de celebração do esporte ainda traz um aspecto e apelo nacional bem forte (se ele corresponde ou não a uma noção atual de nacionalidade em um mundo de fronteiras fluidas são outros quinhentos). Para muitos atletas e esportes, a consagração máxima, o status de campeão olímpico, o ponto máximo de uma carreira e a coroação de anos de esforço. A dimensão dessa vitória é ainda mais aumentada pelo fato dos Jogos serem o evento de maior audiência televisiva mundial – aqui, você se expõe para o mundo.

Então chegamos ao ponto que nos interessa mais diretamente, o Brasil. Como já disse antes, adoro esportes, mesmo, e costumo torcer pelos brasileiros em competições. Só que não me considero “turista de olimpíada”, desses que passam quatro anos torcendo para time de futebol, gongando os adversários (não tenho nada contra nenhuma das duas coisas) e que tentam transferir a mesma mentalidade para uma realidade completamente diferente. Então nos dividimos entre duas coisas que incomodam e incomodam demais: a obrigação da vitória e a proliferação de desculpas pela derrota e de lugares-comuns por todos os lados.

“O segundo é o primeiro dos últimos”, “se era para não ganhar era melhor não ter nem ido”, “a culpa é do psicológico dos atletas”, “a culpa é da falta de investimento do governo” e os famigerados “amarelões”, para não entrar em quem imprime um complexo de vira-lata que diminui todos os brasileiros em função de um resultado ruim. Ou seja, um discurso cheio de mentiras, falácias e meias-verdades ou, no mínimo, desinformado.

O primeiro ponto é o mais óbvio: ninguém é obrigado a ganhar nada. Se fosse, só se classificariam três atletas e se distribuiria os resultados entre eles, ouro, prata e bronze sem erro. Mais ainda: quando o nível técnico está abaixo dos favoritos, aí que não se tem obrigação nenhuma de vencer mesmo. E o nível técnico dos atletas brasileiros na maioria das categorias não os dá a condição de favoritos.

Claro, aqui temos um grande problema. A mídia no geral, querendo vender os eventos e incentivar um ufanismo acéfalo, cria expectativas onde elas não existem. Transforma em francos favoritos e vencedores quem só foi lá para participar, mesmo. (e convenhamos: ser o décimo do mundo numa modalidade já é estar na frente de MUITA gente). Daí surge a expectativa, vende-se um contingente de medalhistas dourados que… nunca tiveram chance real de sê-lo. Então o público, enganado, espera por uma chuva de medalhas que não virá, porque nunca teve condições de vir em primeiro lugar. Não é como se só o ouro valesse: competir entre os melhores já é um grande feito. Como eu disse, ser o décimo do mundo em algo já é um grande feito, por que não? Por que não podem existir no mundo outras pessoas melhores?

Isso vale para os atletas que estão no topo, no naipe dos favoritos. Por que não pode ter alguém melhor, ou passando por um dia melhor? Ou ter acordado em um dia ruim, daqueles em que nada dá certo? Invalida todo o esforço do atleta até então? E, como não existem santos no mundo, também jogo na costa dos atletas a ladainha das desculpas. O vento, a dor de barriga, a posição dos astros… Não deu, não deu, oras. Teve alguém melhor ou não se treinou direito – e, tirando talvez a confederação e os patrocinadores, eles não devem justificativas a ninguém. E mesmo se devessem, poucos falam as reais: faltou recurso, faltou treino, faltou segurança na hora de decidir. Mas como a pressão de “tem de ganhar tudo” existe…

Agora, quanto aos investimentos no esporte: isoladamente, “falta de investimentos” não é uma resposta válida, tampouco para todos os esportes. A questão é um pouco mais complexa e se divide em três fases:

1) A prática esportiva. Nessas horas as pessoas costumam se esquecer que o esporte de alto rendimento é o pico do iceberg, láááá na pontinha. É um direito de todos os brasileiros o acesso ao esporte e ao lazer. Como eu disse na abertura, o esporte (e a atividade física em geral, como dança, ginástica…) é de extrema importância para a saúde física e mental do indivíduo, ajudando também na socialização e em preencher o tempo de crianças e jovens que poderia ser gasto em atividades prejudiciais. Qualquer pesquisa científica sobre o assunto diz isso, com direito a registros de cidades onde foi implantado um programa de esportes e a utilização dos serviços de saúde diminuiu consideravelmente como consequência. Essa é a função principal do esporte, a saúde e o lazer da população, não uma mina de medalhas.

Mas agora… existe esporte na escola? Aliás, se a escola pública já é um filme de terror, a parte de educação física então é pior ainda. Mesmo na escola particular, a bem da verdade. Há lugares onde as crianças (e jovens, e adultos) possam entrar em contato com esportes? Ricas, pobres? Hoje uma criança com aptidão para ginástica artística pode treinar em qualquer lugar do país? Basquete? Atletismo?

Esse é o principal ponto em que o poder público, em todas as suas esferas (federal, estadual, municipal) deve, sim, atuar. Em criar uma geração de milhões de pessoas ativas, que pratiquem uma atividade física regular e usufruam de seus benefícios.

Dessas milhões de pessoas, algumas terão mais aptidão do que outras para determinadas atividades e poderão querer ir além do esporte amador. Então passamos para a próxima fase.

2) O esporte profissional. Tudo bem, a pessoa teve contato com o esporte, tomou gosto, tem habilidade e quer continuar treinando. Existem centros de treinamento adequados? O candidato a atleta pode se aprimorar, terá condições para isso? Aqui a situação também começa a apertar. Quantos centros de treinamento adequados existem no Brasil? Com equipamentos modernos, com boa manutenção e adequados para o desenvolvimento e não para a lesão?

Vem então a outra questão: o treinamento de alto rendimento exige dedicação integral – o que significa que vai ser difícil para um atleta alcançar o alto rendimento se tiver de trabalhar e treinar. Existe incentivo para isso? O bolsa atleta realmente alcança todos aqueles que deveriam ser alcançados?

De maneira impressionante, a grande maioria dos atletas que tem algum bom desempenho olímpico está aqui. Sem equipamento, sem dinheiro, sem os melhores recursos. Só engrandece o feito daqueles que chegam lá.

3) O alto-rendimento. Aqui, dinheiro não é um problema. Os atletas ganharam alguma notoriedade, atraíram patrocinadores (públicos e particulares) e, depois de décadas de cobrança, choveu algum na horta deles. A Confederação gasta fortunas em centros de treinamento europeus, técnicos, o dinheiro está lá. Mas por que ainda assim os resultados não são os esperados? Esse dinheiro está indo para o lugar certo, está sendo gasto de forma eficiente? A condição dos técnicos nacionais está eficiente? Os treinamentos são os mais modernos possíveis, utiliza-se a ciência ao nosso favor? Me chamou bastante a atenção este ano as entrevistas dos nadadores brasileiros. TODOS, sem exceção, reclamaram do cansaço. (patrocínio = 45 milhões de reais). Isso não pode ser sinal de treinamento inadequado? De que todos os recursos dispostos não levaram ao melhor resultado possível? Existe atualização dentro do esporte, workshops, troca de conhecimentos com países onde determinadas modalidades são melhor desenvolvidas? Existe investimento ou o gasto de dinheiro?

Para nem entrar na questão política, onde confederações viram feudos e não existe renovação de poder/ideias. É possível uma geração de superatletas com todos esses pontos contra?

Sobre o psicológico, claro que o emocional conta em qualquer atividade. Mas esse texto brilhante demonstra muito melhor do que eu poderia sobre o quanto essa também é uma desculpa para desviar o foco de onde realmente importa.

Enfim, mais um ciclo olímpico se fecha, com o retumbante número de 17 medalhas. Num país tão grande, com a quinta população do mundo, é muito pouco. Quem sabe com as coisas diferentes esse número não aumente ao longo dos anos, se não para chegar ao ponto de EUA ou China, ao menos para torná-lo mais representativo de nossa população?

E mais: por que não nos lembrarmos dos atletas durante todo esse intervalo de quatro anos (afinal, interesse do público = patrocinadores, patrocinadores = dinheiro, dinheiro = desenvolvimento, desenvolvimento = interesse de mais gente participar do esporte, e por aí vai), além de cairmos de paraquedas na hora de fazer cobranças estapafúrdias e destemperadas?

***

Até a próxima!

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5 Responses to Olimpíadas de Londres 2012 – Uma breve reflexão

  1. Raphael disse:

    Quando me perguntam sobre o assunto, sempre me lembro de dois casos: um, notório e mais recente, da seleção feminina de futebol americano, convocada para a copa do mundo em 2013, e que para conseguir ir, esta tendo de literalmente pedir dinheiro na rua; o outro caso aconteceu pertinho de mim, uma ex-aluna, convocada para a copa do mundo de Kung Fu, na China, em 2010. Ela teve de se virar em mil empréstimos para conseguir ir – mesmo fazendo a ponte com a prefeitura pra ela, nao conseguimos nada pela Fundesporte, com a justificativa de que \”era ano de eleição\” (como se isso impedisse dúzias de obras eleitoreiras que foram inauguradas nos meses seguintes). Resultado: ela foi com o proprio esforço, e emplacou uma medalha de bronze. A terceira melhor representante de Kung Fu wushu do mundo é do Brasil – perdemos só pra uma alemã e a chinesa. Quando ela voltou, surpresa, conseguiu uma bolsa atleta (cujo valor sinceramente chega a ser vergonhoso). Resultado final: ela parou de treinar e hoje se dedica à advocacia. Legal nao?

  2. Brunoruno disse:

    To comentando só pra tu não vir me cobrar a leitura depois. 😛 Porque, sinceramente, não tenho muito o que adicionar não. Acho que tu levantou todos os pontos principais, em especial a falta de consideração em relação a muitos atletas para quem só estar lá já é uma vitória e ainda assim acabam taxados de perdedores no fim.

  3. Jean Corrêa disse:

    Textos como esse fazem a gente perceber o quanto a gente entrega o comando do nosso pensamento à mídia e acaba engolindo e acreditando em ideia que são apenas uma fachada interessante da grande realidade.

    Esse post me causou uma mistura de vontade de reagir e de sensação de impotência. Já percebemos que, em quase todas as áreas, depender e esperar atitudes do governo é aceitar a derrota e morrer sem ver as coisas acontecendo. Sei que grande parte da solução está nas peludas mãos do governo, mas e eu como cidadão, o que eu posso fazer pra mudar pelo menos um pouco esse quadro apresentado?

    Sei da importância do esporte, sofro com a falta de opções pra me envolver com ele e sofro também com as poucas medalhas brasileiras, claro. Fico pensando em como os meus futuros filhos vão conseguir acessar o esporte. O horizonte não me dá boas notícias. O que fazer?

    Jean Corrêa
    http://prosadecrente.blogspot.com.br

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