Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

Algumas coisas além do aspecto puramente literário me motivaram a resenhar este livro, talvez de modo um pouco diferente da informalidade habitual do blog, mas vamos por partes. O primeiro é que finalmente me deparo com um livro começado em O, o que me ajuda em certas questões de simetria. O segundo é que um autor bate o recorde anteriormente mantido por Haruki Murakami aqui no blog: o de mais resenhas em menos tempo de obras diferentes.

Este é o livro mais recente do autor, lançado em 2009, e que foge (ao menos em parte) da temática familiar de Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos. Talvez haja uma lacuna em sua evolução narrativa correspondida por Cinzas do Norte, seu terceiro romance que não tive ainda a oportunidade de ler, pois entre Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado há um verdadeiro salto e a diferença é palpável. Enquanto o primeiro se vale de uma narrativa linear (temporalmente e tematicamente), o segundo se utiliza de idas e vindas pelo tempo e pelo assunto para simular a estrutura do “causo” narrado por um ancião perdido em suas memórias, que transitam entre o sonho e a realidade.

Arminto Cordovil, filho de Amando e neto de Edílio, é um jovem no auge do ciclo da borracha numa localidade ribeirinha do Amazonas, perto demais dos índios e de sua promessa de felicidade na cidade submersa onde a dor deste mundo não existe. Herdeiro de uma fortuna (mas que também está exposta às interpéries), ele não parece disposto a sair da condição de passividade e tudo destrói entre amores infelizes, ilusões e o puro esbanjamento.

Até aí, nada muito diferente de milhares de histórias que vemos todos os dias (algumas ficcionais, outras não). O que chamou muito minha atenção foi o aspecto psicológico (oras, pelo estilo do autor já dá para esperar um romance psicológico), mais especificamente o aspecto psicanalítico.

Há algo de muito edipiano no protagonista, pois ao que parece todo o esforço que impetra durante a trama é no sentido de matar o pai (simbolicamente). A figura paterna de explorador e empreendedor, amado e temido por todos ao seu redor, construtor de um palácio é o maior dos pesos e fantasmas. Inclusive, o esforço de Arminto para desagradar ao pai, mesmo após a morte deste, ou as tentativas de criar histórias e justificativas que o desabonem (mesmo as falhas de caráter são pintadas com cores muito mais fortes do que as circunstâncias exigem) e maculem sua imagem grandiosa. Se para confrontar essa imagem de perfeição paterna precisará nunca se emponderar da própria vida e não construir nada (intelectualmente, afetivamente ou financeiramente), pouco importa.

Sua relação com Florita ainda realça esse aspecto de Édipo: a ama de leite e babá que substituiu o papel de sua mãe, morta no parto, com o passar da adolescência também assume o papel de sua amante. Fica um pouco dúbio (principalmente para mim que pouco conheço da cultura indígena) qual é o limiar entre brincadeira e erotismo em seus estímulos – sem esquecer que sua posição para a família é pouco hierarquicamente superior àquela que uma escrava teria – ou até que ponto ao narrar sua história Arminto está falando a verdade (que é outro ponto bem interessante na narrativa, onde várias passagens parecem exageros, mentiras ou terem acontecido apenas na mente do narrador). É sua interação com Florita que abre o livro, tanto na lenda quanto na expulsão de casa e mudança para Manaus, no que o autor descreve como punição mas parece muito mais uma tentativa de “consertar” o garoto enquanto é possível (e que falha miseravelmente), ele é enviado para Manaus.

O relacionamento com a misteriosa Dinaura segue pela mesma linha: não se sabe o que é verdade, exagero e principalmente ilusão no relato do narrador (inclusive, por mais de um momento me perguntei até mesmo se Dinaura era real, quanto mais o pretenso relacionamento entre ambos – se tudo, ou grande parte, não passava de uma fantasia de sua cabeça). Parece uma quimera, um pretexto para que não se preocupe com os problemas urgentes iludido pela paixão e por uma musa o mais distante possível do real. A paixão é um elemento autodestrutivo, ainda mais quando unida às fantasias e utilizada como pretexto para não encarar o que é sério.

O advogado Esteliano, amigo de muitos anos da família, exerce a função de “grilo falante”, uma espécie de superego para lembrar ao protagonista o que deve ser feito, mas nunca é ouvido. Seu papel na narrativa assemelha-se à figura do mentor, mas que jamais é ouvido e cujos conselhos são desconsiderados veementemente e frequentemente.

Enfim, acaba sendo um romance sobre emponderamento, ou sobre a falta deste na vida que acaba levando à autodestruição inevitável. Toda figura de autoridade que passa pela vida de Arminto parece ser imediatamente contestada e eliminada, o que é óbvio com seu pai, mas se repete em outras situações. Parece que para o protagonista aceitar a condição de adulto (e que inclui responsabilidades como importar-se com o bem-estar de Florita, que ele ignora completamente e deixa à própria sorte) é uma tarefa impossível, negada em todas as oportunidades que lhe aparecem. Portanto, o castigo final: nunca ter sido o senhor da própria vida (a menos que se entenda “vida” como um estado de total passividade e hedonismo vazio) e ver todo seu status quo ser perdido ao ponto da sobrevivência depender da boa-vontade de estranhos.

Não achei que o posicionamento histórico deste livro fosse um pouco além de fornecer um cenário, mas também é interessante pensar que órfãos do Eldorado são todos os da região que, assim como Amanto, construíram fortunas de uma geração, a ser perdida na geração seguinte e retornar a uma situação miserável alterada apenas por este ou aquele turista, mas que difere do estado de natureza fornecido pelos indígenas. Resta sonhar com a cidade submersa onde todos são felizes.

***

Até a próxima!

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One Response to Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

  1. Bruno says:

    Imagino que tenha sido uma leitura bem forte. Sei como é se envolver e identificar com os dilemas do personagem assim. Ainda to pra ler Dois Irmãos e entrar no universo do autor, no entanto…

    Mas boa resenha.

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