Cinquenta Tons de Cinza – E. L. James

Minha curiosidade literária me coloca em roubadas de vez em quando. Aliás, se forem pegar a lista de resenhas do site, dá pra ver algumas dúzias dessas roubadas, com resultados diversos. Quando comecei a ouvir falar de Cinquenta Tons de Cinza, pensei algo como: “corra, Bino, é uma cilada!”. Só que daí a febre foi crescendo, as pessoas foram falando mais, fui tendo mais informações e o bichinho da curiosidade começou a me picar. Ui.

Pensei que estivesse embarcando em mais um roubada, mas não: o livro é UMA DELÍCIA. Só que por motivos muito, muito errados (e nem tou falando da parte erótica, afinal, o repórter gostosinho tem lá sua razão).

Para quem não sabe ainda sobre o que se trata esse novo fenômeno editorial, é a história de Anastasia Steele, estudante, 21 anos, virgem, insegura e de baixa autoestima, que, às vésperas de sua formatura conhece o bonitão, gostosão e ricaço Christian Grey. Surge uma tensãozinha recíproca que evolui para romance, mas o sr. Grey é um camarada esquisito, desses que exigem que as pretendentes assinem um termo de confidencialidade antes de se entregarem aos seus encantos. Só que, ao contrário do que o leitor possa suspeitar, não se trata de uma ereção de 5cm – mas uma predileção por sexo sujo. E outras feridas emocionais que conheceremos, juntos de nossa inocente protagonista, que descobre ter uma periquita em chamas.

O livro é kitsch até a medula e um poço de humor involuntário. Sério, é o antídoto perfeito contra qualquer mau humor. A narrativa é ruim, o livro é mal escrito mesmo e a autora parece não estar nem aí, pelo contrário, é a lei do lulz. E pelo lulz, não dá para largar o livro até o final.

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The Eye of the World – Robert Jordan (série Wheel of Time)

Tem espaço no mundo (e nas estantes) para todo tipo de história. O que é legal para mim pode não ser para você e vice-e-versa, ou mesmo o que é legal para mim no humor de hoje pode não ser amanhã. Posso querer para hoje algo mais denso e cheio de significados, enquanto amanhã posso querer uma comédia bem leve. Posso querer um terror de arrepiar e amanhã um romance que estoure meu índice glicêmico. Às vezes quero apenas a segurança de saber exatamente o que vou encontrar na leitura.

Então, não vejo mal nenhum em um livro épico, com um dualismo maniqueísta sem maiores questionamentos, o protagonista passando pela jornada do herói sendo que dá para marcar em uma cartela de bingo os elementos ou passos da jornada, personagens rasos que só estão ali para cumprir papéis pré-determinados sem maior preocupação em desenvolvimento, vilões megalômanos e todas essas coisas. Na verdade tem épocas em que quero esse tipo de leitura, que quando bem feita é bem divertida (ainda mais para quem tem gosto por uma boa high fantasy).

Então, fui atrás de um clássico do gênero. A série Wheel of the Time é uma das mais famosas e mais queridas do gênero high fantasy, com vários e apaixonados fãs, fóruns de discussão, vários produtos derivados como jogos eletrônicos e rpg’s… enfim. Todo um universo de fãs não pode estar errado em apontar apelo e carisma na série, então era um livro que valia ser lido nem que para conhecer do que se tratava.

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A Outra Volta do Parafuso – Henry James

Um dos maiores apelos do terror, além do medo do desconhecido, é quando a ameaça desconhecida poderia acontecer com qualquer um, inclusive com o leitor em seu sossego. Muito além do terror gráfico de monstros, demônios ou ameaças cósmicas está aquele um pouco mais próximo: a loucura, a perseguição, o crime.

Esta também é a premissa mais básica de uma das mais clássicas escolas do terror (aquela vitoriana, do fim do século XIX e início do XX, que também diz muito acerca do positivismo vigente e do advento da ciência sobre o obscurantismo): qual o pior terror, as assombrações ou as alucinações que ocorrem apenas na mente do assombrado? O sobrenatural é real ou é apenas imaginação?

A trama, já que o livro é de 1898, é bem conhecida: uma jovem preceptora vai trabalhar numa mansão erma (e mansões ermas e sombrias tem tudo a ver com terror, também) contratada para cuidar de dois órfãos, com a condição de em momento algum aborrecer o tio e responsável legal deles com qualquer problema, mas ela começa a ver os fantasmas de sua antecessora e seu amante e conclui que as crianças estão em perigo e precisa salvá-las. Lógico que apenas ela vê os fantasmas e ameaças e toda a trama se constrói sobre as visões.

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Olimpíadas de Londres 2012 – Uma breve reflexão

Sou viciada em olimpíadas, dessas pessoas que param a vida pela oportunidade de acompanhar as modalidades (já até combinei o tempo de recuperação de uma cirurgia com os Jogos para assistir a tudo com mais calma). Aliás, adoro esportes em geral, acompanho várias modalidades com prazer imenso o ano inteiro. Educação Física foi uma ideia até cogitada a sério como curso por algum tempo, mas logo abandonada porque minha prática não é lá grandes coisas (e na vida há paixões e habilidades um pouco maiores).

Mas poucas coisas na vida tem um apelo maior do que o esporte, como a humanidade desde os tempos antigos já reconheceram. Qualquer um que já tenha praticado algum esporte individual sabe o que é o duelo consigo mesmo e a auto-superação, a alegria de forçar o limite e saber que ele é mais extenso do que se imagina. Da mesma forma o esporte coletivo: fazer o seu máximo e conhecer o máximo do outro, fora o sentir-se parte de algo. Isso para nem falar da diversão, coisa que qualquer peladeiro de final de semana poderá afirmar. O esporte tem um papel muito importante na saúde física e mental do indivíduo (óbvio que a grande maioria das pessoas não será atleta de alto rendimento), quando praticado, e esse desafio ao próprio limite, além de provocar certa projeção de quem torce (o torcedor se projeta no time, a vitória do time é a do torcedor, mesmo que em seu sofá e cerveja).

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Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum

Algumas coisas além do aspecto puramente literário me motivaram a resenhar este livro, talvez de modo um pouco diferente da informalidade habitual do blog, mas vamos por partes. O primeiro é que finalmente me deparo com um livro começado em O, o que me ajuda em certas questões de simetria. O segundo é que um autor bate o recorde anteriormente mantido por Haruki Murakami aqui no blog: o de mais resenhas em menos tempo de obras diferentes.

Este é o livro mais recente do autor, lançado em 2009, e que foge (ao menos em parte) da temática familiar de Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos. Talvez haja uma lacuna em sua evolução narrativa correspondida por Cinzas do Norte, seu terceiro romance que não tive ainda a oportunidade de ler, pois entre Dois Irmãos e Órfãos do Eldorado há um verdadeiro salto e a diferença é palpável. Enquanto o primeiro se vale de uma narrativa linear (temporalmente e tematicamente), o segundo se utiliza de idas e vindas pelo tempo e pelo assunto para simular a estrutura do “causo” narrado por um ancião perdido em suas memórias, que transitam entre o sonho e a realidade.

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