Dois Irmãos – Milton Hatoum

A rivalidade entre irmãos, uma das coisas mais comuns nas famílias na vida real, é um tema literário desde sempre, poderia dizer que desde Caim e Abel. Quando se trata da rivalidade entre gêmeos então, poderia dizer que desde Esaú e Jacó (os bíblicos e o livro machadiano), passando pelos clássicos embates entre a gêmea boa e a má de novelas.

Mas essa não é a história de um “gêmeo bom” e um “gêmeo mau”, até mesmo porque essa dicotomia não existe na vida real, e essa é uma história do cotidiano. Trata-se dos gêmeos Yaqub e Omar, que nunca se deram bem, e que estendem essa rivalidade, com consequências catastróficas, por toda a vida.

Estamos na Manaus do início do século XX, pouco depois do apogeu do ciclo da borracha, responsável por atrair pessoas de todo o mundo para a capital do Amazonas – inclusos os ascendentes dos gêmeos, que vieram do Líbano. É um período de efervescência e riqueza para talvez uma das cidades mais isoladas do Brasil por seus fatores geográficos e um passeio por suas características: prédios, ruas, o desabrochar de uma elite econômica muito rica e a proximidade com a floresta logo ali.

Essa é uma dessas tramas de família que se passam dentro de casa, onde os conflitos derivam de uma ordem familiar complexa e muito particular. Para os vizinhos, pelo menos até quando a situação ainda estava sob controle e evitava burburinhos, tratava-se apenas de uma família normal como tantas outras, mas viam apenas a superfície clara e límpida de um oceano de turbulências. Até mesmo o narrador é um desses segredos de quatro paredes: um bastardo, filho da empregada (coisa tão natural no Brasil com resquícios de colonialismo) criado pela casa mas que não sabe e nem nunca soube quem é seu pai.

Omar, o gêmeo que nasceu por último, sempre foi doentinho enquanto bebê, o que gerou cuidados e mimos, assim como sua desresponsabilização absoluta por tudo, por toda a vida, e cimentou as divergências com Yaqub. Por uma delas, que terminou numa briga sangrenta, Yaqub foi enviado para a casa de parentes no Líbano e jamais foi capaz de perdoar a família por isso. A história inicia-se justamente com a volta do segundo e em sua necessidade de se isolar da família tão doentia, contrastado com Omar, infantilizado pela mãe e cujas falhas de caráter e postura sempre foram abafados por ela.

Os anos se passam e a tragédia familiar, o conflito que está lá mas que ninguém se atreve a encarar de frente (as poucas e raríssimas tentativas apenas o tangenciam) apenas cresce e é alimentado dia após dia, com consequências trágicas para a vida de todos os envolvidos. Até mesmo o viés mais psicológico da trama é explorado e permite interpretações: é o que de forma muito factível acontece quando a superproteção passa dos limites e aliena a pessoa de sua vida adulta, quando traumas e questões emocionais e familiares nunca são enfrentados, quando uma pessoa de gênio forte, na melhor das intenções acaba por destruir a vida de toda uma família.

Mas claro, tudo isso é o que vai além dos sorrisos, da casa encerada e da prataria polida dos dias de festa…

***

Até a próxima!

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6 Responses to Dois Irmãos – Milton Hatoum

  1. Erika says:

    Este é um dos meus livros prediletos! Bela resenha, foi muito bom relembrar um pouco das sensações provocadas pela leitura de Dois Irmãos. 🙂

  2. Li uma entrevista com o escritor Jonathan Franzen elegiava o Milton Hatoum. Se não me engano, mencionou o livro em questão. Desde então, fiquei com muita vontade de lê-lo. Bjs!

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  4. Pingback: Desafio Literário 2012 « Leitura Escrita

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