A Lista Negra – Jennifer Brown

Não sei se o pessoal mais novo que frequenta o blog se lembra do impacto do massacre de Columbine, ocorrido nos EUA em abril de 1999. Dois amigos armados até os dentes abriram fogo contra os colegas de turma em seu colégio, matando vários deles e ferindo outros tantos, para por fim se suicidarem. Foi uma situação terrível e a pergunta subsequente e inevitável: por quê?

Alguns poucos anos depois e experiências traumáticas no colegial, um belo dia percebi que sabia, lá no fundinho da minha consciência, exatamente o porquê deles terem tomado tal atitude. O ódio que o oprimido na ambiente escolar sente, como sua resistência vai sendo minada pouco a pouco, como a rejeição e a depressão andam de mãos dadas. E mais: como os adultos se omitem, em qualquer caso, como aquele que deveria tomar uma providência não a toma. Se você é mais pirado/influenciável, em uma época difícil e numa cultura armamentista (ver o maravilhoso documentário Tiros em Columbine, por Michael Moore, para maiores detalhes sobre isso)

(ÓBVIO que sou incapaz de matar uma mosca e o longo caminho que vai da empatia com um criminoso, de cogitar um crime e efetivamente praticá-lo depende muito da sanidade mental dos envolvidos e das interferências externas/caráter de cada um).

Tudo isso para introduzir a temática do livro de hoje: o bullying, a rejeição social e as consequências de se lidar com uma situação que sai de controle.

Valerie Leftman (a simbologia dos nomes dos personagens é jogada na cara do leitor mesmo: temos uma bullie grandona chamada Brute, o melhor amigo de Nick se chama Jeremy, o próprio Nick se chama Nick Levil…) precisa retomar sua vida após uma tragédia: seu namorado, Nick, no fim do semestre letivo passado (no comecinho de maio, um paralelo bem evidente com Columbine assim como vários outros ocorridos ao longo do livro), abriu fogo contra seus colegas, matando vários e ferindo outros tantos, inclusive ela própria, antes de suicidar-se. Mas se esses eventos já não tivessem sido traumáticos o suficiente, ainda há um plus: toda a ideia do massacre pareceu surgir de uma brincadeira (de muito mau gosto, note-se) do casal: a Lista Negra, onde colocavam os nomes das pessoas da escola e de fora dela que os irritavam e a quem supostamente matariam se tivessem a oportunidade.

Só que, óbvio, ela sobreviveu a um crime chocante e terrível do qual participou, voluntariamente ou não, e o livro conta a história do “day after”: ela precisa encarar os próprios pais, que a culpam pela tragédia, os sobreviventes, a quem foi desnudado seu ódio tão particular (com direito às consequências lógicas como amigos virando as costas e a simpatia de quem ela jamais imaginaria) e principalmente a si mesma e seus fantasmas interiores.

Uma das coisas mais interessante do livro é abordar um tema pesado como esse de forma bem crua: a trama deixa bem claro que não há mocinhos e vilões, que todos são vítimas e algozes ao mesmo tempo. Da mesma forma que Valerie e Nick eram rejeitados, rejeitavam e não faziam a menor força para se integrarem, assim como os bullies os humilhavam (“era só uma brincadeira”… fica a dica de que NUNCA é só uma brincadeira, não pra quem é a piada) mas a execução não deveria ser seu castigo final. É a distância do outro, em todas as suas dimensões, e na destrutividade interna e que acabou se tornando externa, a aceitação do outro que é uma via de mão dupla.

E, claro, perdoar-se pelas próprias falhas vai ser o mais difícil para a protagonista (como o é para qualquer um que por um trauma ou não acaba por desarranjar-se mentalmente) – e ela não é perfeita e nem coitadinha, que é também outro ponto forte do livro: vai sofrer justiça e injustiça, mas também não agirá certo sempre. Como dito, ela é vítima, sim, mas isso não a impede de ser algoz algumas vezes, mesmo durante sua recuperação.

Também não há perda de tempo em tentar justificar o injustificável – apenas jogam-se elementos para o que pode ter tornado o ambiente propício para a tragédia, como a escola que se omite perante o bullying e finge que tudo vai maravilhosamente bem após a tragédia (o problema do bullying nunca é com eles, imagina, são só brincadeiras inocentes entre as crianças – mas o silêncio dos adultos mata, muito mais fácil vilanizar o atirador depois do que prevenir que ele algum dia aja) e a família desestruturada que vive de um jogo de aparências e que não vê os primeiros sinais de depressão, isolamento social e tendências suicidas que poderiam ter tratamento (e os capítulos onde o pai de Valerie a culpa por sua infelicidade pessoal são particularmente amargos). Mas não se aponta em momento algum culpados, porque essa caça às bruxas é impossível de ser realizada.

Mas se é para ter uma crítica ao livro, fica no trabalho da professora de pintura (achei a personagem meio destoante para o tipo de história e além disso pela maneira que foi apresentada poderia ter tido um impacto maior na vida da protagonista e acabou por não ter) e aos parágrafos finais, apressados tanto em termos de narrativa quanto de lógica (por mais que não pudessem obrigar Valerie a continuar o tratamento, ela jamais receberia alta psiquiátrica depois de tão pouco tempo e ainda tão machucada).

Enfim, é um livro bem recomendado para se entender o bullying – e o perdão, e o pós-trauma – por uma visão do adolescente que passa por aquilo e de como a visão idílica de crianças e jovens felizes na escola pode na realidade esconder uma verdade muito mais sombria sobre a qual é mais fácil para os adultos se omitirem.

***

Ficou curioso? Que tal levar o livro? (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

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8 Responses to A Lista Negra – Jennifer Brown

  1. Mary says:

    Também achei que seria algo bem lição de moral. Numa dessas leio esse livro. Mas que dava vontade de matar, dava. =P

  2. Orquidea says:

    Olá!!
    Parabéns, pelo post valeu a dica… Gosto de assuntos relacionados a psicologia, antropologia, sociologia, por isso, certamente lerei esse livro.
    Um livro que não tem nada a ver com esse, mas têm o.O
    “Precisamos Falar Sobre Kevin” assisti ao filme tb, mas não ficou bom não, o livro é terrível no bom sentido (rsrs).
    Quando terminei fiquei suspensa no ar, Lionel Shrive tocou fundo na gente c/ esse livro…
    Abç e boas leituras

  3. Orquidea says:

    Ana,
    Sei que nós que amamos ler temos muitos livros na fila, sabe aquela frase: “Nunca vou parar de comprar livros, nunca vou ler todos os livros que tenho para ler, nunca terei dinheiro, mas sempre terei livros”, (rsrs) não é assim?
    Mas, Kevin, sabe o que dizem por ai livros p/ ler antes de morrer =D
    Quando acabei de ler fiquei com uma sensação estranha, senti amargura, dor, tristeza, doçura,ternura lá no fundo.
    Boas leituras!!

  4. Pingback: “A lista negra” é destaque no blog “Leitura Escrita” | Grupo Editorial Autêntica

  5. Gostei do livro.É o que acontence, não é? Valeu a dica.

  6. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

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