Sagas 3: Martelo das Bruxas – Vários Autores

Já fazia tempo que queria conferir o trabalho da editora gaúcha Argonautas (é tão legal ver a variedade crescente de temas, locais e pessoas que a literatura fantástica nacional proporciona!). Eles possuem um projeto interessante chamado Sagas, que são antologias temáticas com uma pegada mais pulp (como a capa sugere) de bons autores convidados e tamanho reduzido, o que influencia diretamente em seu preço. Até agora foram lançados dois volumes, mas o terceiro e mais recente me chamou a atenção pela temática: como o título já sugere de imediato, trata-se de uma versão fantástica da inquisição.

Como você, meu bem-informado leitor, bem sabe, a perseguição à bruxaria (não necessariamente sob a Inquisição) está muito relacionada a uma religião, agora dominante, que desejava destruir os últimos vestígios de paganismo havidos na Europa medieval e que aliou-se a uma perseguição ao feminino e suas artes (como o ciclo dos nascimentos, tradicionalmente “assunto das mulheres”, e a cura pelas ervas). Foi uma época especialmente difícil para ser mulher (como se houvesse época fácil, mas essa se destaca), principalmente porque qualquer uma poderia ser acusada de bruxaria por qualquer motivo e os processos eram bastante precários – para quem se interessa em saber a injustiça destes julgamentos ajudou a prática jurídica a evoluir, mas enfim.

Esta é uma versão fantástica da caça às bruxas e cada um dos autores escolhidos trouxe sua versão particular do tema, em locais diferentes e apresentando personagens também bem diversos. Não é um tema leve, então os contos também não são leves. Vamos agora a uma palavrinha sobre cada um (como são só cinco fica fácil):

Cada História Tem… – Christopher Kastensmidt: para quem está acostumado com as histórias de tom aventuresco da série A Bandeira do Elefante e da Arara vai perceber toda a mudança de tom neste conto: como o título revela, é a oposição de dos personagens em lados contrários – uma sacerdotisa pagã e um padre inquisitor, tendo por pano de fundo o Recife colonial. Interessante a alternância entre pontos de vista, apesar de ambos os personagens terem mais em comum do que estariam dispostos a admitir. Também é difícil não assumir um lado enquanto se lê e torcer até o fim, que obviamente será dramático.

O Quão Forte Pode Um Gigante Gritar – Ana Cristina Rodrigues: Um conto com uma pegada bem diferente dos companheiros de antologia, mostrando um pedaço da vida e destino de uma criatura mitológica celta, o Fomori, em um mundo que se torna hostil para os Antigos. O Fomori e toda história que ele sugere possuir são fantásticos – e o choque com a inquisição acaba sendo tão grande que sua participação na história não consegue ter o mesmo peso do background mágico. Com trocadilho nada acidental, é um conto centrado em um protagonista gigante.

 Encruzilhada – Douglas MCT: Trata-se de um par de protagonistas bem peculiar ao se tratar de um tema tradicionalmente pesado: a visão de uma garotinha sobre a bruxaria e o que ela precisa fazer para sobreviver às perseguições em um mundo cheio de simbolismo. Duas coisas me incomodaram no conto: a linguagem agressiva ao feminino (ando muito sensível com o peso delas, por mais que estejam dentro de contexto) e o desfecho um bocadinho confuso.

 A Justiça Deste Mundo – Ana Lúcia Merege: Aqui, no auge da Inquisição na Inglaterra, temos um dilema moral interessante: e se as coisas não são o que parecem ser e o preconceito preestabelecido obscurece a visão da única pessoa que poderia ajudar em algo? É um desses contos angustiantes em que o leitor sabe onde as coisas chegarão, mas não o protagonista, que precisa pagar para ver. Um ótimo thriller psicológico.

 Missa Negra – Duda Falcão: Esse aqui é um conto com a figura ameaçadora da bruxaria como trazida pela encíclica que dá o título da antologia. Em um estilo inspirado por Lovecraft e Poe (e também pela música do Black Sabbath homônima), a bruxaria está mais viva do que nunca no Brasil contemporâneo. Para ser sincera, achei o conto um pouquinho fraco, faltou tempero para deixá-lo menos convencional, mas é um conto redondinho ainda assim.

 Enfim, é uma antologia com o saldo final bastante positivo, recomendada para quem gosta de bruxaria. Fico curiosa pelos outros volumes da série e pelas próximas publicações da editora!

 *

Ficou curioso? Confira o livro! (Livraria Cultura)

 *

 Até a próxima!

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6 Responses to Sagas 3: Martelo das Bruxas – Vários Autores

  1. anamerege says:

    Obrigada pela leitura atenta e pela apreciação, Ana. Esse conto exigiu muita pesquisa e um pouco de “sangue-frio” na hora de escrever, mas fiquei feliz com o resultado. Que bom que os leitores também! 🙂

  2. Estou um pouco em falta com obras recentes da literatura brasileira. Acho que irei por esta antologia em minha wishlist =)
    Bem legal a resenha, por sinal. Acho importante falar de cada conto em separado, do contrário não da pra ver realmente como é o livro.

    • Também prefiro assim! Só fica difícil em coletâneas de muitos contos e/ou contos curtos.

      • Quando tem muitos contos deve ser bem cansativo… agora quando são contos curtos deve ser difícil pra caramba de sintetizar a ideia deles sem parecer que ficou com preguiça de ler todos xD
        To tentando começar a escrever resenhas, acho que por enquanto passarei longe de escrever sobre antologias por causa dessas coisas 😡

      • Acho até legal fazer pelo lado do feedback que se dá ao escritor (em especial os nacionais), mas acho muito difícil fazer resenha de conto curto. Procura depois na lista de resenhas a da antologia Extraneus e veja…

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