O Rei Mago – Lev Grossman

Não gosto muito de fazer resenhas de livros seguintes de séries, primeiro porque é impossível evitar a comparação com o livro anterior, segundo porque não tem como evitar spoilers. Ou mesmo não tenho muito a dizer depois do primeiro livro porque o(s) seguinte(s) não agrega(m) muito. Mas de vez em quando, ainda mais se gostei muito do livro ou se há muito o que ser dito (bom, uma coisa não deixa de pressupor a outra, né), por que não fazer?

Um ponto importante antes de começarmos a resenha propriamente dita: este é um caso no qual o livro é realmente uma continuação do anterior. A trama de Os Magos (recomendo bastante) terminou naquele livro, apesar do universo ter deixado brechas para ser expandido. A trama deste novo livro é bem outra, ainda que com os mesmos personagens e cenário. Novamente, temos um começo, meio e fim, ainda que já se tenha uma convivência anterior com cenário e personagens.

A partir de aqui, spoilers do primeiro livro, então fiquem atentos!

Após Quentin e amigos terem se tornado os reis de Fillory no livro anterior, a vida começou a ficar meio tediosa. Caçadas controladas, a vida da corte, todos os benefícios que a realeza pode dar, mas pouca aventura. Então, procurando algo o que fazer meio na unha, o protagonista acaba mesmo esbarrando em uma aventura perigosa e que coloca o destino de todo o universo em jogo. Dramático, mas a referência a outros livros de fantasia não se desgasta, muito pelo contrário: não há escolhido ou profecia, simplesmente coisas que aconteceram, alguém descobriu e tem o poder de consertar. A busca o levará novamente ao nosso mundo e colocará personagens interessantes em seu caminho, como um dragão ancestral e novos e antigos amigos e as consequências irão muito além daquilo que ele poderia esperar – e nem todas serão agradáveis.

Em paralelo, corre a história de Julia, a amiga de infância de Quentin que descobriu a magia sem passar por Brakebills. Sua jornada de depressão, descoberta e auto-destruição mostra uma realidade bem diferente do sonho no qual Quentin esteve enquanto estudava na faculdade mágica. É uma outra face tanto da magia quanto do crescer e particularmente, tão forte e real quanto o testemunho sobre as dores do crescimento que o autor narra no primeiro livro, aqui bem mais intensamente. A magia no livro serve como metáfora para o próprio ser adulto e suas responsabilidades, ou mesmo o “a mais”que se espera de um bom aluno ou de alguém com potencial, mas que a depressão, a dúvida e a falta de apoio podem tornar tudo uma grande tragédia.

Neste testemunho da Julia, a melhor aluna da classe que não vai para a faculdade apesar de ser o esperado para ela e cai de cabeça no mundo de horrores da depressão, em busca de uma resposta para uma pergunta que ela nem mesmo sabe verbalizar, a sensação de ter falhado ou não ser capaz de atingir o que se deseja crescente e pulsante. E, claro, o isolamento familiar causado por isso, da sociedade, e o contato com um mundo que talvez possa ajudá-la, mas o preço para isso não será avisado e sairá caro demais. É a dor de não corresponder, de sentir que algo importante não pode ser seu, e que a última luz de esperança pode trazer a total aniquilação – mas também a conclusão de que a solução para depressão e insegurança não precisa estar necessariamente ligada aos remédios ou ao óbvio, mas principalmente em encontrar este algo que não se sabe o que é.

Assim como o primeiro livro, é um texto muito cheio de vida – no sentido do autor ter colocado sua vida e experiências pessoais no papel, confessional é o mínimo que se pode dizer. Ao mesmo tempo em que Quentin mais erra do que acerta, principalmente em sua justificativa em ˜ser o herói” (e isso é particularmente curioso ao se notar com o diálogo no sentido do herói – não se trata do cara fodão badass, mas daquele que sacrifica a si mesmo pelo outro, coisa que Quentin não vê) e a difuculdade em olhar para fora de si mesmo e de seu umbigo. Ao mesmo tempo, sob o ângulo de Julia, o quanto sua vida pode se fragmentar e entrar em espiral decadente e tudo levar para o pior.

Talvez o principal do livro seja isso: aliar a trama fantástica bem interessante (e que dialoga com os clássicos do gênero e sair dos clichês) e também um retrato para ser identificado daquela que é a fase mais difícil – a de misturar depressão  mundo real, e as consequências disso para tentar crescer e se tornar um adulto (e não, não acho o termo pejorativo, conheço pessoas sem dúvida adultas e que não perderam sonhos e o maravilhamento com o mundo ao redor, e pessoas que não são adultas mas que não possuem estas capacidades).

***

Até a próxima!

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5 Responses to O Rei Mago – Lev Grossman

  1. Bruno says:

    Às vezes eu fico pensando em um comentário pra fazer, mas nem sempre tem muito o que dizer quando a resenha já disse tudo. O primeiro Os Magos foi um livro que me marcou bastante, uma leitura bastante intensa, então é claro que eu tava bem curioso pra ver o que foi feito nessa continuação. E gostei bastante do que li. Recomendo muito os dois livros, muito embora talvez seja preciso um tanto de problemas pessoais bem particulares pra entender o que eles têm de tão especial…

  2. Gabriel Tartaro says:

    Alguém sabe se haverá mais um livro da saga ?

  3. Pingback: Retrospectiva 2012 « Leitura Escrita

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