As Boas Mulheres da China – Xinran

Confesso que li esse livro um pouco desavisada. No seguinte sentido: esperava que fossem histórias de mulheres chinesas com finais felizes, mas não são. Trata da vida dura de mulheres comuns, de diversas classes sociais, oprimidas por duas forças diversas: a sociedade chinesa, por tradição machista, que relega as mulheres ao segundo plano, e também à Revolução, à implementação de um regime comunista ditatorial e opressor, onde além da perseguição e punição intelectual, há também a física, a retirada de toda e qualquer dignidade possível.

Não existem finais felizes em As Boas Mulheres da China. O livro é um relato jornalístico de uma apresentadora de rádio, de um programa bem popular, que resolve responder a uma pergunta simples: “como vivem as mulheres na China?”. A partir dessa pergunta, começa a desvelar um mundo de tragédias pessoais e coletivas.

São mães que escolhem uma vida de indigência e abandono para ficarem ao lado dos filhos ou que os perderam em tragédias das quais poderiam ter sido salvos, homossexuais que não podem assumir sua condição, jovens universitárias que não possuem referências para mudar a condição de ser mulher na sociedade (e que se prostituem por bens materiais), amores que o Partido não permitiu acontecerem e seu contrário, casamentos organizados pelo Partido e que estão fadados à infelicidade, a opressão sofrida por ser considerado, verdadeiramente ou não, “opositor” e por isso um cidadão perigoso, e como isso destruiu vidas de todas as formas em que isso é possível.

Esse é um desses livros em que cada página carrega uma tristeza profunda, nem tanto por este ou aquele fato guardarem identificação com minha vivência, mas por serem fatos reais (ainda que um ou outro possam ter sido romanceados), sofridos, dolorosos. Há todos os tipos de violência, como estupros (difíceis de se ler), surras, morte, alienação dos parentes e do modo de vida, o ostracismo social e a extirpação de cada pequeno pedaço de sua dignidade.

Também é a história da opressão da ditadura de um Partido, que alheará todos os seus “opositores” de sua condição humana para que não apresente “riscos” ao poder instituído. Se homens estão abaixo da linha da humanidade, então qualquer crueldade está permitida a mulheres e crianças. É o reino do medo, onde qualquer comentário pode ser mal-interpretado e servir de base para a vingança de algum desafeto. É uma época onde liberdade e individualidade deixam de existir.

Por fim, cabe ao leitor decidir se Xinran conseguiu fazer um bom retrato das mulheres da China, e daquilo que há de universal e local em suas tragédias. Da linha tênue que separa o particular daquilo que envolve toda a humanidade.

***

Até a próxima!

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4 Responses to As Boas Mulheres da China – Xinran

  1. Júlia says:

    Histórias tristes, mas que fazem a gente questionar o papel da mulher em diferentes culturas…

  2. Sim, escritos assim caem como uma punhalada em nós. Mas servem para nos fazer ponderar as realidades históricas e sociais que nos soam inéditas, estranhas…

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