Lendo em um idioma estrangeiro

…ou Comentando o Comentário do Leitor #3.

 Aqui, o leitor Marcos faz a seguinte colocação:

Ei, acho que seria legal um post sobre ler livros em ingles? Como e quando vc comecou, se os livros que costuma ler tem um vocabulario especifico, dicas pra quem quer comecar a ler em ingles (pq se a gente for esperar tudo sair em portugues, vai deixar de ler muita coisa), etc”.

Infelizmente, para quem lê ficção fantástica, essa é uma verdade. Pouca coisa sai aqui (a situação até está melhorando ultimamente, mas ainda estamos longe do ideal) e vários clássicos ficaram para trás sem nunca ganharem uma tradução, principalmente nas épocas de vacas magras nacionais. Ou até ganharam, mas a edição se esgotou e hoje em dia é muito difícil, senão impossível, encontrá-la em português.

Outro ponto que não dá para deixar de mencionar é o preço dos livros. Os pockets em inglês ficaram mais acessíveis, hoje em dia são encontrados em qualquer livraria média ou grande (e alguns lugares, como a Livraria Cultura, são o verdadeiro paraíso para quem procura pockets em inglês) e algumas vezes custam a metade ou até mesmo 1/3 ou ¼ da edição nacional. Assim, o fator bolso acaba pesando.

O jeito então é aprender a ler em uma língua estrangeira e para isso temos algumas dicas:

1) Aprenda uma língua estrangeira

Isso mesmo. Você não vai ler em inglês (ou francês, ou espanhol) se não conhece o idioma, se desconhece as estruturas e regras gramaticais básicas e o vocabulário mais básico ainda. Temos duas soluções para isso, que são complementares entre si.

Frequente um curso de idiomas. Vai ser bom não apenas para ler ficção, mas para seu currículo em geral. Para simplesmente pegar prática de leitura, não é necessário ir muito além do fim do ciclo básico, mas o conhecimento é necessário. Inclusive, recomendo curso de idiomas até para quem é autodidata, justamente para o conhecimento das regras formais, o que faz falta ainda mais num uso profissional da língua.

“Ah, mas curso de idiomas é caro…”. Em termos. Hoje em dia temos várias opções no mercado, de todos os preços, em todos os horários e todas as condições. E se mesmo assim ainda estiver caro, existem opções de cursos online gratuitos, que já auxiliam bastante o aprendizado.

Aprenda um idioma estrangeiro de maneira autodidata. Só tenho duas palavras para esse tópico: videogames e seriados. São jeitos divertidos de aprender outro idioma, especialmente o inglês, afinal você verá o uso aplicado da língua (e pelo menos no videogame vai precisar saber mesmo para desvendar como ir para a próxima fase ou o que fazer, nos jogos mais complexos). Claro, novamente, recomendo uma noçãozinha das mais básicas de gramática para que você saiba por onde começar, mas se você, caro leitor, gosta de jogos e de séries, a coisa acaba fluindo automaticamente.

 A faculdade pode ajudar. Alguns cursos oferecem uma disciplina de leitura instrumental do idioma estrangeiro (inglês, francês, espanhol, alemão… ao seu gosto e de acordo com a disponibilidade local. Fiz francês instrumental, foi meu primeiro contato e noção do idioma e deu para pegar bastante). Você não vai aprender gramática, a falar a língua, a compreender a língua: vai simplesmente aprender a ler em outro idioma, com os aspectos gramaticais mais básicos aplicados ao texto. Como primeiro contato ou mesmo para quebrar qualquer barreira, é recomendado.

 2) Pratique.

Isso vale para tudo na vida. Pratique a leitura em língua estrangeira, a prática costuma levar à perfeição (ou ao mais próximo dela quanto possível).

 Quais devem ser os primeiros textos a serem lidos? Matérias de jornais ou revistas online na internet (são mais curtos), algum conto ou outro mais curto, livros infantis (os mais básicos mesmo, no começo, para crianças em começo de alfabetização), dos textos curtos para os longos.

Pense em como você aprendeu a ler em português. Ninguém dá Machado de Assis para uma turma na alfabetização, né? Começamos dos textos mais simples e com o tempo e a prática vamos para os mais elaborados. Em outros idiomas, é a mesma coisa.

Dá medo ler o primeiro livro em inglês. Dá mesmo. Ele provavelmente também não vai descer muito fácil, mas temos de começar por algum ponto. Talvez a leitura do primeiro saia truncada, você gaste mais tempo do que gastaria com o equivalente em português, mas vença-o. Depois, comece o segundo. A experiência deve ser mais fácil. Depois, o terceiro – mais fácil ainda. O importante é praticar e não perder a paciência.

 3) Vocabulário?

O vocabulário está intimamente ligado com a prática. Depois de ler bastante, jogar bastante jogos, ver bastante seriados, a tendência é que o vocabulário aumente. E não é fazer uma tabela de equivalências, como “apple – maçã” e por aí afora, mas entender o que essas palavras significam. Não adianta nada decorar o que cada palavra significa, tem de ver a aplicação dela na prática para que o texto flua. Aliás, não sou professora de idiomas (e se tiver algum no recinto até poderá adicionar comentários na caixa abaixo), mas o ideal mesmo seria não traduzir o texto mentalmente, mas simplesmente ler e deixar que as imagens e a compreensão delas se formem naturalmente, como ao ler um texto da língua materna.

Dicionário? Ter um bom dicionário à mão é ótimo, principalmente no começo, para tirar dúvidas, mas não deixe a leitura ficar truncada por ele (do tipo, toda hora parar para checar algum termo). Siga a leitura, a maioria dos significados se resolve pelo contexto. Outra dica que acho bem legal é a de checar a palavra no Google Imagens e extrair o significado das fotos que aparecerem (por exemplo, você quer saber o que é apple, então joga a expressão no Google Imagens e vê aquela infinidade de maçãs. Assim o significado fica muito mais internalizado).

*

Bom, ficam aí as dicas mais básicas. Não sou professora de idiomas, como já disse, mas acho que esse já é um bom começo para quem quer ler numa língua estrangeira.

***

Até a próxima!

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19 Responses to Lendo em um idioma estrangeiro

  1. anamerege says:

    Ana, e as traduções ainda têm outro problema: nem sempre são boas. Muitas são feitas por gente inexperiente e/ou a toque de caixa, com isso tornando difícil a leitura, principalmente se o autor usa construções um pouco mais elaboradas.

    Quanto ao que disse, meu primeiro livro no original foi “O Senhor dos Anéis”, lido aos 16 anos (ou seja, 27 anos atrás!!!) com a ajuda de um dicionário e do meu inglês da escola. Motivo: a edição em 3 vol., pocket, custava um terço do preço da que a Martins Fontes comercializava na época. Com a diferença comprei um livro de épicos medievais e fiquei conhecendo também o Beowulf. 🙂

  2. Uma recomendação extra: RPGs. Você precisa desvendar aquilo para entender regras, atributos, vantagens e desvantagens. Vai acabar usando na prática.

  3. E tem as webcomics, que são um jeito bem legal de ficar fluente em diálogos e pegar vocabulário. Tem a ajuda extra de que você tem está vendo o texto e tem o apoio do desenho pra pegar o contexto. E o melhor é que são 0800. /o/
    Os sites que oferecem mais variedade são o DrunkDuck e o Snafu (pelo menos UMA webcomic deles vai interessar você), mas as possibilidades são quase ilimitadas. (Em homenagem ao post de hoje, o link do meu nome é do Bram & Vlad em inglês. /o/)

  4. Marcos Panontin says:

    Bacana o post, Ana. Seriados e filmes são ótimos pra treinar. Depois de já conhecer razoavelmente o idioma, comecei a assistir com legendas em inglês, o que ajudou bastante. Mas literatura ainda é difícil pra mim. Eu tento ler em inglês o tipo de livro que leio em português, só que não dou conta.

    Gostei bastante da idéia de ler contos, pq um romance às vezes desanima só em imaginar o fôlego necessário.

  5. Bruno says:

    É importante escolher bem por onde começar também. Uns livros de fantasia mais simples, às vezes até infanto-juvenis, costumam ter linguagem mais simples, e é bom pra pegar o ritmo. Não dá pra querer começar de cara com um Joyce, né… =P

    E não subestimem seriados, jogos e afins. =P Conheço muita gente que aprendeu de verdade assim. O mais importante de tudo é não parar de praticar, independente do nível, pra desenvolver vocabulário e manter o cérebro afiado – dez anos estudando podem desaparecer rapidinho se tu fica só alguns meses sem ver uma palavra na língua escolhida…

  6. everlastingmorning says:

    O post ficou muito útil para quem está começando! =)
    Eu já leio fluentemente en inglês, mas ainda lembro das minha engatinhadas sofridas por séries de TV e video games, letras de músicas, etc. Até fanfics! Sempre estava praticando, até porque naquela época pouca coisa que me interessava estava disponível em português, então era se virar ou se virar mesmo. rs E não adianta ficar só em aulas de cursos ou professores particulares, é realmente necessário ir atrás de materiais extras se alguém quer aprender uma língua. O começo é difícil, mas vale a pena! =)
    Aliás, tenho uma dica: ler um ebook ou livro “de carne e osso” ao mesmo tempo em que se ouve o audiobook do mesmo. É muito bom para se praticar a leitura, a compreenção auditiva, aprender como se pronuncia algumas palavras mais difíceis e se acostumar com a cadência da língua, tudo ao mesmo tempo! Mas pra isso já é necessário ter nível pelo menos intermediário e que pelo menos você consiga entender um texto de forma geral.

    Mudando de assunto, você é escritora também, não é Ana? Tenho curiosidade quanto à pesquisa necessária (ou não) para se escrever uma história, seja qual for o formato. Você pesquisa muito antes de chegar a escrever um texto? Ou escreve pelo menos o rascunho primeiro, para incrementar depois? Já li que alguns escritores leem livros muito específicos sobre alguns assuntos, e que passam até meses pesquisando, apenas com a ideia básica da história na cabeça.

    • Ahahahaha, ler e ouvir um texto ao mesmo tempo é demais para minha DDA, sério, mas se vc não tem esse tipo de problema apoio demais!

      E vou responder a outra pergunta num post avulso, pode ser? 😀

  7. Achei o post bem didático e incentivador, ler em outra língua pela primeira vez dá um trabalho, uma “suadeira”, mas a sensação de terminar o livro é super recompensadora, do tipo “mission accomplished” =)

    PS: Ainda vou ler a trilogia Millennium em sueco, só pelo lulz……hahahahahaha

  8. Michael Coulter says:

    Boa noite!
    Sou professor de inglês e apoio realmente a leitura dos originais, não apenas por todos os motivos citados mas pelo simples fato que, ao escrever uma obra, o autor interage com a língua alvo, cria uma relação íntima entre idioma e narração. Toda obra deveria ser lida no original.
    Achei muito pertinente todas as dicas, principalmente em relação ao dicionário. Porque, sejamos francos, quantos de nós leem um livro – em português, mesmo – com um dicionário ao lado? Eu nunca fui procurar o significado de Lufa-lufa, trouxa, comensais e etc. Devemos fazer o mesmo que fazemos em português: desenvolver a nossa estratégia que nos permite entender uma palavra dentro de um contexto. Mas é óbvio que vale aquela olhadinha quando a palavra se mostra de suma importância para o texto.
    Por fim: editoras como a Disal têm livros que indicam qual o nível necessário para lê-lo (iniciantes, básico, etc). Vale a pena iniciar por esses!

  9. Fran Witezak says:

    Já li três livros em inglês e nunca fiz curso. Ler o primeiro, que era infanto-juvenil, me pareceu tão complicado no início…

    O segundo, embora fosse um romance, li com muito mais facilidade. O terceiro, uma biografia em inglês britânico, li em uma tarde e sem pegar o dicionário uma só vez.

    Estou contando isso para ser mais uma testemunha daquilo que foi dito no post, sobre praticar. Mudei o sistema operacional do celular para inglês, leio artigos em tal idioma na internet… E assim, aos poucos, vou incrementando o vocabulário.

    E deixo como dica extra começar com autores britânicos. O inglês falado na Europa e na Oceania não é tão coloquial quanto o falado nas Américas.

  10. O post já é antigo, mas eu queria comentar que gostei muito das suas dicas. Sempre escuto que ler em inglês dá muito trabalho, e de pessoas que teriam nível para ler, se quisessem. Mas acho que o principal é o interesse em ler em outro idioma. Eu comecei a ler em inglês na época que participava do fandom de Harry Potter, então eu lia fanfics de HP em inglês. O bom disso era que as fanfics não eram escritas com uma linguagem tão complexa quanto um livro, e muitas tinham menos descrições também, então era fácil ler muita coisa em menos tempo. Só depois que comecei a ler livros mesmo em inglês ou ver filmes sem legenda.

    • Muito obrigada! O post é antigo mas é atemporal 🙂 Também acho, o fator determinante é o interesse, a vontade de ir atrás e não se deixar vencer pelas primeiras dificuldades, o resto depois se ajeita. Recebo muitas mensagens de “ah, mas é difícil ler inglês e tal!”. Tudo é difícil numa primeira vez, mas a persistência costuma trazer bons frutos.

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