O Psicopata Americano – Bret Easton Ellis

Este é um livro… difícil de se começar a falar. Um livro difícil de se ler, também, por vários motivos (o primeiro e mais óbvio deles é a estilística, o autor tem obsessão – e por tabela o narrador, mas exploraremos isso mais tarde – de dar os mínimos detalhes sobre roupas, ruas, casas, marcas, menus… absolutamente tudo, o segundo é que a falta de propriamente uma narrativa na trama acaba por tornar o livro grande demais e meio enfadonho – de acordo com meus cálculos li uns quatro ou cinco livros em concomitante com este, quando não aguentava mais – e o terceiro é que na medida em que a trama avança, a violência se torna cada vez mais explícita e exagerada). Mas, pelo amor ao desafio, vamos lá.

A psicopatia, em resumo, é um transtorno psiquiátrico que representa a falta de empatia pelas outras pessoas ao seu redor (e que leva a frieza, insensibilidade, manipulação, egocentrismo…). Como toda doença, existem gradações, claro, e só uma minoria dos psicopatas se tornam assassinos seriais. Curioso que essa falta de sentimentos, segundo pesquisas, faz com que psicopatas sejam pessoas extremamente bem-sucedidas em suas profissões, já que não tem escrúpulos para subir na carreira…

É irônico então que o narrador-protagonista, Patrick Bateman, seja um yuppie, ou seja, um jovem que conseguiu fortuna rápida trabalhando com o mercado financeiro, fenômeno ocorrido nos EUA da década de 1980. Este livro também é uma crítica ao estilo de vida yuppie: são pessoas esnobes, que dão valor exagerado para aparências e marcas, extremamente racistas, classistas, homofóbicas e machistas. É um mundo de aparências e completamente vazios – as conversas de Bateman com seus colegas e conhecidos são fúteis e vazias, no qual ninguém aparenta ter sentimentos ou ambições maiores do que gastar ao máximo com roupas e em restaurantes caros e procurar o melhor traficante de drogas para terminar a noite.

Bateman, rico, entediado e viciado, resolve então para relaxar matar as pessoas que o irritam, com requintes de crueldade. Seus alvos preferidos são excluídos sociais em geral e principalmente mulheres, que para ele estão abaixo da categoria de coisas e que são vítimas das maiores torturas, principalmente sexuais. A violência vai ficando tão explícita, cruel e gratuita que em determinado ponto peguei tal asco do livro que não quis ler mais. Foi muita força de vontade ter chegado até o final, eu como mulher me senti agredida pela misoginia e pelas torturas de cunho obviamente sexual do personagem. Não foi fácil de ler, tampouco de digerir, se é que a digestão da ultraviolência é possível. No resto do tempo, ele tem uma vida normal trabalhando, passando boa parte do tempo em restaurantes caros e na balada e sofrendo de um imenso tédio e sintomas de ansiedade.

Quanto à parte narrativa, não há uma trama: é simplesmente um recorte na vida do protagonista, alguns relatos sobre o que aconteceu com ele e o que ele fez em alguns dias. Não há linearidade temporal, também – alguns fatos até ocorreram mesmo antes de outros, mas outros parecem jogados em qualquer ponto da trama sem muita coerência com o antes e o depois. O livro também parece dividido em três segmentos: na primeira parte, só a rotina social do protagonista e seus colegas: passeios, marcas, academia, trabalho, uma interação ou outra com a amante sempre dopada em drogas ou com a namorada simplesmente insuportável. Na segunda acontece o primeiro crime e as interações sociais normais se intercalam com os assassinatos e na terceira tudo assume uma violência muito maior, assim como o estado de confusão mental de Patrick parece cada vez mais grave.

Aliás, essa confusão mental (e várias pistas que são colocadas nos capítulos, ou mesmo situações completamente surreais) dão uma interpretação interessante: a de que os assassinatos ocorreram só dentro da cabeça do protagonista, que na verdade ele não matou ninguém, ou se matou não foi exatamente da forma como se lembra/está dizendo. Ao que parece, sua própria mente entra em colapso, e a fronteira entre fantasia e realidade fica cada vez mais tênue. E o fim, onde Patrick se declara tão vazio e entediado quanto no início do livro. Não há punição ou mesmo descoberta dos atos – na verdade, ninguém, nem mesmo seu advogado, se importa.

Por fim, é um retrato sobre o vazio da geração yuppie, sobre o quanto a moda e a aparência camuflam a vida de jovens acumuladores de dinheiro, mas que não se importam nem com o mundo e nem com as pessoas ao seu redor. Ainda, cujos preconceitos contra as pessoas que os cercam, de outras classes sociais, a desumanização sob a qual essas pessoas são vistas, se reflete nos modos do psicopata, que elimina quem “o incomoda” – mendigos, taxistas, entregadores de comida, prostitutas… Uma sociedade onde não existem laços reais entre as pessoas – ninguém se conhece além do nível mais superficial e mesmo o símbolo máximo da individualização, o nome, não parece fazer tanta diferença assim, não mais do que a marca do terno ou dos sapatos.

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Curiosidade para ler? (Livraria Cultura)

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Até a próxima!

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8 Responses to O Psicopata Americano – Bret Easton Ellis

  1. Esse livro por incrível que pareça vale a pena ser lido. Ele é desconfortável, sim, mas é um verdadeiro documento sobre o *que* foram os anos 80 nos Estados Unidos. Recomendo também o Abaixo de Zero do mesmo autor. Esse não segue pela violência gráfica, mas é uma leitura extremamente deprimente – e é essa a ideia.

  2. Gente, achei interessante. Eu sou impressionável e evito tais leituras, mas me senti tentada.

  3. Achei o livro fabuloso e uma critica mordaz aos valores dos yuppies dos anos 80 e de agora: dinheiro, marcas, sinais exteriores de sucesso, desprezo pelos pobres…

  4. Allana says:

    Vi o filme (e não li o livro, hahaha!), mas fiquei com impressões semelhantes, no tocante à trama e às coisas acontecerem na imaginação do personagem. Acho que tem mais um livro entrando na fila pra ser lido, haha! xD

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