Jogos Vorazes – O filme

A primeira coisa a falar aqui, novamente, é o fato de que o filme é uma adaptação do livro, então se o fã espera que tudo ocorrerá ipsis literis como na história que ele conhece, sairá decepcionado. A segunda é que, apesar de ter gostado bastante do livro e recomendá-lo a quem pergunta, não sou exatamente fã – não participo de fóruns de discussão, não fiquei acompanhando em cima a produção do filme e nem nada disso, apenas sabia que iria assisti-lo fatalmente, o que tira um pouco do auê da coisa.

Dito isso, voltemos à questão da adaptação: quando se faz um filme, deve-se pensar em dois públicos, aqueles que já leram o livro e querem a história que conhecem na tela e aqueles que nunca tiveram nenhum contato anterior com a obra e querem que o filme seja auto-explicativo. Dessa forma, detalhes, personagens e acontecimentos devem ser condensados na duração do filme (no caso, 145 min), e muitos fatos serão refeitos, personagens terão de desaparecer ou farão uma participaçãozinha especial só para constar.

Do ponto de vista de quem leu o livro, achei que a adaptação ficou boa. A origem do broche de tordo mudou, mas achei que a nova para fins de filme ficou bastante coerente, até (apesar de que o broche e o significado dele não faz a menor diferença no filme, para quem não leu o livro creio que isso passe por um detalhe insignificante, no máximo um símbolo de boa sorte mesmo). O começo também teve uma resumida boa que lhe deu agilidade (apesar de eu ter sentido falta da Katniss fazendo a morta de fome que ela é na realidade e caindo de boca nas comidas bonitas) e logo estamos nos treinamentos e nos próprios Jogos Vorazes.

Todos os acontecimentos marcantes do livro estão lá (e determinada morte levou às lágrimas ao menos uma pessoa da sessão na qual eu estava) e como qualquer adaptação de livros em primeira pessoa, ou com pontos de vista, o filme faz com que detalhes que Katniss, a narradora, jamais poderia ter ficado sabendo apareçam e algumas relações entre personagens e eventos do passado serem explicados ao espectador. Temos por exemplo as interações de Haymitch no intento de conseguir patrocinadores para os pupilos e as reações das pessoas assistindo aos Jogos em suas casas e cidades. Além disso, achei uma boa sacada que algumas das regras do jogo (que não ficaram claras ao assistir somente pelo filme) sejam explicadas na transmissão televisiva pelos narradores do evento.

Quanto a uma análise do filme, vamos lá: o elenco foi bem escolhido e atores jovens e talentosos, que já participaram de filmes concorrentes ao Oscar como os mocinhos Jennifer Lawrence (a Katniss) e Josh Hutcherson (Peeta) ajudam a compor o ambiente com interpretações que conseguem dar vida aos personagens (a relação conflituosa entre Katniss e sua mãe ficou bem clara sem que fossem necessários grandes diálogos ou cenas para isso e ambos os atores conseguiram passar as características dos personagens e fazer com que se tornassem espontâneas na tela). Os outros atores ficaram também bem afinados, dando ênfase nos intérpretes de Seneca Crane, o idealizador dos Jogos, e  Caesar Flickerman, o apresentador do talk-show.

A produção, principalmente o contraste entre a pobreza dos Distritos e o luxo surreal (e as roupas e maquiagens exageradas e coloridas na tela ainda são mais marcantes do que a descrição no livro) da Capital, também estava bem afinada para demonstrar as regras do mundo na qual estamos entrando. Também fica mais gritante aquelas pessoas que parecem vindas de um delírio lisérgico vibrando pela morte de 24 jovens transmitida pela TV, assim como a crueza dos combates (claro, não temos sangue esguichando e apenas poucos vislumbres de cadáveres, exibir tudo de forma fiel ao original obrigaria a jogar a censura para 16 anos, coisa que não é lá comercialmente muito boa).

O último ponto que eu gostaria de comentar é o final: foi bastante modificado do livro, em termos das nuanças do relacionamento entre os protagonistas, coisa que no contexto do filme até se encaixou bem. Só que a sensação a determinada cena foi um “IH, FERROU-SE!” gigante, um dos dois momentos não-intencionalmente humorísticos do filme 😛

Para finalizar, recomendo o filme para quem leu o livro e também para quem não leu. Ouvi por aí uma frase que, expandindo, seria mais ou menos o seguinte: é uma tentativa da indústria fazer uma franquia cinematográfica tão lucrativa quanto Crepúsculo, mas com uma diferença fundamental: o filme é bom.

Bom, fica também essa crítica de um crítico de cinema que não leu os livros (e na perspectiva do não-leitor, concordo com todas as críticas que ele fez).

***

Até a próxima!

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3 Responses to Jogos Vorazes – O filme

  1. Marcos Panontin says:

    SPOILERS abaixo:

    Não li os livros e assisti o filme hoje, e, apesar de ter achado a história bastante interessante, fiquei com diversas ressalvas:
    – a primeira ressalva, que é com toda a premissa do filme, é que achei inverossímil tanto sadismo por parte dos espectadores E dos participantes dos jogos (uma das participantes se gaba, numa cena bem clichê de vilões que ficam falando e falando até alguém os deter, de ter matado uma criança de, o quê, 12 anos?);
    – achei que o filme desperdiçou a chance de criar um conflito interno nos participantes, que, se quiserem sobreviver, terão de assassinar outras pessoas, algumas delas verdadeiras crianças! Todos os participantes que de fato aparecem no filme, exceto os pertencentes aos Distritos 11 e 12 (que são os distritos mais pobres, como se pobreza fizesse caráter*), são vilões de papelão, para os quais assassinar outra pessoa para sobreviver não é dilema, e sim motivo para rir e se orgulhar.
    Se de um lado temos adolescentes que matam uns aos outros sem um pingo de remorso, do outro temos os mocinhos por cujas mentes não passa que em algum momento eles vão precisar matar alguém (a Katniss só flechou um cara quando ele matou outra personagem, ainda assim por mero reflexo). Quando a autora criou o conceito dos Jogos Vorazes, parecia óbvio pra mim que ela ia desenvolver esse dilema e não acabar criando personagens unidimensionais nos dois espectros da coisa;
    – os produtores do programa não sabiam o que queriam? Criaram um casal para apaziguar uma revolta popular, ou seja, planejavam que eles saíssem ambos vivos dali, (aqui o filme mostra muito bem a vocação do reality show em ser panis et circensis) e jogam animais ferozes para acabar com eles?
    – uma pomada que cicatriza em algumas horas? As regras do jogo mudam assim a TODA hora? A audiência não reclama? Eles tem a tecnologia para criar seres do nada e ainda assim dependem das matérias-primas dos distritos mais pobres (como disse o Pablo Villaça)? Jogar tanto fogo em cima de uma participante só para ela sair do isolamento? Tanto altruísmo no casal principal? etc e tal.

    No geral gostei do filme, e justamente por isso fiquei chateado com as incongruências. Acho que o filme poderia ter sido bem melhor, a premissa tinha potencial, mas por preguiça/inércia o longa não fugiu muito do convencional.

    * isso é ser condescendente. Como se uma pessoa pobre não tivesse também dilemas e falhas morais.

    • Pro primeiro questionamento, algumas perguntas: por que programas como o do Datena ou da Sonia Abrão fazem sucesso? Por que um dos assuntos mais falados do começo do ano foi um suposto estupro no Big Brother? Por que julgamentos de crimes com repercussão acabam virando shows com transmissão ao vivo, comentaristas e tudo mais? Lembro-me da invasão do Iraque, em 2003, que a CNN cobriu ao vivo. Isso, em essência, é assim tão diferente da premissa dos Jogos Vorazes?

      – Quanto a esse questionamento do matar ou morrer, concordo com você. No livro eles pensam mais a respeito disso, mas tem toda aquela história de “Katniss é a mocinha” e por isso ela só mata em legítima defesa. Sim, é um moralismo meio besta, até na situação na qual eles estão, mas faz parte um pouco da faixa etária, também. E no livro ela é bem mais, digamos assim, selvagem. No filme ela demonstra até muito controle, em comparação.

      – E concordo com essa colocação do ricos x pobres.

  2. Pe says:

    Olha, quando vi o filme (só fui ler o livro depois), também tive essa impressão quanto ao sadismo exagerado mencionada pelo Marcos Panontin, mas aí me dei conta de que estava pensando com base no mundo atual e esquecendo que a história se passa em outro tempo: um futuro que não é a evolução social do nosso presente; há a evolução tecnológica, mas não a evolução moral do ser humano, que na verdade regrediu para o estágio da Antiguidade (com gladiadores e sacrifícios) depois de um quase-apocalipse. Ou seja, a história mostra um mundo com uma mentalidade que, em relação à nossa, é presente, futuro e passado ao mesmo tempo.
    Quanto à terceira ressalva, o casal não foi criado pelo programa, mas pelo mentor do Peeta e da Katniss a partir dos sentimentos do Peeta, e acabou dando ibope e saindo do controle dos organizadores dos jogos.
    E sobre a tecnologia para criar seres, bom, o livro dá a entender que não são criados do nada, mas geneticamente modificados. Talvez o filme esperasse passar essa idéia com a explicação sobre as abelhas.
    Mas mesmo no livro achei que muitas coisas não são muito bem justificadas, então a tendência é que o filme seja pior em relaçao a isso.

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