Never Let Me Go – Kazuo Ishiguro

O reino das lembranças, ainda que sejam doces lampejos de uma infância feliz, são também carregados do peso daquilo que já foi e não será mais. De sentimentos e lugares que não voltarão, de dias que ficaram para trás, de coisas que só existem agora como memórias. Quando esses dias parecem mais luminosos do que o presente, ou quando você sabe que certas escolhas e atitudes que pareciam bobas na época te colocaram na exata situação onde você está hoje – e ela não é assim tão boa – essas lembranças se tornam ainda mais dramáticas.

Never Let Me Go (ou Não Me Abandone Jamais, no título do livro lançado no Brasil) é um romance do escritor inglês nascido no Japão Kazuo Ishiguro, que recentemente ganhou adaptação cinematográfica. Falando do autor (e depois de descobrir que há inúmeras análises literárias sobre ele publicadas fico até com medo de continuar essa resenha), é bom mencionar que os pais emigraram quando ele tinha seis anos de idade para a Inglaterra, fazendo com que crescesse num ambiente em que as duas culturas se mesclam. Seus trabalhos versam muito sobre as lembranças e a retomada delas para justificar as escolhas de uma vida, como pode ser observado em seu romance mais famoso, Remains of the Day (sou apaixonada pelo filme, Vestígios do Dia, e é um desses livros que quero MUITO ler). Ah, uma nota importante: o título tem tudo a ver com o romance.

Esse é um daqueles livros melancólicos, mas de prosa tão delicada que é impossível parar de ler, mesmo tendo um tema tão triste. É a história de Kathy, uma mulher de 31 anos que trabalha como “carer” (uma espécie de enfermeira) e que reflete sobre o passado depois de dois amigos de infância retornarem à sua vida. É uma dessas histórias que desde a primeira linha o leitor já vai avisado de que será uma viagem de tristeza em que as coisas não tem a mínima chance de acabar bem, mas isso não impede o livro de ser um pageturn, de você querer saber o que acontece depois.

Acompanhamos então as memórias sobre a infância da protagonista na escola de Hailsham, na zona rural inglesa, um internato idílico com gramados verdejantes , onde as crianças são estimuladas a exercitarem seus dotes artísticos e onde vivem uma realidade à parte do mundo exterior, quase como um paraíso particular. Ali conhecemos Tommy, o melhor amigo da protagonista e que é a pessoa mais próxima dela, e Ruth, sua temperamental melhor amiga, dessas que querem ser o centro das atenções e não se furtam de criar todo tipo de história para isso.

O livro acompanha então a infância dos três nesse paraíso, e os complexos laços de relacionamento entre eles e, ao mesmo tempo, os mistérios e verdades veladas que se escondem entre as paredes da escola. Já nas primeiras páginas do livro, a sugestão de que aquele paraíso é completamente artificial aparece com segredos, proibições e sussurros entre os personagens, bem como a de que sobre os personagens paira um destino cruel e implacável.

Interessante ver essa relação no texto, da expulsão do paraíso que acontece no fim da infância, em que o relacionamento entre o trio principal passa por águas turbulentas – e, como na vida de todos nós, é diretamente influenciado pela palavra não dita na hora certa, pela atitude tomada no momento errado, pelas fofocas e diz-que-me-disse cotidianos, pelos defeitos de cada um – eles são forçados a deixar o ambiente protegido e aconchegante da escola e partirem para um mundo real que para eles, por algumas circunstâncias, será ainda mais complicado (e o tom de ficção científica que a obra acaba por ganhar gera algumas discussões interessantes). Essa expulsão do paraíso, tanto emocional por parte dos protagonistas, é realçada pelo que eles são e pela função deles no mundo, pelos segredos que envolvem Hailsham, conforme o texto vai apresentar.

Ainda, os personagens são tão reais que tem horas em que é possível esquecer se tratar de uma obra de ficção e embarcar de cabeça nas memórias de Kathy, tão fortes e próximas da vida de qualquer um. Como no mundo real, não existem mocinhos ou vilões – apesar da tensão do triângulo amoroso inevitável, não é possível julgar a egoísta Ruth como uma pessoa má, tampouco perceber que a passividade de Kathy também a conduziu por situações que não foi capaz de controlar. Só que, como tudo na vida, erros acontecem e determinam todo o resultado final e nem sempre há espaço para repará-los ou para redenção.

Por fim, a verdade final do destino dos personagens: a de que, como na tragédia grega, jamais puderam fugir daquilo que estava traçado para eles desde o início. Apesar de terem sido criados para aceitarem – e de que naquele universo certamente haja quem tenha se rebelado – também fica marcado o quão fácil aceitaram a definitividade do “não”. Também dá para relacionar ao fato de que não é possível fugir daquilo que já se construiu, de que o hoje é uma consequência, amarga ou feliz, do ontem.  Há também algumas implicações éticas resultantes do final do livro, mas talvez nem tenha sido essa a discussão principal proposta pelo autor, apenas o cenário na qual resolveu construir seu romance.

Apesar do final para lá de triste, é um belíssimo livro, uma história sentimental e verdadeira sobre o lembrar-se, e do como os dias iluminados podem ainda trazer uma luz para as trevas de um presente sombrio.

Enquanto escrevia a resenha, não pude deixar de pensar nessa música.

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Gostou do livro? Em inglês: Livraria Cultura Em português: Livraria Cultura

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Até a próxima!

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4 Responses to Never Let Me Go – Kazuo Ishiguro

  1. Bruno says:

    É um ótimo livro mesmo, não dá pra deixar de recomendar, mesmo que a história seja bastante triste e melancólica.

  2. Marcos Panontin says:

    Você colocou muito bem, é bem aquela sensação das tragédias gregas, de que não se pode fugir ao destino ou àquilo que nós construímos. Os Vestígios do Dia é lindo, também. Parecido com o Never Let Me Go, mas acho que mais sutil.
    A Companhia das Letras devia traduzir mais livros do Kazuo Ishiguro.

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