Clarissa – Érico Verissimo

A adolescência é uma fase peculiar da vida e essa transição entre a infância e idade adulta ganha contornos diferentes de acordo com cada época. Aliás, a transição entre o infantil e a maturidade pode ser vista não apenas em termos biológicos, mas também em outros lugares: o urbanismo (no começo das grandes cidades as coisas eram muito mais românticas e simples do que no caos megalopolitano de hoje, o encanto de ir ver um filme no cinema ou fazer o footing no fim da tarde existiam, assim como uma proximidade entre vizinhos que parece impensável nos dias de hoje) ou mesmo o caminho entre os primeiros trabalhos de um autor e aquelas que seriam suas obras-primas.

Clarissa é o livro de estreia de Érico Verissimo e ambos, criador e criatura, possuem muito em comum: ela é uma mocinha sensível, ingênua e sonhadora que saiu da estância da família, no interior, e foi fazer o curso normal em Porto Alegre, na década de 1930 (a cidade não é citada em nenhum ponto do texto, mas por vários elementos textuais, como expressões regionais e referências ao seu lugar natal é fácil inferir). Lá, ela mora na pensão da tia e vemos o dia-a-dia tanto da menina que descobre aos poucos, e não sem surpresas e choques, o mundo adulto, quanto dos demais moradores da pensão e seus vizinhos, de idades e ocupações variadas na vida.

Os tipos que rodeiam a vida de Clarissa são vários: a própria tia Zina, dona da pensão e que precisa organizar os negócios, a própria casa e cuidar da sobrinha; universitários entre os dedicados e os que levam a vida na festa; aposentados e assalariados. Todos eles atenciosos e solícitos com a jovem hóspede e povoando seu mundo de sonhos e divagações.

Temos também o sorumbático Amaro, bancário e músico amador que fica pelos cantos curtindo sua tristeza e fazendo um contraponto à alegria juvenil de Clarissa: enquanto ela vive num mundo colorido de descobertas e surpresas, ele parece ter sido derrotado pela melancolia. Talvez seja exatamente a luz dela que o atrai, como vemos em seu ponto de vista, numa tentativa de resgatar o sonhador que já habitou nele.

É bom que se diga ainda que esse é um livro sobre o cotidiano, no espaço de algumas semanas na vida de Clarissa. Não há acontecimentos bombásticos, reviravoltas e surpresas: há a vida real e seus pequenos fatos, como um almoço, uma prova na escola, uma tarde ensolarada e um aniversário. São as coisas pequenas, as miudezas da vida, que  compõem esse retrato do dia-a-dia de uma adolescente numa cidade que também floresce aos poucos.

(e, um último comentário, interessante pegar o primeiro livro de um mestre e pensar o quanto amadureceu em estilo e temática ao longo dos anos, que mesmo os grandes tem de começar de algum lugar, né?)

***

Interessou-se pelo livro? (Submarino)

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Até a próxima!

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12 Responses to Clarissa – Érico Verissimo

  1. Alexandre says:

    O último parágrafo me chamou a atenção. Fica a pergunta: pretende encarar O Tempo e o Vento aqui no blog?

    • Olha… Penso em encarar Incidente em Antares, O Tempo e o Vento fica entre preguicinha e livros demais vida de menos…

      • Bruno says:

        Incidente em Antares é bem bacana, recomendo. Zumbis before it was cool, Érico Veríssimo era um mestre e visionário, heheh =P

      • criscatbr says:

        “Incidente em Antares” é muito bom. Gostei demais do livro.
        Porém foi “O tempo e o vento” que fez eu me tornar fã de Érico Veríssimo. É longo, eu sei. Dá preguiça só de pensar em iniciar. Mas a leitura vale muito a pena. Vale o desafio de encarar uma obra tão extensa.
        (e quem encara “Game of thrones” nem tem essa desculpa)

      • Ok ok ok, vcs venceram!

  2. Daniela says:

    Olá.

    Muito boa a sua resenha. Sabe que Clarissa eu ainda não li, mas gosto muito do Erico e já li alguns dos seus livros. Estou agora lendo o Tempo e o Vento. Reli os dois volumes de O Continente e estou lendo jó o segundo volume de O Retrato. É bem diferente de Clarissa. São livros maravilhosos.

  3. Pingback: Desafio Literário 2012 « Leitura Escrita

  4. talkativebookworm says:

    Eu ainda acho ‘Música ao longe’ o melhor do ciclo da Clarissa (que ainda tem o ‘Olhai os lírios do campo’ e ‘Saga’), mas esse primeiro é fofo.

  5. Gabrieli says:

    Sera que alguem poderia me passar um resumo com mais detalhes, eu nao consegui retirar o livro e tenho um trabalho pra terça…… se alguem puder agradeço o.o

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