Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Stieg Larsson

Se tem um assunto sensível para mim, por razões que vão além do óbvio, é a violência contra a mulher, em especial quando violência doméstica. Podem reparar que os assassinatos de mulheres que saem na mídia foram cometidos por seus companheiros, inconformados com o fim do relacionamento, ou para acobertar o abuso sexual cometido por estranhos. Também tem os casos de agressão e abuso que não acabam em morte, mas também não acabam – ou só muito raramente – na punição dos agressores. É um quadro que tem muito de cultural, muito de uma cultura machista – onde a mulher é “posse” do homem, onde a vítima de abuso sexual “também provocou”, onde “em assunto de família ninguém se mete”. Passos são dados, mas muito ainda precisa ser feito a esse respeito.

Dito isso, vamos ao livro de hoje, Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, do sueco Stieg Larsson. O livro foi uma verdadeira coqueluche quando saiu no Brasil, lá pra 2008 ou 2009, desses que todo mundo leu, mas o preço proibitivo me inibiu de comprar. Acabei comprando em 2010, mais por impulso do que por reflexão consciente, numa oferta da Bienal de BH. Coloquei na estante e pensei: “livro grande, preguiça”. Vim ler só esses dias por culpa da exibição da adaptação americana do livro (apesar da sueca também ter chamado bastante atenção quando saiu), o que atiçou minha curiosidade.

Gostei mais do que esperava, talvez por ser um policial em que o mistério central tenha menos importância do que o desenvolvimento dos personagens ou das críticas que o autor pretende fazer sobre a realidade sueca (a política, o jornalismo, a violência contra a mulher…). É a história de Mikael Blomkvist, jornalista que toma um golpe duro em sua carreira ao ser condenado por difamação (e é chocante saber que difamação na Suécia dá cadeia. Isso é tão ditatorial, ultima ratio pra que, né). No meio da turbulência que se torna sua vida, resolve aceitar uma missão fadada ao fracasso: tentar solucionar um crime ocorrido há 40 anos, numa versão insular do mistério do quarto fechado – o desaparecimento (e provável assassinato) de uma adolescente herdeira de um grupo industrial milionário.

Paralelo a isso, temos Lisbeth Salander, uma jovem excêntrica (mas que bem claramente usa tal excentricidade como máscara), de pouquíssimo trato social mas com uma habilidade fora do comum para investigações. Ela tem sua própria dose de problemas para resolver – que não são poucos – mas o trabalho a leva a entrar em contato com Mikael -e a interação entre ambos será explosiva.

Como já disse, a parte policial do livro, de mistério e investigação, é mediana, construída de modo correto (o mistério pode ser resolvido ainda nas primeiras páginas pelo leitor, inclusive fatos e motivos, mas essa é a menor das questões quando se inicia para valer a investigação e suas consequências) e que só começa a empolgar mesmo lá pelo meio do livro. Na verdade, creio que Hercule Poirot não levaria mais de três dias para solucionar tudo, apontando tudo com precisão milimétrica – mas Mikael se envolve, até mais do que seria sensato, com o caso que tem em mãos. Tem até mesmo o Discurso Final do Vilão – e a história se estende até bem depois do clímax, mostrando cada consequência e além.

O ponto está no desenvolvimento dos personagens – dos perturbados, cada um a seu modo, protagonistas, até as pessoas que passam por seu caminho, clientes, amigos e inimigos. Também é um livro sobre a violência contra mulher, que inclusive usa de alguns dados estatísticos suecos sobre o tema na abertura de cada segmento. A grande maioria das personagens femininas sofre ou sofreu violência ao longo da trama – e muito mais angustiante do que um estupro descrito com detalhes é a cena seguinte, em que a personagem se dá conta que o sistema a desampara, que não há ninguém a quem possa recorrer para denunciar seu agressor, já que quem afinal acreditaria nela, num mundo em que os homens estão em situação de poder?

Também é sobre jornalismo e ética profissional, coisa que o autor, jornalista, teve de conviver e que provavelmente tirou muitas lições de sua vida. É um desabafo sobre a imprensa sueca, a economia e os poderosos, sobre o silêncio em alguns casos mais críticos para evitar escândalos de potencial destrutivo e sobre o mundo sem lei dos altos negócios empresariais e suas consequências, além de uma meia dúzia de hipocrisias sociais presentes em qualquer lugar do mundo, ainda que com suas variações regionais.

Além do hype, é uma leitura altamente recomendada, ainda mais para quem gosta de tirar reflexões sobre a realidade do mundo a partir daquilo que é lido.

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Quer ler também? (Submarino)

Que tal a trilogia inteira? (Submarino)

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Até a próxima!

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6 Responses to Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Stieg Larsson

  1. Bruno says:

    É um livro bastante marcante mesmo, pela parte policial bem montada, e principalmente por tudo o que ele tangencia ao redor disso. Agora falta só o pique de ler os outros dois… =P

  2. Eu acho o primeiro livro morno, mas muito morno em comparação aos outros dois, o que eu senti foi que esse primeiro é a crítica do autor ao que ele sofreu de verdade, é o livro do Blomkvist, a Salander é apenas apresentada. O Mikael por mais que seja inspirado no Kalle Blomkvist, ele é antes o próprio Stieg Larsson (o que eu acho mais legal é que o Larsson imaginava como seriam os heróis das histórias infantis suecas quando estivessem crescidos e colocou isso nos personagens dele).

    O primeiro livro não é para a Lisbeth (a Píppi Meialonga adulta), o segundo livro para mim é o livro dela, em que o final te deixa sem fôlego e foi mais angustiante que a náusea que me deu quando li a cena de estupro pela primeira vez (e ainda tenho quando vejo os filmes ou releio a cena). E no segundo livro, cada segmento tem uma espécie de prólogo que eu acho que você iria gostar, lembrei de você quando eu li =)

    Engraçado que dá para sacar quem são os “assassinos” logo de cara, mas a surpresa é o desfecho inesperado do mistério. O que segue depois na história principal (o caso da Harriet é acessório para mim), acho que é contado de forma muito rápida, a volta por cima do Blomkvist poderia ter sido estendida um pouco mais e também o desenvolvimento dos sentimentos da Salander. Isso também acontece no final do terceiro livro, parece que o Larsson se empolgou demais para escrever o miolo da história que teve que correr e se conter para terminar os livros, pelo menos foi a minha impressão.

    Eu queria muito que a viúva do Larsson terminasse (ela deu muito pitaco quando ele escreveu os outros três) ou passasse para alguém terminar o esboço do quarto livro que ele deixou, eu preciso de mais doses de Lisbeth Salander…. #mimimi

  3. Suely Ramos says:

    A temática é importante: a violência contra a mulher. Impossível imaginar que mulheres ainda sofram com isso nos dias de hoje, mas a realidade nos lembra e nos indigna a todo instante.
    E não é só a violência física, existe a violência emocional, aquela que ninguém vê: chantagens, ameaças, pressão psicológica. Todas as mulheres precisam lutar para reverter esse quadro. Mobilização, pressão por leis mais rigorosas, nenhuma mulher pode conviver com isso!
    Quero ler o livro e já sei quem vai me emprestar …

  4. Pingback: Sobre as núpcias de Sansa Stark | Leitura Escrita

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