Assando Bolos em Kigali – Gaile Parkin

Um desses lugares comuns bem verdadeiros sobre livros e leituras é sua capacidade de nos transportar para outras terras, viver culturas diferentes da nossa e conhecer maneiras novas de se pensar. É uma oportunidade única, pegando autores e histórias certas, de conhecer muito mais sobre o mundo e seus habitantes do que os atlas geográficos ou enciclopédias.

Já há algum tempo ando interessada em ler histórias de lugares diferentes da minha cultura brasileira, de classe média e moradora do sudeste (depois de quase vinte anos de interior agora ando me aprimorando nas artes de “moradora de cidade grande”), assim como da cultura anglófona quase onipresente nos livros de ficção, no cinema e na TV mais comerciais. Gosto de conhecer o diferente, saber como as coisas acontecem aqui e acolá do mundo e que no fim das contas pessoas são pessoas, onde quer que elas estejam e como quer que elas vivam.

Meu passeio dessa vez me levou para a África. Na verdade, comprei Assando Bolos em Kigali pela capa mesmo: o cor-de-rosa forte me chamou a atenção no meio das outras e a mulher em trajes africanos mais ainda. Peguei o livro para ver do que se tratava e me encantei instantaneamente, mesmo não o tendo comprado naquela ocasião em específico.

Essa é a história de Angel Tungaraza, confeiteira que mudou-se para Kigali recentemente para acompanhar seu marido convidado para colaborar com uma das universidades locais, bem como para criar seus cinco netos, filhos de seus dois filhos já falecidos. Seu negócio de bolos, que começou pequeno e para a vizinhança, cresce e ganha cada vez mais fama e é através deles que ela conhece a realidade tanto de seus vizinhos de condomínio quanto daquele país.

Afinal, Kigali é a capital de Ruanda, país onde apenas alguns anos antes, cerca de 800.000 pessoas foram mortas num espaço de pouco mais de cem dias. O livro passa então a tratar, de maneira delicada (é impossível tratar de maneira leve uma tragédia de tal porte), a questão dos sobreviventes dos horrores: mulheres que passaram por estupros e mutilações, homens enlouquecidos pela guerra, pessoas privadas de seus parentes e suas vidas. E vem a questão: como reconstruir-se depois de findo o sofrimento? De onde tirar forças? Das crianças pequenas sem um dos pais, ou sem os dois, sob sua responsabilidade? Da esperança de que os dias serão melhores? As feridas continuam abertas – e talvez nem mesmo o tempo de uma vida será suficiente para cicatrizá-las – mas se as pessoas encomendam bolos, é porque apesar das tragédias existem coisas para serem comemoradas.

Além dos dramas da guerra, há também um inimigo silencioso e mortal: a aids, que é uma epidemia mortal e não escolhe suas vítimas, um fantasma não tão intangível – e ainda coberto por preconceitos que impedem a melhor prevenção e tratamento – entre os habitantes não apenas de Ruanda, mas de toda África subsaariana.

Tirante as grandes tragédias que permeiam a sociedade, este é também um desses romances de vizinhança, digamos assim, já que grande parte do círculo social de Angel é composta pelas pessoas que moram no mesmo condomínio – a maioria estrangeiros que estão em Kigali para missões humanitárias diversas – bem como das pessoas de seu dia-a-dia: médicos, cabeleireiros, vendedoras de vendinhas, pequenos empresários e funcionários públicos… E toda vida em vizinhança tem suas próprias idiossincrasias, por assim dizer: o marido que todos sabem ser infiel menos a esposa, os filhos criados em conjunto, aquele outro vizinho que causa problemas para o condomínio, as inevitáveis fofocas…

Nem é preciso dizer que também é uma história sobre várias histórias individuais: mesmo a vida da Angel teve suas tragédias, algumas que ela começa a enfrentar somente agora – é uma senhora caridosa e sempre pronta a ajudar aos outros, sim, mas que foi incapaz de mudar o destino da pessoa que mais lhe importava. Isso para não falar de todas as histórias de seus vizinhos, amigos e clientes, todas com igual dose de tragédia – como diria Tolstói, cada uma à sua maneira – e sobrevivência.

Mais ainda, um plus inesperado e bem-vindo, é uma história sobre como mulheres podem empoderar-se, sendo senhoras de si mesmas, conduzindo seu próprio negócio – os bolos por encomenda, uma quitanda, um consultório médico -, contrariando tradições injustas (esse é um dos melhores momentos do livro, mas não posso contar sem ser spoiler) e ensinando outras mulheres a tomarem as rédeas de suas vidas.

O final, como não poderia deixar de ser, é uma grande festa, como devem ser todas as fases da vida – algum sofrimento, sim, pois a vida de ninguém é um mar de rosas, mas terminando em finais felizes.

Foi um prazer a viagem em que conheci Angel, seus vizinhos e clientes, é um livro que me deu muito mais do que eu pensava, tanto em prazer de leitura quanto em reflexão e conhecimento, já repassei-o com recomendação enfática para leitura e recomendo também a todos vocês, tanto pelo aprendizado sobre um lugar diferente quanto por um passeio pelo ser humano.

***

Quer conferir o livro? (Submarino)

***

Até a próxima!

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11 Responses to Assando Bolos em Kigali – Gaile Parkin

  1. Realmente gosto das suas resenhas. Essa em particular ficou delicada e linda. não é o tipo de livro que eu gosto de ler e provavelmente não o lerei, mas gostei muito de conhecê-lo dessa maneira.

  2. Bruno says:

    Os livros fazem essa mágica mesmo, de nos transportar para lugares diferentes. Tenho me interessado também em ler livros de outros lugares do mundo, além do mundo cristão-europeu-ocidental… É sempre uma viagem interessante.

  3. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

  4. Pingback: Escola dos Sabores – Erica Bauermeister « Leitura Escrita

  5. Suely Ramos says:

    Assando bolos em Kigali – Leitura fácil, atraente e que emociona
    Adorei o livro. Obrigada pela indicação.

  6. Maria Regina de Oliveira Ferreira says:

    Eu já li esse livro. Achei ótimo!!! Inclusive indicarei a uma amiga boleira. Talvez ela também se encante.

  7. Arlindo de Freitas Junior says:

    Voltei de Ruanda dia 28/04 , onde passei 5 dias muitos agradáveis, visitando principalmente Kigali e as Montanhas Virunga, no Parque Nacional dos Vulcões, onde pude por dois dias encontrar as famílias de Gorilas. Na volta, na Rodoviária do Tietê em SP, numa pequena feira de “encalhe” das editoras, logo bati o olho neste livro, com sua linda e chamativa capa. Comprei na hora, pela coincidência, e terminei a leitura ontem. Apaixonante. Ruanda já esta bem melhor do que na época em que se passa o livro. As feridas do Genocídio ainda vão demorar ou nunca se cicatrizarão por inteiro, mas a reconstrução esta sendo bem sucedida. Ao procurar hoje por críticas sobre o livro, me deparei com a sua, e achei excelente, retrata muito bem o que é este livro. Parabéns. Mais tarde, vou compartilhá-la com amigos. Abs.

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