O Incêndio de Troia – Marion Zimmer Bradley

Esse livro tem historinha pré-resenha. Pode não ser um dos grandes ou a obra-prima da Marion Zimmer, mas é meu livro predileto dela, de longe (mais do que As Brumas de Avalon ou qualquer outro trabalho). Talvez um dos meus livros preferidos de todos os tempos, se bobear, por mais que não seja o mais brilhante que já tenha lido, em roteiro ou desenvolvimento.

Conheci esse livro no primeiro semestre de 2005, em meus intermináveis passeios pela biblioteca da UFV. O livro tinha tudo para me agradar: escrito por uma das minhas autoras preferidas, tendo por base a mitologia grega e com uma protagonista ao que tudo indicava forte. Comecei a ler naquela tarde mesmo, numa aula de Introdução à Economia (lembro da época que li o livro pela época que fiz a matéria, também) sentei na última fileira , coloquei o livro no colo e fiquei lendo…

No começo foi tudo estranhamento, até porque o livro conta a história pela perspectiva de Cassandra (ou Kassandra, para respeitar a transliteração original), a sacerdotisa de Troia filha de Príamo que foi amaldiçoada ao recusar Apolo – ela teria o dom da profecia, mas ninguém acreditaria nela. E, em se tratando do viés feminista e pagão da autora, óbvio que as coisas seriam bem diferentes da Ilíada ou de qualquer autor clássico. Quando fechei o livro (e não levei mais do que cinco dias para lê-lo, isso no meio do período letivo e com quase 600 páginas – ah, fui envelhecendo e perdendo ritmo de leitura, como lidar :'(), não sabia sinceramente o que tinha achado dele, se tinha gostado ou odiado.

Com o passar do tempo, descobri que foi a primeira opção. Se a história fica na sua cabeça e não por maus motivos, se só ao devolver o livro para a estante você percebe significados que não absorveu na leitura, se com o tempo rememora passagens, então foi porque não foi só mais uma leitura. Em 2007 encomendei o exemplar do Círculo do Livro num sebo para uma releitura e meu tom foi bem diferente da primeira vez.

Só que, agora, em 2011, seis anos passados da primeira leitura, quatro da segunda e MUITAS águas da vida roladas, todo o mundo de significados foi completamente diferente. Até porque se tiveram alguns conhecimentos que aperfeiçoei nesse meio-tempo, certamente se encontram reflexões sobre feminismo (teóricas e práticas), conhecimento sobre cultos pagãos e um pouco de antropologia (sério, andei lendo sobre a antiguidade grega numa abordagem histórica e antropológica, ser fascinada por mitologia tem lá suas implicações).

Como eu disse, é a história da guerra de Troia (que vai bem além da Ilíada, aliás, a própria Ilíada conta só um pedacinho da lenda toda), mas ao invés de partir de um ponto de vista masculino (dos heróis, no caso), conta a história através da ótica de Kassandra, filha de Príamo. Tudo começa na gravidez de Hécuba, em que se profetizou que a criança em seu ventre traria destruição à cidade, mas convieram de nascer gêmeos: Páris, dado para ser criado por pastores longe da cidade (mas estamos na Grécia e sabemos o que acontece a aqueles que querem burlar profecias…) e Kassandra, que desde a infância é mais contestadora do que o adequado para uma garota de sua posição social e época. Desde que começou a exercitar o dom da profecia, começou a ver Troia em chamas, para o terror do pai e pessoas próximas, que interpretam suas visões como alucinações. Para evitar maiores problemas, Hécuba, sua mãe, a envia para uma temporada com as amazonas, longe de Troia e dos ouvidos de seu pai e irmãos.

Então entra um mundo de contrastes e alternativas (algumas estão dentro do poder de escolha da garota, outras, por sua posição social, não): as sociedades matriarcais das amazonas e da Cólquida, que mostram que o papel de uma mulher não precisa ser necessariamente ficar atrás de portões e véus dando filhos ao seu marido (filhos homens, evidentemente). Elas podem, sim, emponderar-se, serem as chefes de cidades – e de seus meios de produção – e controladoras das próprias vidas. Interessante que a sociedade das amazonas é predominantemente feminina, mas na Cólquida há mulheres e homens, elas em posição de poder. Só que as sociedades patriarcais ganham força, então como uma sociedade matriarcal pode sobreviver?

(a teoria de que inicialmente havia o matriarcado, substituído pelo patriarcado não é exatamente um consenso científico. Pode ter acontecido – e provavelmente o foi – nesta ou naquela sociedades, mas não tem todas ao mesmo tempo e da mesma forma. O que não invalida o ponto da autora, principalmente aquele de que mulheres podem, sim, ser livres).

Outro ponto, mais ou menos na mesma linha, e que permeia todo o livro, é o abandono gradual do culto à deidade feminina da terra e da fertilidade (a Mãe Serpente, entre seus milhares de nomes, que aparece como energia feminina primária, fonte do poder de gerar e por consequência de viver e morrer) e o culto de deuses masculinos, antropomorfizados, como símbolos da sociedade masculina (o Senhor do Sol), onde mesmo as deusas exercem seus papéis de acordo com os arquétipos sociais.

(Nesse ponto nova ressalva. Tem de se levar em consideração um pouco das próprias crenças da autora – a simpatia pela vertente pagã que cultua a Deusa e suas faces. Eu, pessoalmente, acredito que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: um sistema equilibrado se faz de energias masculinas e femininas em equilíbrio, não em oposição, como o yin-yang: a soma traz a compleitude, não a divisão).

Aqui, também, os deuses, ao contrário da Ilíada, não andam no mundo material dos homens. São manifestações de energia, que podem ser vistos no mundo dos sonhos ou do transe ritual, ou possuir seus sacerdotes humanos para que possam falar usando sua voz (e é através desses mesmos sacerdotes que certas passagens da lenda em que deuses agem de maneira corpórea e literal são recontadas aqui). Há até mesmo questionamentos sobre sacerdotes manipularem as palavras dos deuses seguindo seus próprios interesses ou se um deus antropomorfizado existisse tal qual nos templos, por que deixaria Troia ser destruída.

E, claro, Helena, que era a mais bela de todas, mas ainda era uma mulher num lugar estranho, olhada com hostilidade por ter servido de pretexto para a guerra, movida pelo amor mas vivendo na mais perigosa das fronteiras. Kassandra a princípio a rejeita, pois sabe que ela é a peça que traz a destruição, mas quem melhor para entender um outsider do que outro outsider?

Os heróis não são visto em sua pose mais galante, também. Heitor pode ser o mais nobre entre todos, mas ainda se recusa a ouvir os conselhos ainda que sensatos de mulheres; Páris é um covarde arrogante e Aquiles… um psicopata cujo único prazer é matar, contido apenas pelo seu amigo Pátroclo. E Enéias, que, além de ser um valente guerreiro, parece ser o único a ouvir a protagonista e enxergá-la como uma igual.

Claro que vários dos personagens já conhecidos dos poemas homéricos estão presentes (não todos, pois na narrativa nem haveria espaço para tudo, no fim das contas) e alguns fatos das lendas da guerra, como a morte de Aquiles e o Cavalo de Troia, tem suas versões pela ótica mais realista da autora. Talvez isso possa incomodar, principalmente àqueles mais ligados ao formalismo do “original” (na verdade acho que nem tem como falar em original numa história que ao longo dos milênios ganhou inúmeras versões, de qualquer forma), mas acaba sendo uma versão interessante, de qualquer forma.

E novamente, a guerra não é bonita, apesar de travada dentro dos limites de honra (entendida também como parte do culto aos deuses) de ambos os exércitos, havendo tréguas para festas religiosas e lutos. Há fome, destruição, vítimas inocentes – e todo terror do destino pior do que a morte, principalmente aquele reservado às mulheres. Chorar pelos pais, maridos e filhos mortos, ter o corpo violado, ser dada junto com os espólios de guerra para homens que foram responsáveis pela destruição de seu mundo… Como diz certo personagem em determinada hora, “é melhor morrer do que esperar para viver os dias que virão”.

Na verdade, talvez o que mais tenha me chamado atenção agora é como a sociedade em que o patriarcado começa a enraizar-se construída pela autora, aquela do ano que o livro foi lançado (1986, poderia dizer que curiosamente foi o ano em que nasci) e a minha, de 2011, tem muito em comum. Se uma mulher tenta sair de seu papel social, ela será a estranha, a outsider (ou qualquer pessoa, homem ou mulher, que se atrever a falar as verdades que ninguém quer ver reveladas). Se ousar emponderar-se do próprio desejo, como Helena, estará pronta para ser julgada até pelos mais próximos.

Aliás, talvez essa seja a mensagem mais forte, consciente ou não: o poder de escolha, o poder de efetivamente TER escolha. De ter o poder de escolher viver como amazona, ou como rainha, ou como dama presa entre muralhas, mas porque se conhece as consequências de cada uma das escolhas, não por ter sido impelida a uma delas. É ser a senhora de suas próprias decisões e não ser colocada – por homens – em papeis que não deseja assumir, ou dos quais não se pode fugir.

E como hoje esse discurso me é mais claro! O “lugar de mulher é dentro de casa”, não dito na sociedade, ou mesmo o de, quando vítima do ataque sexual inoportuno de um homem (que não necessariamente termine em estupro, mas a bem da verdade, ser beijada à força por alguém que não entende que “não” significa “não” também é uma grande invasão), a mulher acaba sendo vista como culpada pelo simples fato de existir! Ou de não ter opinião respeitada ou ouvida por ser mulher (e jovem), enxergar o tratamento diferenciado de algumas pessoas por gêneros. É perceber não viver num mundo de iguais.

É saber que, ainda hoje, há batalhas que mulheres devem enfrentar e vencer.

***

P.S.: O livro ganhou edição nova que você pode comprar aqui! (Submarino)

***

Até a próxima!

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15 Responses to O Incêndio de Troia – Marion Zimmer Bradley

  1. BrunoBruno says:

    É sempre interessante revisitar leituras que nos marcaram, sob a ótica dos anos vividos desde então. O livro também é feito pelo leitor, e ninguém passa seis anos sem sofrer algum tipo de mudança. Pena que outras coisas mudem tão pouco em vinte e cinco anos… Mas depende da gente também fazer o possível pra que melhorem nos próximos.

  2. Josh Orrico says:

    Olá, Ana, tudo bem?
    Pra mim o mais fascinante é a troca de pontos de vista, que, tratando-se de um acontecimento tão épico como a Guerra de Tróia, pode proporcionar inúmeras visões de inúmeros personagens, suscitando inúmeros temas e discussões. O Poder da mitologia!!

    A versão que vc leu é a da editora Imago ou a do Círculo do Livro? É a da capa tbm??

  3. Rodrigo says:

    aqui, não vejo você falando de leitura de livros virtuais e estas experiências, com leitor e tudo mais, que acha de falar sobre isso? Poderia fazer uma enquete do tipo quem largaria o livro físico e por ai, o que acha?

    • Meu problema é não ter muito acesso a livros virtuais mesmo. Primeiro: detesto ler no PC. Realmente detesto. Só leio em último, ultimíssimo caso. Segundo, para a leitura virtual ser eficiente, você precisa de um tablet. O que eu tenho é péssimo para leitura – sério, ler ebook no iPad me custou uma enxaqueca de me derrubar na cama por dois dias. Então como minha experiência pessoal além de ser ruim é quase nula rs, não me sinto preparada para fazer essa crítica. Mas claro, vai ser um assunto que invariavelmente vai aparecer aqui.

      • Rodrigo says:

        ah, mas os leitores são especialmente adaptados para leitura e o Ipad não é um leitor de e-books. Encomendei um para ver como vai ser e conto aqui a experiência. Mas é uma coisa que vai acontecer não muito longe de agora. Fora que existe vários livros bacanas que já estão no domínio público, vale uma conferida: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp. Uma das coisas que me empolgo com isso é não ter que ficar com este tanto de livro pegando poeira (estou acabando de embrulhar todos com aquele plástico de pvc que a gente embrulha comida e aproveitando e catalogando todos, risos). Li algo outro dia sobre alguns blogs que promovem algo chamado Book Crossing Blogueiro, já ouviu falar? Se não me engano começou neste site: http://luzdeluma.blogspot.com/2010/11/chegou-o-dia-d-vamos-esquecer-um-livro.html sobre libertar os livros… muito legal a idéia. Será que dou conta de me separar dos meus filhos?

      • Quero comprar um kindle assim que for possível, sem luz, para ter a experiência. Mas conte, quando avaliar. 🙂

  4. Engraçado que eu li alguns livros dela, incluindo o primeiro do quatro de Brumas de Avalon, e passei a não gostar muito das histórias dela. Fora brumas os outros pareciam meio perdidos não sei ao certo dizer. E olha que li tudo dela que eu achei na biblioteca da Letras da UFRJ, menos esse livro. Na verdade nem sabia que existia.
    Agora tenho um dilema, por que sua resenha realmente deixou o livro tentador, mas o meu histórico com ela me deixa com um pé atrás.

  5. Cassio says:

    Olá, Ana, sei que parece pretensioso e inoportuno, mas me passaria seu perfil do Facebook? Sou escritor, publiquei meu primeiro romance, estou prestes a publicar o segundo, me identifiquei com muitas nuances do seu texto e gostaria de ter contato com alguém de tão bom gosto. E, para esclarecimento, não sou nenhum carente tarado virtual, haha, sou comprometido, e tem o cunho tão unicamente do interesse literário!

  6. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

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