A Wizard of Earthsea – Ursula K. LeGuin

Acho que não falo muito de uma das peças essenciais da composição de um livro: o autor. No caso, a autora: Ursula K. Le Guin. Ela é uma das maiores autoras de ficção científica do século XX, que começou a publicar justamente quando o movimento feministra e tantos outros da década de 1960 começaram. Acadêmica, resolveu imprimir em sua ficção científica temas das ciências humanas e sociais, como antropologia e sociologia. Dentro desses temas, sua obra é marcada por discussões sobre gênero, racismo, sustentabilidade… Talvez seus maiores clássicos sejam A Mão Esquerda da Escuridão e Os Despossuídos, que tratam exatamente sobre esses temas. Trata-se de uma ficção científica mais sóbria, repleta de significados intertextuais, reconhecida e premiada por essas razões.

Mas tem uma coisa bem legal sobre a Ursula K. LeGuin: além dessa ficção mais sisuda, ela também escreve para crianças e jovens. Earthsea (ou Terramar, os livros saíram no Brasil, mas são de edição esgotada) é uma série fantástica mais aventuresca, focada em um público mais jovem, inspirada nos trabalhos de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis que ela leu durante a infância. O que esperar então de uma saga aventuresca feita por uma autora engajada política e socialmente? Simples: uma história com um subtexto não muito comum em livros de fantasia 🙂

A Wizard of Earthsea é o livro que inaugura a série (apesar do cenário já ter sido trabalhado anteriormente pela autora em alguns contos) e traz a história dos primeiros anos de Ged, ou Sparrowhawk, aquele que veio a se tornar o mago mais poderoso de Earthsea. O começo, as cinquenta primeiras páginas, dão um pouco de sono, pois são a velha história do menino superdotado que desperta para as artes mágicas desde cedo, a capacidade elevada vem acompanhada da arrogância e ele vai parar numa escola mágica onde arranja amigos e também um providencial rival.

É aí que a trama realmente começa: numa peleja com o rival, Sparrowhawk acaba libertando um mal ancestral e agora tem de lutar para não ser aniquilado por ele. Ao mesmo tempo (ou será que o subtexto da Sombra é tão forte assim?) o garoto precisa se dar conta de algumas coisas: ele pode ser habilidoso, mas isso sozinho não o faz o melhor; que toda arrogância quando confrontada com a realidade não passará incólume; e que ele poderá fazer feitos como domar dragões, mas às vezes será incapaz de salvar a vida de uma criança, por mais que isso lhe custe todos os seus esforços.

Então a aventura do mago que persegue o inimigo ancestral fica em segundo plano perante o subtexto: ele persegue a própria Sombra, para ser um mago e não sucumbir, terá de reconhecer sua imperfeição, mas também que é capaz de agir (como domar dragões ou vencer duelos com magos ancestrais em seu próprio território). O grande desafio é poder encarar a Sombra e sair fortalecido do encontro, subjugando-a e deixando aflorar apenas o Eu.

É um romance de crescimento, sim, da transformação de criança em adulto, passando pela transição da adolescência. Porém, gostei bastante de pegada mais filosófica aqui. Esse enfrentamento da Sombra, ainda mais quando só se enxerga os próprios  defeitos e falhas – e mesmo a consideração de que a perfeição é impossível – não costuma ser abordada de forma tão didática pelos livros de YA em geral, tampouco de forma tão eficiente.

Outra coisa bem legal é como a magia funciona em Earthsea: aqui, a lei de Lavoisier funciona. Feitiços não saem do nada: para colocar em um lugar, algo será retirado de outro. Uma chuva mágica no ponto A causará seca no ponto B, então todos os processos são muito mais complexos do que empenhar a vontade e pronunciar palavras mágicas. O mundo é um equilíbrio e a magia só funciona e é efetiva se mantém esse equilíbrio. Certamente isso deve ter um papel maior nos próximos livros da série, então fica “a conferir”.

Enfim. É muito interessante ver um livro mais aventuresco infanto-juvenil escrito pelas mãos de uma autora de uma bagagem acadêmica, cultural e estilística tão grande e notável – e ver que ela consegue pegar o clima desse tipo de leitura. Fui cativada pela série e é certeza de que nos tempos futuros lerei os livros seguintes.

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Até a próxima!

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7 Responses to A Wizard of Earthsea – Ursula K. LeGuin

  1. Bruno says:

    Parece bacana mesmo. Que bom que gostou.

  2. Eu li os três primeiros livros da coleção Earthsea! =D

    Muito bom ver você comentando sobre eles. Eu conheci a obra com a animação do Estúdio Ghibli, Tales from Earthsea, e depois uma amiga me emprestou os volumes nacionais, que ela havia adquirido em um sebo.

    Gostei bastante dos três, principalmente do segundo. Mas o primeiro e o terceiro têm mais subtexto, creio, então talvez lhe agradem mais. =]

    • Depois eu com certeza vou procurar os outros livros da série, me surpreendeu, gostei muito 🙂

      E acho que é um bônus quando tem subtexto, camadas de compreensão e tal, mas tem dias que quero relaxar e ler a história mais aventuresca do mundo, também 😀

  3. O livro parece bem interessante. Já tinha curiosidade em ver a animação do Estúdio Ghibli, mas agora vou esperar e comprar o livro primeiro =)

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