Metallica e Eu

Bom, tem horas em que eu gostaria que esse blog se chamasse Leitura & Música Escrita. Mas não tenho capacidade técnica para resenhar discos, na verdade nem sou a pessoa mais antenada do mundo com lançamentos e músicas que tocam em rádios. Então é bom reconhecer as próprias limitações e ir em frente – ninguém é obrigado a saber fazer tudo, afinal, por mais que o mundo moderno insista em dizer o contrário.

Esse também não é exatamente um blog pessoal. Por mais que às vezes me dê a louca de colocar material mais autoral aqui (ou de querer colocar mais material autoral), não é essa a do blog. Não foi feito para dizer como foi meu dia ou minha interpretação pessoal dos fatos que me cercam, por mais que às vezes me coce para dar minha opinião sobre o que anda acontecendo por aí (porque todo mundo tem de ter opinião formada sobre tudo, afinal, nos dias de hoje).

Mas vamos lá abrir uma exceção para esse texto de hoje, que é uma introdução para o próximo post e tem coisas que não caberiam dizer lá: como uma banda ganha o posto de favorita para uma pessoa? Como ser mais do que um simples rostinho bonito na estante de discos?

Conheci o Metallica naquela época de colégio em que todos os meninos eram maus pra caramba e andavam com camisas de banda, em especial da supracitada e do Iron Maiden. Um primo meu, de quem eu frequentava a casa, naquela época ouvia bastante o Load, do Metallica, ao ponto de eu me irritar com aquilo e achar a maior chatice do mundo. Mais ou menos por essa época, o mesmo primo ganhou o Reload, que era melhorzinho, mas ainda me irritava profundamente. Pensei: “se isso é Metallica, então isso é chato pra caramba, então deixa eu ficar com minhas bandas que gosto e deixar essas coisas overrated pra lá”.

Assim foi por alguns anos, inclusive eu tendo pego mais antipatia ainda pela banda pelo show cancelado no Brasil em 1999 ou 2000, na fase da depressão (que só vim a saber a fundo mais tarde) e pela treta que eles arrumaram com o Napster, na época que o compartilhamento de arquivos pela internet só tava começando (ah, aqueles tempos em que para baixar uma música levava-se uma hora e que por isso se escolhia muito bem o que pegar…). (ainda sobre isso, nada como um dia após o outro. Eles xingaram, espernearam e processaram, mas hoje a empresa que controlava o Napster comprou a gravadora deles. OU SEJA). Era uma banda que eu não fazia questão de ouvir, com tanta coisa no mundo mais interessante.

Até o dia em que por acaso, meio sem querer, ouvi Fade to Black pela primeira vez, e pensei como poderia ser essa a banda que eu simplesmente não gostava. A seguir, ouvi Enter Sandman e soube de toda a controvérsia envolvendo o Black Album (que acho um disco excelente, todos os papos de “vendidos” a parte – aliás, QUAL BANDA, tendo a oportunidade, não gostaria de ser mainstream?). Ouvir Ride the Lightning, Master of Puppets e …And Justice For All, só para perceber o quão a qualidade da banda está há alguns anos-luz de várias outras que eu mesma ouvia. Perceber por que o Metallica é quem é e por que influenciou – e ainda influencia – tantas bandas. Lembrar dos riffs matadores dos primeiros álbuns, como os de One e Master of Puppets… e perceber que isso é heavy metal, sim, senhor.

É perceber que o primeiro álbum, o antológico Kill ‘em All, foi feito por garotos querendo se divertir e ainda patinando na técnica que refinariam posteriormente, mas que ainda assim já mostra bem o que a banda tem para oferecer, e o que virará seu ponto forte nos discos seguintes – ritmo aceleradíssimo, bateria afiada e dá-lhe riffs e acompanhamento de guitarra. É perceber que o rock e o heavy metal não foram mais os mesmos depois deles – e como hoje, passados mais de vinte e cinco anos, os álbums ainda são deliciosos de ouvir.

Mesmo o “começo do fim” Black Album… É diferente dos anteriores? É sim, ganhou uma sutil suavizada, mas é um mar de clássicos – e um disco excelente de se ouvir e apreciar do início ao fim. Mesmo revisitar Load e Reload – e descobrir que mesmo estando longe dos primeiros discos da banda, ainda assim são muito melhores do que o melhor disco de várias outras bandas.

Temos então o controverso St. Anger, mas para chegar a ele, tem de entender um pouco o que foi a década de 1990 para o Metallica – o reconhecimento e a fama pós-Black Album, talvez até mesmo a vontade de fazer algo diferente (com resultados questionáveis, mas ok), as brigas internas, o desgaste do relacionamento, brigas com o Napster… Foi a época dos shows cancelados mundo afora pela total falta de clima da banda em tocar, dos membros da banda terem de se haver com a paternidade recente, os vícios e a terapia em grupo para verem se a relação ia pra frente. Acabou dando certo. St. Anger é um bom disco, o grande problema dele foi ter sido feito pelo Metallica – e ser tão diferente de seu trabalho habitual. Há quem diga que será uma obra que só será reconhecida no futuro, mas acho que o valor do disco é bem outro: mostrar para os membros da banda que ainda dava para seguir em frente.

O último disco, Death Magnetic, é uma tentativa de retomar os sucessos passados, os clássicos – mas isso quase trinta anos depois dos primeiros lançamentos. É claro que não dá para ser igual – idade, técnica e tecnologia mudam. É uma dessas coisas que saudosistas talvez devessem entender: o Metallica antigo, pré-Black Album, não vai voltar, nunca. A técnica mudou, a formação não é a mesma, os tempos não são os mesmos. Na verdade, talvez o que eu mais admire no Metallica seja justamente isso: a capacidade de evoluir com o tempo. Tem bandas que tocam a mesma coisa há mais de vinte anos – não dá para acusá-los disso. Além disso, a capacidade de testar o diferente e nos presentear com pérolas como o Metallica S&M – os grandes clássicos da banda acompanhados pela Orquestra de San Francisco – e testar o controverso, como o Lulu, disco em parceria com Lou Reed que está para sair.

Enfim, tanto falei deles e tão pouco de mim (o que é bom). O Metallica, para mim, é uma banda que me fez perceber que os tempos mudam e a percepção musical muda – tanto que foi uma das poucas bandas que sobreviveu à minha adolescência, além de ter uma apreciação completamente diferente hoje. Também é curioso porque as letras são muito pesadas: suicídio, guerra, desconforto interno, manipulação (tá, Nothing Else Matters é uma das músicas mais fofinhas que há e toda saga Unforgiven e da série “metaleiros com dor de cotovelo”) – só que elas também me dizem muito. Acho que é o que importa, afinal, as músicas dialogarem com quem as ouve, seja pelo ritmo, seja pelo conteúdo, ou seja pelas duas coisas ao mesmo tempo.

Para terminar o post, hoje vi um post no twitter mais ou menos assim: “quem é fã do Metallica é quem não soube do Napster, ou seja, só adolescentes”. Vou ter de discordar (apesar de que o Metallica é uma das bandas mais controversas do cenário – vendidos, “prefiro o Metallica antigo”, egocêntricos…). Achei a atitude da banda nesse caso exagerada, bem exagerada e babaca na verdade, mas para a época, em que o compartilhamento de arquivos só engatinhava e ninguém sabia muito bem onde estava pisando (e a bem da verdade até hoje ninguém sabe direito onde está pisando), era algo que aconteceria com alguma banda em algum momento. E, como eu disse, o mundo dá voltas, hoje os donos do Napster são patrões do Metallica. Não vou negar que pensei um “bem-feito” interno com a notícia.

E uma última coisinha. Hoje é o aniversário de 25 anos de morte de Cliff Burton, baixista que entrou na banda em seu iniciozinho. Foi uma morte traumática primeiro porque ele morreu jovem – com 24 anos – e segundo pelas circunstâncias: um acidente com o ônibus da banda onde todos tiveram escoriações exceto ele – morto esmagado pelo  veículo, aos olhos dos companheiros que ainda tentaram prestar socorro. É um trauma pesado para qualquer um e que certamente marcou os integrantes do Metallica – e os fãs – para sempre.

***

Até a próxima!

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18 Responses to Metallica e Eu

  1. Metallica marcou minha adolescência, apesar de que eu não fui fã ao ponto de procurar e pesquisar sobre a banda, apenas curtia as músicas (acho que sou poser hahaha). O CD que mais ouvi foi o Reload e ainda tenho as minhas favoritas dentre tantas outras de várias bandas.

  2. BrunoBruno says:

    Eu sei como é ter esse tipo de relação com uma banda, um personagem, um autor mesmo… Muitas vezes as nossas opiniões a respeito das fases e mudanças por que eles passam dizem muito mais sobre nós mesmo do que o trabalho em si. Mas é sempre bom saber reconhecer a importância que eles têm, e o que eles acabam significando pra nossa história pessoal.

    Excelente texto mesmo.

    • Bruno says:

      Ah, faltou falar um pouco do próprio Metallica, claro =P Vou dizer que conheço a banda mais pós-Black Album do que antes disso, e acho que esse é o meu disco preferido deles mesmo. Mas, mesmo não sendo exatamente um metaleiro de raiz (meu gosto tá mais pro blues e o rock clássico), sei reconhecer a importância e a qualidade do trabalho deles. Até o St. Anger, tão polêmico, acho que tem algumas qualidades que pouca gente deu valor, apesar de ter esse defeito mesmo que tu destacou, de ser muito diferente de tudo o que eles tinham feito.

      • Lembro de quando o St. Anger saiu, do pessoal metendo o pau com “pô, isso é nu metal!”. Pode até ser, mas feito por uma banda com qualidade técnica maior do que QUALQUER banda de nu-metal (e olha que até gosto de uma ou outra, como System of a Down). Quando o trabalho da banda é de qualidade, ela grita aos olhos.

    • Concordo plenamente, não tem o que adicionar no comentário. Também é um reflexo do nosso próprio amadurecimento, da nossa própria mudança interior.

  3. Valti says:

    mto bom o texto…concordo com praticamente td 😉

  4. Natânia says:

    Eu gosto de chamar de síndrome dos anos 90, essa coisa que acomete as bandas que elas vão do céu ao inferno em menos de uma década. E sempre, apesar de gostar do Metallica há mais tempo que o Depeche Mode e os gêneros musicais das duas bandas serem completamente diferentes, eu, particularmente, gosto de fazer um paralelo com as duas por causa da síndrome dos anos 90. O Metallica se “vendeu” com o black álbum, o Depeche produziu um álbum para estourar (o “Violator”) no ínicio da década de 90, só para ser a primeira comparação. E as duas bandas são gigantes há cerca de 30 anos no seus respectivos segmentos musicais e como você bem disse, que o Metallica se renova, o Depeche também se renova. E graças ao senhor do bom gosto musical, não tem essa de fim da banda, nem de reuniões esporádicas…

    Ah, só para contar também, o Metallica ganhou meu coraçãozinho, quando o clipe de Nothing Else Matters na versão S&M (aliás toda a apresentação) bombava na MTV em 2000….hehehehe

    Adorei o texto! Queria ter te acompanhado no show….

    PS: Pior que toda hora que mostrava o público eu buscava uma certa carinha conhecida, sabe? hehehehe

    • Você sabe que se tem alguém no mundo em que eu pensei o show inteiro foi você, né =* A gente persegue eles pelo mundo pra ir a um show junto, pode deixar u.u

      • Natânia says:

        O Lars prometeu que volta em breve. E eu não perco o show deles pela 3ª vez, eu vou de qualquer jeito (e vou ser mais esperta também….hehehehe). Quando eles vierem de novo, a gente vai junto!!
        =***

  5. Metallica foi a banda que me fez gostar de heavy metal. Ainda consigo me ver aos 14 anos escutando o Black Album o dia inteiro ehehe =p. Hoje em dia não sou mais tão fã da banda como antes (prefiro Therion e Blind Guardian), mas ainda a considero uma das melhores.

    Música favorita do Metallica? And Justice for All. =)

  6. alcides says:

    e o que vcs acham de eu que tenho 17 anos ..e .não consigo parar de escutar master of puppets, e kill an all??? e para min(sei que ainda não tenho experiencia) qualquer banda de metal hoj em dia, tira alguma palhetada das musicas do james para fazer as suas …

  7. André Silva says:

    Bom post, algo pessoal, mas preciso destacar alguns pontos. Cliff Burton não é do “iniciozinho” do Metallica, ele participou dos grandes momentos da banda mais ou menos até o estouro que foi o Black Album, pois suas composições, influências quase diretas, sobraram até o And Justice For All, mesmo tendo o baixista falecido em 86. Cliff era grande fã de rock progressivo, ele estava levando o Metallica para uma linha extremamente “melódica”, com faixas mais trabalhadas, menos secas, nota-se isso claramente em discos como o Ride the Lightning, Master of Puppets e no próprio Justice. Mesmo depois de sua morte, Cliff continuou enorme influência para os demais integrantes, notem o esforço que a banda faz para deixar as músicas mais complexas, o que muitas vezes cria uma sensação de redundância, repetitividade, pois James, Lars e Cia não possuem a bagagem progressiva que tinha Cliff. Não fosse Cliff, o Metallica soaria bem diferente, talvez mais a cara do James, stoner, rock n roll com country, muito destacado no Load/Re-Load, algo de Motorhead, Venom, etc. Outro cara de grande peso no Metallica, logicamente em toda história do heavy metal e do rock, é Dave Mustaine, fundador/líder do Megadeth. Mustaine é reconhecidamente um gênio da guitarra, praticamente foi um dos fundadores do Metallica, participou e influenciou a banda profundamente até mais ou menos o disco Ride, mesmo tendo deixado a mesma antes da gravação do clássico Kill Em All. Quem quiser saber mais sobre o Metallica, Megadeth, a origem do Thrash Metal, assista ao documentário Get Thrashed de Rick Ernst.

    • Concordo. Só acho que o Kirk é mais importante para definir o estilo final do Metallica, com toda a bagagem técnica dele, do que o Mustaine (provavelmente se ele continuasse hoje o Metallica seria uma fusão do próprio com o Megadeth, uma coisa intermediária entre as duas coisas), isso se a banda não tivesse implodido pela colisão de dois gênios fortíssimos (o próprio Mustaine e o Lars), mas esse é um ponto polêmico e sei que haters gonna hate, é o que eu acho ao menos.
      (apesar de que 1982-1986 para uma banda de 30 anos de estrada é quase nada, é o início, apesar de terem sido esses 4, 4,5 anos o que definiram a espinha dorsal do Metallica)

  8. Guilherme de Souza Oliveira says:

    bom eu escuto essa banda desde meus 11 anos de idade, o primeiro album que eu ouvi foi …and justice for all! eu sim tive o privilégio de montar o palco deles aqui em porto alegre e ver o lars, o james, o trujillo subindo a escada do backstage tomando ceva num copão vermelho conversando entre si e dando risada, enquanto o kirk subia por uma rampa ao lado. o show foi maravilhoso! pirotecnia sensacional, bati varias fotos e tenho algumas palhetas e o set list de palco! foi o melhor show que eu já assisti, trabalhei na montagem durante 5 dias e 3 noites! tenho fotos das guitarras, dos baixos (que sao varios), muito legal mesmo. que quiser ver, eu tenho fotos de alguns show que trabalhei no facebook e no orkut. se quiser ver, adiciona lá, Guilherme Oliveira. ou por email, ziguiziraoliveira@gmail. thank’s guys!

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