Feios – Scott Westerfield

Uma vez estava passeando no shopping com uma amiga e, enquanto tomávamos nossos sorvetinhos sentadas em algum banco, observávamos as pessoas. Primeiro, passaram três adolescentes com o exato mesmo tênis, o mesmo short, a mesma blusa, o mesmo penteado e os mesmos copos da mesma cafeteria. A única coisa diferente entre elas eram as cores dos cabelos e das blusas, todo o resto era igualzinho.  Pouco depois, passaram três senhoras, vestidas com o mesmo estilo de roupa, a mesma escova progressiva, a mesma tonalidade de tintura e botox nos mesmos lugares. Virei para minha amiga e disse: somos todos tão padronizados assim? (sempre me orgulhei de NÃO pertencer a esses padrões).

A primeira e mais óbvia crítica de Feios é essa: a padronização da beleza, essa história e reforço midiático de que só existe um tipo de belo. Lá, ao fazer dezesseis anos, um adolescente deixa de ser Feio e se torna Perfeito – sofre uma série de intervenções cirúrgicas para refletir certo padrão de beleza universal – e se muda para Nova Perfeição, onde só há festas, jogos e diversão.  A protagonista, Tally, uma mocinha prestes a completar os 16 anos, está louca para fazer a cirurgia, deixar os tempos de feiúra para trás e ser uma Perfeita em Nova Perfeição. Só que ela conhece Shay, que não está tão satisfeita assim em fazer a cirurgia, e descobre que o mundo pode ser bem diferente de plásticas e festas…

Bom, todas essas informações estão nas orelhas do livro – e a primeira das críticas GRITA. Foi o ponto que mais me chamou atenção no livro, na verdade: existem várias ideias ao longo do texto – padronização da beleza, manipulação de massa, convivência ambiental, bioética… – mas a história em si não é lá muito digna de nota. Uma coisa que resolvi colocar na cabeça enquanto lia: é uma obra para adolescentes, não para uma estudante de Humanas que já viu todos esses temas profundamente (já mencionei que tenho umas publicações científicas nos supracitados temas?). Para uma introdução sobre esses temas, o livro faz um papel bem legal.

Até notei algo curioso. Fala-se muito nos “punks” derivados do cyberpunk: steampunk, dieselpunk, clockpunk… Um dos punks que uma vez estávamos especulando era o greenpunk: o que seria o mundo em que os meios de produção e a sociedade fossem alvo do esgotamento dos recursos naturais, em que a natureza reagisse? Feios é um dos poucos livros que já li com essa preocupação – o que vem depois do esgotamento dos recursos naturais e as consequências disso. Aqui, até que a sociedade é ecológica e se  vale de recursos renováveis, mas será que não existe também algo por trás disso?

E, óbvio, Nova Perfeição é uma distopia, em que as mentes são esvaziadas para que todos se importem muito mais com a própria aparência, festas e diversões (opa, parece tanto um lugar que eu conheço…). Mas aqui, não senti nem metade da opressão de Jogos Vorazes, para pegar um exemplo onde a comparação vale. Sim, todos são manipulados, todos são condicionados a se tornarem robozinhos homogêneos e a verdade tem de vir à tona, mas Tally é uma protagonista tão light que nem dá para sentir muito sofrimento…

Quanto à história: segue um dos padrões mais clichês de histórias que existe (sem entrar em spoilers mas já entrando, é o “padrão Dança com Lobos/ Avatar de história”) e os personagens adolescentes estão passando por todos os dramas possíveis da época – fidelidade entre amigos, o aparecimento das primeiras paixõezinhas, o desafio à autoridade…  A história, em si, me chamou menos atenção do que as ideias lançadas pelo autor, mas nenhum livro que você lê em um dia pode ser ruim – se a trama não te deixa soltar o livro, é porque tem algo lá que te chamou a atenção, nem que seja a espera da próxima página.

Como essa é uma série – é só o primeiro livro – pode ser que a história encorpe nos próximos volumes. Mas o que valeu a pena aqui foram as histórias: não é muito comum ver tantas ideias e tão complexas em livros para adolescentes e é interessante que temas atualíssimos sejam abordados, principalmente sobre auto-imagem e auto-estima numa época em que isso parece ser tão impossível.

***

Curioso pelo livro? (Submarino)

***

Até a próxima!

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11 Responses to Feios – Scott Westerfield

  1. Bruno says:

    Gostei da resenha, me interessei pelas idéias do livro. Ele parece levantar alguns assuntos muito relevantes mesmo, ainda que não se aprofunde tanto – mas se ajudar a despertar a consciência dos adolescentes que lerem ele, já valeu a pena. E como tu disse, um livro que se lê em um dia no mínimo algum mérito deve ter =P

  2. Alex Bastos says:

    Bem, comprei ele por 9,90 esperando não ser mais um romancezinho fraco, pelas ideias supracitadas já vale a pena dar uma conferida.

  3. Desde que vi esse livro eu fiquei curioso pra lê-lo, mas sabe quando vc vai a livraria e sempre acaba se interessando por outras coisas ou então aparece aquele livro que vc sempre quiz e aí, como vc já está com uns 3 livros na mão (vc vai ler só um, mas leva 3….rs) acaba deixando pra próxima.
    O bom é que seu texto me encorajou a comprar logo o livro e matar a curiosidade! Quem sabe assim eu consigo me “desviciar” um pouco de steampunk….rs

    • Te falar que tb comprei numa dessas, ia encomendar outro livro numa loja on-line e Feios tava lá a 9,90, comprei pelo preço e para aproveitar o frete. Mas até que valeu a pena, até por essa parte do greenpunk que achei bem diferente! Vale ler nem que pela curiosidade 🙂

  4. Isso era uma coisa que sempre reparei em Balneário Camboriú. Como a cidade era pequena, não tinha muitos cirurgiões plásticos, então todas as meninas tinham o mesmo exato nariz. Presente de formatura para mais da metade das meninas que conheci com 16 anos? Silicone.

    Eu sempre tive um certo orgulho estúpido por não ter nada artificial. Uns anos atrás minha mãe me deu uma progressiva e meu cabelo ficou ultra liso ao ponto de eu pensar: que droga, quero ele rebelde de novo.

    Eu ia falar mais, mas aí eu acabaria fazendo meu próprio post no seu comentário. xDDD

    • xD nah, eu gosto ^^

      É aquela coisa de viver a própria beleza, sabe? De cada um ter sua própria beleza, à sua própria maneira. Todo mundo com narizes iguais – por quê? Lembro-me que meu primeiro complexo adolescente foi meu nariz, grande demais. Choraaaava por uma plástica que minha família não tinha condições de bancar. Até o dia em que atinei que esse é MEU nariz – por que trocar algo que é meu por alguma coisa que pode nem dar certo ou ficar harmônica no meu rosto? E passei a gostar dele, por mais que não seja pequenino e delicado.

      Padronização da beleza, dizer que só existe o padrão e tudo fora dele é feio, é algo que me dá horror. Dizer que vc tem de ser magra, loira, de cabelo espichado pra ser bonita me dá horror. Não. Tem como ser bonito de qualquer forma, desde que você se abrace como você é – e como é difícil fazer isso com uma mídia que te bombardeia por todos os lados dizendo o que é certo e errado! Como “ser quem você é” é o mais difícil dos caminhos!

      (empolguei também)

  5. Tânia Souza says:

    Opa, resenha de Feios. Como o Alex, também comprei por 9.99 e li de uma vez. Estou esperando para ver se encontro Perfeitos por um preço considerável, aqui está um pouco caro, e como tem outros na fila.. O que sei é que tenho curiosidade para ver no que vai dar, pretendo ler a série toda.

    Legal da sua resenha é que você apontou qualidades importantes do livro, o fato de trazer questões sobre auto-imagem e auto-estima, ambiente, tecnologia, recursos naturais ( mesmo que não de maneira aprofundada ) e temas comuns aos adolescentes, como amor, amizade, aceitação. Isso é bem legal em um livro para adolescentes, sem linguagem chata e por, de uma maneira ou de outra, prender a atenção, inclusive de leitores não-adolescentes. O tempo todo estamos brigando contra a padronização ( ou, em certas épocas, para não ser tão diferentes do padrão).

    O meu exemplar já emprestei para três sobrinhas e elas devoraram, e sempre me perguntam da continuação.. Acho que é por aí.

    Ah, gostei de conhecer o “greenpunk”…

  6. Acabei de terminar a leitura. Concordo com sua análise. Achei o livro muito relevante para adolescentes, tanto porque a discussão proposta é interessante como a linguagem e a trama são muito pouco desafiadoras para leitores mais experientes. Bom, discuti melhor no meu Tumblr: http://elviswolvie.tumblr.com/

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