Os Magos – Lev Grossman

Meses atrás, em um desses momentos de indecisão sobre a próxima leitura e conversando sobre indicações de livros, meu correspondente gaúcho me indicou um dos seus livros preferidos, que havia lhe impactado bastante quando lido: Os Magos, de Lev Grossman.

A recomendação e a temática do livro (uma fantasia passada no mundo real, nos tempos atuais, com uma pegada mais adulta, além de estar um pouco distante da “modinha” fantástica) me convenceram a dar uma chance ao livro –  e ele acabou trazendo um conteúdo um pouco diferente daquele que eu imaginava encontrar.

Essa é a história de Quentin, um adolescente normal, com tendências nerds, solitário e dotado de inteligência acima da média que, um belo dia, graças a uma série de eventos estranhos, é convidado a frequentar a Universidade Mágica de Brakebills. Claro, até aquele presente momento, ele não sabia da existência de mágica no mundo, apesar de seu apego aos livros infantis passados no lindo, mágico e idílico mundo de Fillory que ele sempre quis visitar. (e aqui entra uma referência explícita e óbvia a Nárnia, mas também, e por que não, à Terra do Nunca, referência que fica mais clara com o subtexto em mente, mas já chegamos lá).

A prova admissional é difícil e criativa e a primeira aula de Quentin, onde ele conhece sua melhor amiga, Alice, é uma das cenas/concepções mais legais que me lembro de ter visto no ano. Toda a primeira parte do livro é dedicada aos anos universitários de Quentin (e fiz minha dúzia de comparações mentais entre Brakebills e a universidade mágica de O Nome do Vento – querendo ou não, a vida universitária é impactante demais para que o autor resista ao desejo de imprimi-la com ares mágicos em seu próprio mundo). Trata-se também de inspiração e homenagem/sátira/subversão assumida do mundo mágico de Hogwarts, mas evidentemente uma escola de ensino fundamental e uma universidade funcionarão de formas bem diferentes, em especial no que diz respeito ao sexo e álcool, ambos consumidos em doses cavalares (e se você passou pela universidade sem comparecer a ao menos uma festinha… Bom, sinto informar, mas você fez isso errado).

Achei essa parte do livro especialmente parada, pois os acontecimentos mais marcantes e pageturn aconteciam em intervalos de várias e várias páginas da mais pura rotina universitária: aula, festa, bebedeira, fofoca, pegação. Depois, refletindo um pouco sobre o tema, me vieram três teorias à cabeça: graças ao mercado editorial norte-americano, que dá preferência aos livros mais grossos (i.e., de mais de 400 páginas), o autor teve de “engordar” a obra em algum ponto e a engorda aconteceu aqui; ou foi de propósito por aquela sensação de eternidade que os anos universitários carregam em si (e depois que eles passam, parece que tudo aconteceu em cinco minutos…); ou um pouco de falta de fluência em escrita mesmo, já que esse é só o segundo livro do autor. Talvez um pouco das três coisas, quem sabe.

Mas, como tudo na vida, os anos universitários passam e Quentin e amigos têm de enfrentar o maior dos monstros: o mundo pós-universitário, onde não existem mais muros de proteção em volta da magia e que você tem de descobrir o que, afinal de contas, fará da sua vida com todo o conhecimento duramente acumulado nos anos anteriores. É hora de crescer e todo abrigo da academia não vai ser capaz de ajudar quem não é capaz de se encontrar sozinho.

Mais ou menos nesse ponto o subtexto fica latente: Os Magos é também um livro autoconfessional. Vários dos discursos mentais que Quentin faz sobre a incerteza que se aproxima com a formatura certamente também foram feitos pelo autor quando seu momento chegou (e, curiosamente, o autor é formado em Letras, com mestrado e doutorado, mas não se encontrou na vida acadêmica. Atualmente, ele é crítico literário em jornais). Também fala muito para uma geração que cresceu entre redes de proteção, mas quando elas se foram, não sabe mais o que fazer ou qual rumo tomar – e que os sonhos trazidos pelos livros, ou a Terra do Nunca onde podem passar seus dias entre fontes de mel, aldeias indígenas e guerras com piratas vai, sim, cobrar seu preço. É um livro sobre a dor de ter de se tornar adulto, sem saber direito o que fazer com toda sua bagagem ou como conseguir o que você sempre sonhou – ou se há algum sonho. É sobre insegurança, incerteza, e o preço a ter de se pagar pela falta de escolha – pois as pessoas podem não estar mais lá quando cairmos em si.

É até muito curioso, pois recentemente ganhei de presente de uma pessoa muito querida que mora lá pelos lados das pampas um livro que também bate em cima desse incômodo de não saber o que fazer da vida todo. A resenha dele vem nos próximos dias e, por mais que se trate de um estilo completamente diferente, vai ser complementar à d’Os Magos.

Porque talvez a mais complexa, difícil, sutil, bela e transformadora magia é conseguir mudar a nós mesmos.

(resenha escrita ao som dessa música).

***

Ficou curioso com o livro? Então ‘bora ler também! (Livraria Cultura)

***

Até a próxima!

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18 Responses to Os Magos – Lev Grossman

  1. Bruno says:

    Li esse livro no fim de 2009, na edição em inglês mesmo (na época eu nunca ia imaginar que saísse em português tão rápido assim), e ela me marcou muito, exatamente por ser um livro de fantasia que te traz com tanta força pra realidade, e te faz pensar muito sobre a vida e o que tu tem feito com ela. Não tenho muito a adicionar a adicionar do que foi dito aí, acho que acho que passou por todos os pontos principais. E acho também que o que arrasta tanto na primeira metade do livro é principalmente a necessidade de condensar os cinco anos da universidade em um espaço tão curto, com acontecimentos importantes mas meio dispersos entre eles – bem diferente de um Harry Potter, por exemplo, que pode dedicar um livro inteiro a cada ano, e nem se preocupar muito com o que rola depois da formatura…

    Mas a cena do vestibular mágico é uma das bacanas que eu li nos últimos tempos também, é muito legal mesmo!

    • É um pouco daquilo que a fantasia pode ser muito mais do que o mundo mágico em si, o “crescer” faz parte dela. E discordo quanto ao Harry Potter: um livro por ano escolar, sim, mas lá o ritmo é completamente acelerado, é coisa acontecendo o tempo todo (e algum tempinho para eles passarem por dramas infanto-juvenis). Mas concordo também que tinha o fator de condensar quatro anos o mais rápido possível e foi assim que o autor escolheu fazer…

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  3. Alex Bastos says:

    Ótima crítica, já estava curioso quanto a este livro e seu ponto de vista veio só somar pontos positivos pra que eu o leia em breve. É bom ver que de certa maneira existem Potters adultos por aí…rs

  4. Pingback: Harry Potter | Leitura Escrita

  5. Laísa says:

    Estive curiosa quanto a ler o livro, mas não sei se vou ter paciência de ler as longas passagens que vc mesmo disse….Talvez, vai-me me paracer mais uma “encheção de sausicha”…

  6. Alexandre says:

    Coisa estranha: quando terminei de assistir o anime Twin Spica, instintivamente eu corri ao “Sonhos e Memórias” do Erasmo Carlos, um dos raros momentos que veio a associação música que mentalmente associo – obra terminada – algo que eu precisava escrever.

    Pena que eu sei que não vou ter essa associação caso leia “os magos”. É complicado explicar, mas minha experiência universitária (em dois turnos) foi totalmente atípica. E isso não deixa de ter seu preço, para o bem e para o mal.

    • A vivência acaba sendo diferente, aliás, a própria vivência universitária foi diferente da do livro, mas o pós-universitário bateu lá no fundo… Tem algumas partes que são “verdades”dessas que me foram jogadas na cara, um diálogo em especial que não sai da minha cabeça: “você náo era feliz em lugar nenhum, será que o problema é mesmo o lugar?˜. Muito bom.

  7. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

  8. Pingback: Traduções fresquinhas nas prateleiras! « Leitura Escrita

  9. Pingback: O Rei Mago – Lev Grossman « Leitura Escrita

  10. Leonardo says:

    Não aconcelho pessoas extrovertidas e com amor a vida a lerem este livro. Ele é extremamente depressivo e com muitos altos e baixos, o autor sériamente deveria procurar um psicólogo ou no mínimo tomar antidepressivos pesados. Não nego que o livro é muito bem escrito e que o desenrolar do livro é muito bem planejado e com personagens peculiares, porém o aspecto depressivo e cansativo predomina.

    • Como eu disse nos comentários do Rei Mago, eu realmente não queria que esse livro dialogasse com nada na minha vida, mas…

    • Bruno says:

      Na verdade, ele faz sim tratamento psiquiátrico e toma antidepressivos… O livro é bastante auto-biográfico nesse sentido, tanto esse como a sequência. É justamente isso que torna o livro tão forte, e que faz com que alguns se identifiquem com ele de maneira tão profunda.

  11. ramon_vayne91@hotmail.com says:

    Antes de mais nada gostaria de deixar claro que essa é uma das minhas séries favoritas, ou seja, não é como se eu gostasse de falar mal dela. Mas o final de O Rei Mago foi realmente ruim, não li tantos livros assim, mas do que eu li foi o pior final de todos. Entendo os altos e baixos, a alegria que se transforma em uma tristeza absurda de uma hora para outra. Na verdade nunca percebi um momento de real felicidade em nenhum dos dois livros, é como se Quentin sempre andasse sobre um piso de vidro. Aliás, ele não sabe aproveitar realmente as coisas boas que acontecem com ele e ao invés disso sempre espera por mais.
    Enfim, só acho que esse final foi extremamente forçado, não foi natural, é quase como se ele achasse que as coisas ruins não acontecem simplesmente, ele acha que elas precisam acontecer, e precisam acontecer da pior maneira possível.

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