O Amante de Lady Chatterley – D. H. Lawrence

(Atenção: não teria como fazer a resenha abaixo sem cometer alguns spoilers. É um dos meus livros prediletos, afinal, e mesmo a compreensão da história precisa de alguns spoilers. Vários deixei de fora, mas não pude fugir de alguns outros. Não falei nada principalmente sobre o final, para não estragar a surpresa. Coloquei também duas fotos do último filme de adaptação do livro, “Lady Chatterley“, que é bem fiel ao espírito da obra, já que o texto ficou gigante. Bom, chega de delongas e vamos lá)

O que faz um livro ser considerado imoral? A abordagem do ato sexual ou o questionamento de uma aristocracia decadente, a crítica social óbvia e sem papas na língua?

O Amante de Lady Chatterley foi censurado na Inglaterra antes de ser lançado, em 1926, sob a alegação de que a obra era imoral.  Foi publicado clandestinamente na França, depois ganhou uma versão editada e a obra integral só foi publicada na década de 1950, nos Estados Unidos.  E, mais posteriormente ainda, foi considerado um dos 100 maiores romances de língua inglesa do século XX.

Como o título já revela, a obra tem, sim, um conteúdo sexual forte, usa palavras fortes e diretas como “fuck” ou “cunt” (este texto explica porque o último é “o pior palavrão da língua inglesa“) e não para de descrever o sexo na porta do quarto, falando dos detalhes que compoem o ato. Até aí, nenhuma diferença para vários e vários romances que descrevem os mistérios da alcova (talvez não com a linguagem tão crua), mas temos ao menos dois fatores que devem ter causado arrepios aos puritanos de quase cem anos atrás: uma mulher que assume a busca de seu prazer, que também precisa de prazer sexual – e que o encontra em um homem de classe social inferior.

E é interessante ver a sexualidade e o desejo feminino vistos pela ótica de um homem – afinal, passamos grande parte do livro vendo o mundo através dos olhos de Constance Reid, que se torna Lady Chatterley pelo casamento infeliz e sufocante.

E falemos sobre ela. Constance vem de uma família liberal, filha de artista e que cresceu no seio da liberalidade europeia, inclusive sendo encorajada a namorar e perder a virgindade ainda na adolescência. Seu primeiro namorado morre na Primeira Guerra e ela se casa com o aristocrata Clifford Chatterley – e, um ponto interessante, o livro não menciona nenhuma grande paixão, mas apenas que ela agradou-se dele e casou-se – mas, como desgraça pouca é bobagem, logo após a lua de mel ele é convocado para a guerra e volta dela paraplégico e sexualmente inválido. Os dois partem então para viver nas terras dos Chatterley no campo, longe da capital e de seus atrativos.

Constance cai em depressão, ainda que o marido eventualmente encha a casa de aristocratas metidos à intelectualidade e de alpinistas sociais sem berço – Connie até arranja um amante para sexo casual, mas não é exatamente *esse* o ponto de sua insatisfação. Sua vida não tem sentido – ela está presa num mundo que acha odioso, numa vida tediosa cercada de pessoas vazias e do ego de seu marido, que cresce mais a cada dia, ainda mais quando ele passa a ser incensado como grande talento literário. Ela, apenas definha, pois está em um lugar que lhe é repulsivo, não tendo muito o que fazer da vida e vendo o tempo passar.

Clifford deixa claro que não se importa que ela tenha um amante ou mesmo produza um herdeiro com outro homem (o que me lembra a passagem que mais me marcou nessa releitura. Clifford fala a Constance que não importa que ela dê escapadas, desde que se mantenha discreta, e ela pensa que escapar presume retorno, e que não sabe se queria retornar à sua vidinha). Até interessante pensar na moral vitoriana – a era vitoriana tinha tomado uma ferida de morte com a Primeira Guerra Mundial, mas ainda agonizava – do “ter e cobrar uma moral altíssima, atirando pedras públicas naqueles que a transgridem, mas transgredi-la discretamente enquanto isso”, e pensar que era essa a proposta feita a Constance: que traísse, mas fosse discreta em seus affairs.

Mas… eis que entra o tal amante na história: Oliver Mellors, o guarda-caça dos Chatterley, homem embrutecido mas que não sai dos pensamentos da Lady e que acende de maneira irremediável seus desejos. E aqui um ponto interessante de se notar na construção da trama: não há muita descrição da mansão dos Chatterley, mas todas as flores, plantas, animais e cores de suas terras, onde Constance se sente feliz e se descobre, estão lá.

Outra coisa: é uma mulher muito convincente como tal que está narrando. Ela passa a crer que a maternidade a fará plena, mesmo sendo criada para ser uma intelectual – e não posso julgá-la por isso, também – mas é uma visão até muito feminina e feminista (ainda mais levando em consideração que era 1926 – e aqui preciso de uma ressalva: quando Mellors descreve a sexualidade de suas parceiras, ele dá uns escorregões  meio feios), ainda mais porque ela quer, procura e se importa com o próprio prazer. Os primeiros encontros dela com Mellors são de uma passividade quase total, mas ela se solta, se impõe e se descobre mulher, se descobre viva. O sexo entre os dois é vida, é, como Mellors define, uma forma de intimidade que acaba por escandalizar o mundo. Não há nada de grotesco ou pervertido na maneira como se relacionam, pelo contrário, é tudo tão natural, como pessoas que se descobrem aos poucos e que querem atingir o prazer juntas e uma com a outra. Minha outra passagem inesquecível do livro é de uma tarde chuvosa em que passam juntos (e é a primeira vez em que Constance toma coragem e vê o corpo nu do amante) e é uma das cenas de sexo mais orgânicas que já vi descritas: eles namoram, se exploram, se excitam e se satisfazem – e a conversa ao final é típica conversa a se ter ao pé da cama, relatando as descobertas de um sobre o outro.

Mellors e Lady Chatterley acabam tendo ambos muito em comum: são pessoas feridas – ela perdida de si mesma e flutuando por uma vida a qual não parece se apegar, ele homem endurecido pela guerra, pelo trabalho e pela desilusão -, que se colocam barreiras para relacionarem-se com outras pessoas, mas que transformam a atração sexual em proximidade e a proximidade em algo a mais.

E onde está o escândalo? Na Lady que se apaixona pelo amante e não é punida por isso com a morte ou a vergonha? (e aqui penso numa comparação da Constance com outra anti-heroína, a Emma Bovary, que, entediada com sua vida de classe-média-baixa do campo, resolveu entrar de cabeça em relações extraconjugais, em desrespeitar o marido, em gastar dinheiro que não tinha e se auto-destruir por completo) Ou ela, que descobre a mulher dentro de si, a força feminina que estava adormecida, numa relação com um homem de classe social inferior?

Até dá para ver que Oliver Mellors não deixa de ser idílico. Apesar do sotaque caipira – que fala por opção – é homem que apesar de vir das camadas populares, teve educação formal e pôde ter carreira no exército, mas preferiu ser guarda-caça para ficar preso às raízes. Ele e Constance possuem afinidades intelectuais, aliás, ele mesmo é intelectualizado e politizado, apesar de não frequentar as altas rodas.

(e outra diferença de leitura: enquanto da primeira vez achei uma relação entre ambos fofa, da segunda não sei se Constance suportaria a diferença de classes sociais ao se tornar a Sra. Mellors, apesar dela odiar tanto ser Lady Chatterley. Não sei se somente o sexo e a proximidade intelectual sustentariam a relação).

A segunda leitura também trouxe consigo uma segunda camada de compreensão: esqueçamos os nomes e backgrounds e pensemos apenas em quem são os personagens: não é a história sobre a intelectualidade inglesa, presa aos ditames de uma aristocracia que é expoente de um status-quo decadente e que fenece aos poucos por isso, mas que precisa se encontrar com o povo, com o popular, para poder existir e ser plena? O mesmo povo que gosta de observar as fofocas aristocráticas – como a Sra. Bolton – ou que tem de conviver com intelectuais que adoram a teoria mas tem horror da “gente diferenciada” – como Hilda, irmã de Constance que é socialista e fica com nojinho da irmã ter um amante guarda-caças. Entregar-se ao popular, quando o prestígio vem da aristocracia acadêmica, também é um desafio ao escritor/artista.

Quanto à estilística, interessante que a narrativa é bem direta, não se perdendo muito nos conflitos mentais de Constance. Não que eles não existam e ela não pense e reflita sobre si mesma, mas a trama se constrói muito mais através dos fatos do que de pensamentos que se remoem. Não se trata muito da reflexão sobre sentimentos, mas muito mais a constatação de fatos (o que também entra em contraste com o Madame Bovary, que invade a mente da Emma). É muito menos sobre construções teóricas e muito mais sobre a observação de fatos e tomada de escolhas.

Enfim. Uma obra sobre como uma mulher se encontra através da entrega ao mais carnal dos amores, como ela se permite sentir e se permite ser, nem que para isso tenha de renunciar a posições sociais e títulos.

(um dado curioso, para terminar: em 1926, este livro foi considerado imoral e indecente e proibido. Em 1936, houve o escândalo da abdicação – quando Eduardo VIII renunciou ao trono para poder se casar com a socialite Wallis Simpson, divorciada e imoralmente americana. E novamente a imoralidade: o divórcio ou ser uma plebeia estrangeira, o que pesou mais? O que pesa mais aqui, a liberalidade do sexo ou o desprezo do título e da aristocracia?)

***

Até a próxima!

Ficou curioso para ler o livro? Procure aqui (Pocket Cia das Letras / Pocket BestBolso )

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6 Responses to O Amante de Lady Chatterley – D. H. Lawrence

  1. Bruno says:

    Parece uma leitura… Interessante. =P

  2. Roberto Ferreira Valderramos says:

    Gostaria que você também lesse – e comentasse – The Rainbow e Women in Love, além dos contos. Acho que você tem um estilo lindamente cândido, não superficial nem posudo, de discorrer sobre os temas.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Tenho o Women in Love na casa dos meus pais, não sei quando irei lá da próxima vez, mas é uma ideia. Acho que eles tem os contos também, daquela coleção Abril da década de 1980…

      E quanto ao elogio, obrigada!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Lê-lo dá animação e empolgação para continuar com o blog 😀

  3. Juliana says:

    Estava com muita vontade de ler o livro, depois de sua resenha fiquei com mais vontade ainda.

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