Jogos Vorazes – Suzanne Collins

Um lugar-comum (que não foge muito da realidade) é o de que todas as histórias já foram contadas. A originalidade absoluta não existiria e seria impossível de ser alcançada, portanto, não seria possível exigi-la, e o que faria diferença em uma história seria muito mais a forma como ela é contada do que seu conteúdo. Claro que essa falta de originalidade diz respeito às linhas gerais de uma obra, pois se formos analisar em nível de detalhes, o incômodo passa a aparecer com força.

E isso foi o que me incomodou da primeira vez que ouvi falar em Jogos Vorazes: a sinopse do livro é exatamente a mesma de outra obra, um pouco mais antiga, chamada Battle Royale. Vejamos: em um futuro distópico, um grupo de jovens é levado para disputar um jogo mortal em frente às câmeras, exibido por toda a nação, e eles devem se matar entre si até que surja o vencedor, aquele que sobreviverá a todos os outros. E, claro, o protagonista vai se rebelar contra o sistema, mas o que está em jogo é a sua própria vida, então as coisas não serão fáceis e nem facilitadas para ele. (tudo bem, nenhum dos dois também inaugurou esse tipo de história – desde o início da humanidade existem ritos sacrificiais de jovens levados a morrer pelo bem da sociedade, como podemos ver no mito de Teseu e do Minotauro, e mais recentemente nos survival movies, mas as linhas gerais das duas obras supracitadas são semelhantes demais).

Vencida minha resistência inicial, com a ajuda de comentários enfáticos como os desta blogueira (fãzona da série) e também de comentários em blogs e sites internacionais voltados mais para ficção científica/fantasia e menos para young adult, fui fisgada pela curiosidade e resolvi ler o livro, até mesmo para saber até que ponto era mesmo parecido com Battle Royale.

E o resultado foi muito superior ao esperado. Encontrei um livro envolvente e cativante – e que, apesar de ter a mesma sinopse de Battle Royale, tem um enfoque bem diferente.

A protagonista aqui é Katniss, menina pobre do distrito mais pobre da grande nação de Panem, erguida sobre o que restou daquilo que um dia foi a América do Norte. Pela fome, miséria, repressão e pouca esperança de melhorar de vida, além da responsabilidade de ter de sustentar a mãe e a irmã mais nova, é uma garota que sabe o mínimo de sobrevivência em ambientes perigosos, além de ter sido endurecida pelas circunstâncias. Toma o lugar da irmã, sorteada para ser a representante daquele ano do distrito nos Jogos Vorazes – o survival-reality-show- game da vez, uma versão para valer do Survivor (ou Big Brother), em que os eliminados da semana… bom, foram eliminados para sempre – e se pretende sobreviver, não pode ter pudores para sobreviver. Seu par, o representante masculino do distrito, é Peeta, um rapaz de sua idade, filho do padeiro, gentil e bem menos cingido pela vida do que a protagonista.

(e é curioso pensar sobre a concepção dos dois personagens: Katniss é durona, decidida, dona de uma personalidade forte e que não tem medo de pegar em armas – e Peeta é o garoto gentil, que decora os bolos da padaria de seu pai e que nunca precisou sair de sua atmosfera pacífica. O clichê comum de “mocinha frágil-mocinho forte” aqui é quebrado e invertido – Katniss é a senhora da ação e Peeta é puro sentimento. Dá até pra fazer uma reflexãozinha sobre gênero, mas só “inha”).

Os dois devem ser preparados – há uma equipe de preparação com uma relações-públicas e um “mentor”, um antigo ganhador dos Jogos do mesmo distrito que eles, Haymitch, que tem o papel de treiná-los e traçar as melhores estratégias para que, no mínimo, não façam um papelão na hora em que o show começar.

Uma coisa que me chamou bastante a atenção no livro foi todo o clima – apesar da minha birra em ler narrativa no tempo presente, dá para se acostumar rápido, bem como com Katniss, a narradora* – apesar de que eu a achei obtusa demais. Tá, ela teve uma vida de merda e tá numa situação de enlouquecer qualquer um, mas ela não se permite simplesmente SER de vez em quando? Sempre tem de ser tão séria e sisuda? Não pode relaxar nunca?. A opressão do mundo, de recursos naturais escassos, possibilidade remota de ascensão social, grades, vigias e o sacrifício anual de jovens para que toda a população saiba que qualquer tentativa de revolta é inútil ficou muito forte – CLARO, não chega no nível de um 1984, mas a ambientação é bem reforçada.

Outro ponto que merece destaque: o tom de crítica. Geralmente, a YA que chega ao topo das paradas não é exatamente crítica, ou tal ponto não é tão forte – ou é tão forte que acaba se desgastando, como a série “Feios”, em que está na cara qual lição o autor quer passar e você nem precisa ler o livro para saber do que se trata. O convite à reflexão aqui é mais sutil – e talvez mais profundo: a violência entre nós também não é banal e a vida não vira produto?

Isso fica bem claro para mim na passagem em que Katniss chega à Capital para ser preparada para os Jogos Vorazes – é um programa televisivo que todos assistirão, então ela precisa ser limpa, receber tratamentos estéticos e ser vestida como recomenda a moda para ser um belo produto a ser ofertado ao público e anunciantes. E isso é deixado claro a todo momento: ela é uma peça do espetáculo e deverá se comportar como tal. A vida dela – e dos demais participantes – é irrelevante.

Outra é como a nossa própria mídia também tem seus jogos vorazes e não estou falando dos realities shows. Qual o valor da vida para os programas policiais de fim de tarde que fazem questão de explorar um crime ao máximo? Ou para todo circo midiático que cercou o caso Eloá, por exemplo, onde só faltaram instalar câmeras no cativeiro?  Para nem lembrar do caso da menina Isabella… – e qual o valor que cada vida ganha. Isso também para não lembrar as revoluções e guerras transmitidas ao vivo e minuto a minuto via satélite para todo o mundo – é até curioso ver numa sociedade em que a morte é tabu a vida valer tão pouco.

E, claro, nada aqui pode acabar bem. Mortes ocorrerão – e a autora até  tem a mão pesada para uma obra juvenil – e também momentos de empatia extrema com os personagens, mesmo com aqueles antipáticos em um primeiro momento – e o final, apesar de ser de certa forma previsível, tem sua boa dose de agridoce.

Não dá para passar por esse livro sem envolver-se, ainda que o mesmo tema já tenha sido explorado outras vezes e com outras nuances. Me surpreendeu muito positivamente, se você não tem preconceitos ou barreiras em relação a young adult, pode ler esse sem medo. Recomendado.

E achei engraçado que mais para o fim das contas, o tom do livro me lembrou demais o tom de Ender’s Game (O Jogo do Exterminador) – sobre a melancolia de ver uma criança (ou adolescente, no caso) ser obrigada a perder ainda mais sua inocência em um mundo em que é obrigada a matar. Recomendo a leitura para quem gostou de Jogos Vorazes.

*Notinha para o leitor avançado que não afeta muito a resenha: a autora utilizou a primeira pessoa no texto, sob o ponto de vista da Katniss, mas, apesar de em tese a primeira pessoa ser mais fácil de ser trabalhada, a autora aqui mostrou que também dá para trabalhar um pouco em cima disso. Katniss narra, mas deixa MUITO sub-entendido e para que o leitor conclua por si mesmo. Tem até um ponto onde achei que a autora jogou muito bem em relação a isso – estamos ouvindo a versão de Katniss, não significa que ela interprete tudo da maneira correta ou que não existam outras coisas acontecendo ao mesmo tempo. A primeira pessoa é um fio condutor para o leitor, sim, mas dá para deixar pontas soltas e muita coisa implícita. Achei bem legal esse uso – e também foge bastante das autoras pouco experientes de outros young adult que utilizam-se do mesmo recurso.

***

Gostou? Quer conferir o livro também? Então compre aqui! (Submarino / Livraria Cultura)

Aproveite e leve também o 1984 (Submarino/Livraria Cultura) e o O Jogo do Exterminador (Submarino/Livraria Cultura)

***

P.S.: Não resisti e fiz um post com spoilers do livro. Para que ninguém veja aquilo que não quer ver, está protegido com senha: resenhacomspoiler . Clica lá, digita a senha e veja os apontamentos, agora com spoilers 😀

***

Até a próxima!

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23 Responses to Jogos Vorazes – Suzanne Collins

  1. Caramba, o primeiro comentário é meu mesmo?
    Bom, assim como vc, fui surpreendida pelo livro, tendo sido literalmente fisgada pela narrativa (como vc comentou no meu post).
    Não conhecia “Battle Royale”, mas vou atrás para ver as semelhanças e diferenças apontadas (ai ai ai mais um livro para a minha lista). Também lembrei de “1984” em algumas passagens do livro.
    A notinha de rodapé tem tudo a ver com aquele spoiler. Realmente foi uma boa sacada da autora.
    E eu ainda vou conseguir analisar e escrever sobre um livro assim como você faz hehehe
    Admito que é um pouco de preguiça. Converso bastante sobre o texto (com um amigo que escreve tb), mas na hora de fazer o post acabo incluindo menos de 50% da análise feita. Às vezes acho que um post muito longo talvez afaste o leitor. Você tem essa preocupação?
    (eu leio sempre tudo até o fim…)

    • Ana Carolina Silveira says:

      E os posts ainda costumam ficar pequenos perto do tanto de coisas que eu tenho a falar sobre alguns livros, sério! Eu fico com um pouco de receio, sim, de afastar leitores com textos grandes, mas ao mesmo tempo, como o projeto do blog é um bocado mais autoral, acabo escrevendo até eu sentir que falei tudo o que deveria falar (e quase nunca falo!). E sempre tem quem leia/goste – inclusive, acho que aprendi a blogar com um amigo meu que SÓ ESCREVE TESTAMENTOS nos textos do blog (o http://www.interney.net/blogs/maximumcosmo/ -> e eu adoro os textos dele, apesar de gigantescos). Uma das ideias do blog, quando comecei tb, é a de que eu queria escrever as resenhas que gostaria de ler – e sempre preferi resenhas longas que debatam sobre livros.

      Eu superapoio resenhas grandes, tenta fazer uma um dia, só com treino que elas saem (as primeiras do blog são péssimas!)

      • Gostei dessa ideia de escrever a resenha que eu gostaria de ler – eu também prefiro textos longos. Vou começar a encarar dessa forma nos próximos posts. Boa dica.
        (Ah, não aguentei e já comprei “Battle Royale”)

      • Ana Carolina Silveira says:

        Pior que eu nunca li o livro, só li o mangá/vi o filme aaaaaaaanos atrás, mas quem sabe até animo depois do Jogos Vorazes… Eu tou SECA é na continuação! Pq cara, depois daquele final eu TENHO de saber o que rola!

      • criscatbr says:

        Tenho de confessar que estou me segurando muuuito pra não comprar o livro em inglês mesmo. Está difícil demais conter a curiosidade!

  2. fabio says:

    Sempre tive curiosidade de ver o filme Battle Royale, mas ainda não vi, agora minha curiosidade aumentou 🙂

  3. Fábio Rocha says:

    Muito boa a resenha! Não li o livro, mas pela sinopse me fez lembrar um pouco de The Maze Runner (recomendo, e muito!)
    Jogos Vorazes agora está na minha lista.

    E você falou uma coisa importante no post: O que importa não é O QUE se conta, mas COMO.

    E por falar no textos, não vejo problemas neles serem longos, pois, acredito eu, que quem acessa o blog constantemente já é um leitor assíduo e treinado; portanto não vai ter preguiça em ler. E quanto maior o texto, melhor você pode expressar suas opiniões rsrsrs

    Abraços (e esperando anciosamente uma resenha de Duna – acabei de adquiri-lo ÊÊÊÊ
    rsrsrs)

    • Ana Carolina Silveira says:

      Nunca ouvi falar no The Maze Runner, vou procurar saber dele depois.

      E ÊÊÊÊÊÊ, mais um partidário das resenhas grandes! Vou dobrá-las ou triplicá-las de tamanho, hehehe.

      E vai lendo Duna que ao menos você vai firmando sua opinião… 😛

  4. Leandro says:

    Parece lembrar um pouco a idéia do Sobrevivente com o Arnold Schwarzenegger nos anos 80.
    Adoro O Jogo do Exterminador e acho que vou dar uma chance para Jogos Vorazes.

  5. Wendell says:

    Agora sim deu vontade de comprar, e se tiver metade da sagacidade de Battle Royale já valeu a pena. Mas só vou comprar no próx. mês, porque nesse já comprei ‘A Fúria de Reis’ . *—*

    Aaah, eu gosto das resenhas quando são grandes e realmente falam sobre o livro e falam sobre possiveis influencias, estilo e o que der na telha . A maioria das resenhas se limita a botar uma sinopse e dizer que gostou, e isso é chato -.-

    • Ana Carolina Silveira says:

      Esses resumos + gostei ou não gostei não são resenhas, quem chama isso de resenha nem sabe o que resenha é, sinto muito.

      Pode até ser que a opinião seja curtinha, um parágrafo ou dois, até tem um post aqui (o Retrospectiva 2010) que é inteirinho de resenhas de um parágrafo só, mas resenha é opinião fundamentada sobre o texto. Pode até ser curto, mas tem de ter opinião.

  6. Pingback: Em Chamas – Suzanne Collins | Leitura Escrita

  7. Achei esse post antigo porque estou prestes a comprar o livro, mas uma amiga fã da série criticou muito a tradução lançada pela Rocco. Disse que há problemas de todos os tipos. Não sei se você leu a versão original, mas como costuma ser exigente com essas coisas (como descobri nos seus comentários sobre a edição nacional de Game of Thrones), teria algo a comentar a respeito? =]

    • Então rs
      Como não li o original, não sei. Posso até tentar descobrir, mas como não sei quais foram os problemas, não posso falar sobre eles, né? Conversa com sua amiga depois e volta aqui para contar o que ela disse que enquanto isso procuro saber aqui tb…

  8. Pingback: Feios – Scott Westerfield « Leitura Escrita

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  10. Pingback: Retrospectiva 2011 « Leitura Escrita

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