Comentando o comentário do leitor

No post sobre Os Sete, o leitor Rogério deixou o seguinte comentário, que achei tão interessante e reflexivo que achei melhor transformar a resposta em post e puxar a discussão cá para cima. O post integral está lá, aqui vou comentar os trechos, que estão em itálico.

“Concordo. Li o livro, aliás, alguns livros do Vianco. Esses erros no livro dele, como o do caso do IML, poderia ter sido consertado se a editora tivesse um bom copidesk, um bom revisor. Mas no Brasil esses profissionais não são valorizados, embora essenciais para a editora e o próprio autor”.

É um ponto que bati forte na resenha dele e é verdade. AGORA está se começando a ter um cuidado editorial maior com livros de fantasia, mas vemos best-sellers com problemas BOBOS que poderiam ter sido resolvidos sem prejuízo algum ao texto. Não são coisas que diminuem a qualidade do texto ou a técnica do autor, mas fica faltando acabamento, as arestas ficam evidentes. Falta copidesque, revisor, leitor crítico, o que seja. e falta também a consciência do papel deste profissional para o acabamento de uma obra, qualquer seja ela.

“Tirando um ou dois de seus livros, mais ou menos, os os restantes do André Vianco são horríveis, puro lixo. Mas…vendem bem! O que isso quer dizer? Que o leitor brasileiro que ajuda a criar bestsellers come lixo literário.  Que no Brasil não existem leitores, apenas gente que embarca no embalo – sujeito faz um marketing pessoal bem feito, aparece no programa do Jô e atura a brincadeira do gordo…e pronto, eis um best-seller”.

Acho que aqui está meu maior ponto de discordância. Por que não existem leitores, por que livros de entretenimento não são livros?

Aliás, vamos a um exercício um pouco maior. Pegue as listas de bestsellers de todo o planeta. Existe alguma que não seja composta majoritariamente por livros de entretenimento? Logo, o desejo de consumo do público é o de uma leitura mais leve capaz de entretê-lo e não de uma atividade intelectual elaborada? Os grandes best-sellers, como a J. K. Rowling e a Stephenie Meyer (apesar de que ambas focam um público mais jovem e creio que a análise seja ligeiramente diferente aqui, mas enfim), Dan Brown, Sydney Sheldon, John Grisham, Stephen King e outros vendem entretenimento. Não vendem qualidade literária ou filosófica (apesar de vez ou outra até conseguirem esbarrar numa reflexão existencial, ainda que rasa), vendem o que as pessoas querem ler.

Também não concordo com a expressão “lixo literário”. Lixo por quê? Por não fazer parte de grupos de estudos acadêmicos, mas ter extrema aceitação popular? De representar aquilo que as pessoas querem consumir como produto? De ser o que as pessoas elegem como leitura predileta e consomem? Que querem relaxar após um dia cansativo, desligar o cérebro nos livros?

E eles são menos leitores por preferirem material de consumo ao invés de material de pesquisa?

O André Vianco é o mesmo caso do Paulo Coelho, com um pouco mais de esforço eles até podem vir a serem bons escritores. Vender bem seus livros é outra coisa. Existem autores consagrados na literatura mundial que em vida não venderam quase nada, e depois de mortos tornaram-se sucessos universais. E outros que venderam milhões em vida, mas depois de mortos e com o passar dos anos, sumiram.

Pois é, mas é a época que dá o valor? No calor dos fatos, podemos com certeza afirmar quem fica e quem vai ser esquecido? Acho que não.

E voltamos à diferença de mundos, a academia de um lado e a literatura comercial do outro. A academia precisa de leitores? Ou o livro-objeto de estudo tem finalidade diferente do livro-objeto de prazer, no sentido de terem leituras diferentes? E essas leituras podem existir ao mesmo tempo ou também podem estar disassociadas?

Não diminuo a literatura de entretenimento. Não sei o que as gerações futuras vão dizer do Paulo Coelho, do Vianco e de todos os outros, porque eu, com meus olhos contemporâneos, não posso enxergá-los. Não podemos avaliar quem fica e quem vai ser atropelado pelo tempo, talvez apenas especular – e me arrisco em poucas especulações nesse campo…

 

Apesar de tudo, acho que o André Vianco está melhorando e muito em seus livros. Com um pouco mais de calma e esforço, ele fará pelo menos um bom livro em vida.

A vida é evolução 🙂

***

O Papo na Estante voltou, após um longo e tenebroso inverno! *-*

Agora com uma nova formação e em nova casa: o site do Nerd Escritor.

Cliquem lá e confiram o episódio 24 – um resumo de tudo o que aconteceu enquanto o podcast esteve fora do ar!

***

Até a próxima!

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8 Responses to Comentando o comentário do leitor

  1. Roberto Valderramos says:

    Penso que um escritor deve ser visto como um artista criador. São dois os quesitos fundamentais: Forma e Conteúdo. Se o texto é superficial, mas é muito bem escrito ou o enredo ou desenvolvimento é bem elaborado e prende a atenção, ponto para o escritor. Se o texto não é de fácil leitura, não pode ser descrito como inspirador, mas apresenta material intelectual ou eticamente enriquecedor, convém atribuir ponto ao escritor. O grande escritor é aquele que cultiva e concilia os dois fundamentos: sua obra se destaca como primor em Forma e em Conteúdo. São esses os fatores primordiais que distinguem uma obra-prima de uma obra apenas interessante, agradável ou trivial.

  2. Oieee. Preciso comentar, não resisto ^^

    Eu discordo muito que o Vianco seja lixo literário. Uma vez vi uma frase interessante. Dizia que não se pode cobrar do autor algo que ele não tentou fazer. O Vianco gosta de contar a história, está preocupado com ela, e não com linguagem. E as histórias dele são capazes de prender os leitores porque são criativas e interessantes. Ele atingiu o objetivo dele.
    Agora, o caso da minha amada JK Rowling. O fato dela ter vendido muito não tira seu mérito literário (vcs sabiam que, em inglês, o nível linguístico dela é o mais elaborado, né? Ela usa expressões próprias de Literatura que poucas pessoas entenderiam com um inglês básico, tipo “hitherto”).
    Nunca li Paulo Coelho, mas acredito que seus críticos sofrem de certo despeito. Ele escreve de um jeito, para determinado público, que compra e lê. Ué, tão simples quanto matemática.
    Alguns autores nacionais que já li pecaram (de modo pior do que simplesmente importar-se com entretenimento): tentaram escrever de forma pomposa, desagradável ao leitor, e cometeram erros gramaticais, principalmente quanto aos tempos e modos verbais. Nada mais doloroso que um escritor supostamente preocupado com linguagem e incapaz de trabalhá-la do modo adequado.
    Eu acho que um livro é bom quando se preocupa em ter coerência na história, linguagem correta e simples (ou mais rebuscada, se o público a que é dirigido souber lê-la). Vários livros considerados clássicos hoje foram escritos para o povão. Cada um tem sua época e sua razão de ser.
    É difícil respeitar a expressão ‘lixo literário’, a menos que venha de um membro da Academia Brasileira de Letras. E esses caras não falam assim de obra nenhuma, porque sabem levar em conta os diversos fatores a ela relacionados, os que citei sendo meros exemplos.

    • Ana Carolina Silveira says:

      Concordo com vc e tenho dois pontos pra reforçar:

      A Rowling acaba entrando nesse balaio de gato por ter vendido muito, mas, como disse, acho que a questão dela é um pouco diferente. Como vc adiantou, não é nem tanto de linguagem, mas de temática/público.

      E “lixo literário”, pra mim, nem se dito por um membro da ABL é para ser levado a sério. Não concordo e não consigo concordar com o termo de forma alguma.

  3. Rafael Tinoco says:

    Chamar qualquer coisa de lixo é bem forte, acho que é um desrespeito com a pessoa que fez. Tem fã que diz aquela frase pronta “faz melhor então”, pq fica ofendida , mas acho que ofença nem é para o fã e sim para o autor … Acho não tenho muito que falar , pois todos ja disseram sobre isso e concordo com eles

    Mudando de assunto, lembra q comprei ” A primeira regra do mago” ? então eu to gostando da historia, como ele conduz o romance de Richard e Kahlan massss não justifica o alto preço. Peguei uma “promoção” na submarino(que ja tem a pre venda de “A furia dos reis” e ja garanti o meu o.ov , R$39,90), quando chegou , putz, o papel é do tipo que não absorve a luz, como eu gosto de ler no onibus , bate a luz do sol na pagina e fico cego @.@, a impressão as vezes é um pouco apagada . Rocco meteu a mão em um livro que pelo menos poderia ter dado uma caprichada melhor

    • Ana Carolina Silveira says:

      Nossa, a Rocco exagerou no preço do A Primeira Regra do Mago, não tinha pq cobrar isso tudo, fizesse uma propaganda em cima e uma tiragem maior, pq 80 reais não tem COMO pagar.

      E gostei muito da maneira como ele conduziu o romance do Richard com a Kahlan, para mim o livro perde a linha mesmo é mais para frente…

  4. Interessante vc falar sobre isso… Outro dia eu estava conversando com minha prima que está no primeiro ano do ensino médio e ela contou que a professora de português dela definiu literatura como textos que permitem mais do que uma interpretação. Dessa forma, Machado de Assis, com a Capitu e talz, seria literatura. Harry Potter, Dan Brownismos, Crepúsculos da vida seriam sei lá, o limbo, narrativas estilo reportagem, lixo tóxico, mas jamais literatura. Legal, né? Imagina quantos leitores essa louca vai criar…

    • Ana Carolina Silveira says:

      Pois é, então tudo é literatura tb, né, pq o que, no mundo, não permite mais de uma interpretação válida?
      Eu posso falar, por exemplo, que Crepúsculo inteiro é uma alegoria sobre religião e virgindade, provando com excertos textuais, e quem vai me dizer o contrário?

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